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xx Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (UNICA)
Pedro
Julho 19, 2011, 15:00:04 por Pedro
Lido: 2979 | Comentários: 25

Notícias
Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli

caio d elia - Tenho a recordação de um depoimento feito por meu pai (Prof. Ricardo D' Elia) anos atrás, quando conversavamos sobre Karatê. Ele disse em referência ao período no qual ele e Ênnio treinavam juntos:
"...acredito que depois de anos de treino consegui me desenvolver como um Karateca, mas o único verdadeiro Budoka que conheci até hoje foi o Ênnio, este sim tinha um espírito excepcional..."
Em cima deste relato pergunto:
Sensei Ênnio, o que na sua forma de encarar e viver o Karatê pode ter gerado este tipo de sentimento, mesmo em pessoas muito próximas a você, como o Prof. Ricardo D' Elia, com quem treinou durante anos?

Sensei Ennio - Nossa!... vindo do Ricardo é um elogio e tanto.
Fico muito surpreso. Realmente não sei o que pode ter causado tal percepção. Não me sinto nem próximo deste ideal. Espero alcançá-lo.

Ulbricht - Primeiramente quero dizer que sou um grande admirador do Sensei Ennio, e que é uma grande honra poder fazer uma pergunta a ele. E que acho um desperdício um karateca como ele não ser melhor aproveitado por nossos "dirigentes" no karate brasileiro!
Sendo assim desejo saber como foi treinar na Japão durante tanto tempo? Quais as diferenças entre o karate no Brasil e no Japão? E como ele vê o karate hoje em dia?
Obrigado!!

Sensei Ennio - Foi uma experiência e tanto e é difícil de descrever em poucas palavras. Como na entrevista há muitas perguntas semelhantes, vou estender as respostas um pouco além do seu escopo para tentar responder às tuas perguntas.

Shaolin do Norte - Na sua opinião, nós brasileiros hoje somos "auto-suficientes" em Karate, onde um iniciante buscando aprender Karate, pode tornar-se um Karateca tão bom quanto um Japonês sem sair do Brasil como o senhor fez?

Sensei Ennio - Não diria que somos auto-suficientes. Acredito que ninguém é, nem o Japão. Hoje o Karate-Do é global e evoluiu e evolui de diferentes formas em diferentes localidades. Acredito no intercâmbio de conhecimento e experiências com qualquer pais/localidade que tenha um Karate-Do desenvolvido.
Mas ao mesmo tempo devemos deixar de nos comportar como uma “colônia” e buscar uma identidade própria (já deveríamos ter), um Karate-Do brasileiro, sem ufanismo, mas acreditar que podemos. Não nos faltam nem conhecimento nem material humano.
Quanto a 2ª parte de tua pergunta, para principiantes, hoje, há bons professores, mas o que me preocupa é o Karate-Do de alto nível, para alcançá-lo devemos unir os talentos e esforços isolados.
Como?... Lembrando-nos que os laços nacionais (Brasil) devem ser maiores que os laços de estilo ou escola, que Karate-Do é Karate-Do, independentemente de grupos, estilos, federações e confederações. Com estas ou apesar destas, devemos agir: implantar treinamentos de alto nível, formar instrutores, disseminar o ensino e a prática do Karate-Do para a população em geral, preparar atletas, promover eventos (não só campeonatos) e promover intercâmbios.
O Karate-Do: o seu ensino e prática, a graduação, os eventos, etc... devem ser desvinculado da política, dos interesses pessoais ou “corporativos, projetos pessoais de poder, seja quais forem eles. O ensino e prática deve seguir um programa próprio, independente e contínuo seja lá quem quer que esteja no poder ou o assuma.
Caso não consigamos isso de forma oficial e mesmo que tudo o que consigamos seja uma iniciativa isolada ou particular, devemos estendê-la a todos que queiram praticar o Karate-Do (prática da técnica, do aperfeiçoamento pessoal e da ética do Karate-Do) e não limitá-la a mesquinhez dos nossos grupos. Daí surgirá a união e sinergia que resultará em mais crescimento e aperfeiçoamento do Karate-Do beneficiando mais e mais pessoas.

GUICOMES - Que tipo de luta acha que melhor desenvolve o karateka: com sun dome; algo simples como luvas e proteção bocal; ou com bogu?

Sensei Ennio - Qualquer que seja a regra não deve descaracterizar os princípios do Karate-Do: o espírito de luta, o respeito, o kime-waza (golpe decisivo) e o sundome (controle do golpe, preservação da integridade do lutador), etc...
Quanto aos tipos de competição que você aponta, acredito que um completa o outro, por exemplo: na competição sem protetores, com menor pontuação e de menor duração, pelo risco e “stress” envolvidos, determinam uma luta mais estratégica, os praticantes arriscam menos ou calculam mais os riscos. Na competição com protetores, com pontuação maior e de maior duração, envolve menor risco e menor “stress” e por isso é mais dinâmica, arrisca-se mais tanto em quantidade e seqüência de golpes quanto em golpes de elevado grau de dificuldade, desenvolvendo-se assim maior versatilidade.

GUICOMES - Já vi diversos relatos a respeito do senhor como sendo o mais forte karateka brasileiro. Você atribui este status a sua carga de treinamento físico da época ou seu espírito? Se espírito, acredita que é algo próprio ou forjado pelo tipo de treinamento que enfrentou?

Sensei Ennio - Não me reconheço na imagem descrita..... Acredito em treinamento (seja ele físico ou mental) mais que em habilidades inatas. O Karate-Do (bem como a vida) nos dá muitas ferramentas e, mesmo que privados totalmente ou em parte de algumas, com treinamento, aperfeiçoando as que temos ou as que temos parcialmente, podemos superar nossas limitações.

GUICOMES - Quais suas técnicas e estratégias favoritas de luta?

Sensei Ennio - Faz 44 anos que treino e, tanto as técnicas quanto as táticas e estratégias, foram mudando ao longo destes anos.

A. HIGINO - A seu ver, a que se deve a decadência do Karatê?
Outrora a Arte Marcial mais temida, hoje, ocupa uma singela posição de mera atividade lúdica.

Sensei Ennio - Respondo esta pergunta na pergunta do “Golden Era”.

Nelson Junior - e uma mais pessoal que técnica... gostaria de saber o que levou o sr. a praticar o Karatê quando mais jovem.

Sensei Ennio - Eu gostava de lutar. As técnicas e o “poder” do Karate me fascinaram. Com a prática fui percebendo pouco a pouco os outros predicados do Karate-Do.

Golden Era - Fazendo um trocadilho com meu Nickname...
Você pertenceu a GOLDEN ERA do karate do Brasil.
Os atletas de hoje em dia nao se comparam aos de sua epoca no quesito Espirito de luta, são apenas PLAYERS de algo que se parece com Karate.
Porque vc acha que houve essa degradação total dos reais valores do karate do?

Sensei Ennio - Conheço muitos karatekas atuais com grande espírito de luta e outras qualidades que os caracterizam como excelentes, contudo não é a maioria. A essência está se perdendo.
Um dos motivos é a falta de formação de Instrutores Profissionais que, além de dominarem todos os aspectos do Karate-Do, também sejam preparados para ensinar e treinar de forma sistematizada desde principiantes a atletas de alta performace. — Veja mais adiante o meu projeto para sanar esta deficiência.
Outro fator, a meu ver, é o excessivo apego as competições, o vencer a qualquer custo, desprezando e descaracterizando-se os princípios e os valores do Karate-Do: o aperfeiçoamento pessoal, a ética (espírito de luta, o respeito, etc...), o kime e o sundome. Pior ainda, estas competições influenciam, moldam e direcionam a prática nas academias, o que limita e distorce o verdadeiro Karate-Do.
Ressalto que não sou contra as competições, muito pelo contrário. Eu mesmo fui competidor por muitos anos, técnico da seleção paulista e da seleção brasileira.
As competições são muito importantes para a divulgação e desenvolvimento do Karate-Do. Bem conduzidas, nelas temos a oportunidade de por a prova “nosso Karate” sob pressão (o que não ocorre na academia), lutamos com diferentes tipos de atletas e diferentes “Karates”, aprendemos novas táticas, estratégias e até novos golpes, e mais importante, tiram-nos da acomodação. Mas as competições devem ser direcionadas para que reflitam o verdadeiro Karate-Do em toda sua amplitude e profundidade.

Bodhi - Os treinos de Karate, quando foram introduzidos no Brasil, eram muito violentos. O sr. atribui essa caracteristica a: falta de técnica, empolgação, compreensão errada, ensino errado, ou os treinos eram o correto e dentro da tradição NKK ?

Sensei Ennio - Isto acontecia no passado por uma série de motivos, inclusive os que você cita, exceto pelo último: nunca foi um “moto” ou uma tradição da NKK, nem de qualquer organização séria de Karate-Do. O Karate-Do deve ser forte, eficiente e eficaz, mas digno e dignificante.
A violência não deve ser um meio ou meta em si. Coragem, Espírito de Luta, Bravura, não é não sentir medo, quem não sente medo não é normal, o medo é um mecanismo de defesa de, pelo que sei, todo ser vivo. Estas virtudes tão comentadas e almejadas no Budo, não consistem em buscar a violência, mas sim, enfrentá-la quando inevitável. Mesmo assim, nem sempre com mais violência.
Os professores devem adequar o treinamento ao tipo de público que procura a academia. Crianças, profissionais que dependem de sua aparência ou habilidades manuais (executivos, médicos, dentistas, marceneiros, etc...) no seu trabalho, ou seja, para sobreviver, não podem se machucar. Deve-se formatar uma aula/treino que possam obter os benefícios do Karate-Do com o mínimo de riscos. O Karate-Do tem as ferramentas para moldar este tipo de Aula/Treino.
Isto até por uma questão de interesse econômico-financeiro, pois sem alunos, não há receita e sem receita não há futuro para o Karate-Do.
Para os que têm interesse em se aprofundar no Karate-Do deve-se ter um treinamento de alto nível em separado. Nestes treinos, assim como acontecia no passado, pela dedicação e entusiasmo dos participantes, pode e ocorrem acidentes, mas são acidentes e, quando ocorrem, devemos procurar saná-los. O que o sofre deve engolir o sangue e continuar a lutar encarando o acidente como um teste de desenvolvimento do Espírito de Luta e Controle dos Impulsos. O que o causa, deve se desculpar pela falta de controle técnico e treinar para corrigir a falta de habilidade.
Mas, atingir um colega propositalmente em uma luta, onde é previamente e tacitamente combinado o “sundome” (controle do golpe) é altamente reprovável: é falta de controle emocional, deslealdade e covardia. Inadmissível para um verdadeiro “Karateka”.

Bodhi - O que o sr. acha  do grande número de repetições nos treinos de karate quando pensamos em lesões por esforço repetitivo ? Lesões de bacia, joelho, e coluna são relativamente comuns em praticantes de longa data do tradicional. Será possivel treinar o tradicional a vida toda sem precisar de algum tipo de cirurgia, ou ter algum tipo de limitação ?

Sensei Ennio - O nível de maestria, de virtuosismo, só se alcança com o treinamento, com a repetição. Isto serve para todas as atividades da vida. Esta prática tradicional foi comprovada recentemente por estudos científicos baseados no acompanhamento de inúmeras atividades humanas, entre elas a dos pianistas profissionais. A síntese destes estudos refere-se a 10.000 horas de prática para se alcançar o virtuosismo.
Os avanços científicos ocorridos nos últimos anos nos campos do treinamento desportivo, alimentação, fisioterapia, medicina e na psicologia, permitem minimizar os riscos ou otimizar o treinamento para se obter melhores resultados sem se comprometer em demasia a saúde. Mas em se tratando da busca do virtuosismo, tanto na parte técnica quanto formação do caráter (budo), não há atalhos.
Muitos treinamentos no caso do Karate-Do, são treinamentos de superação, de desenvolvimento das faculdades não físicas tais como o espírito de esforço, o espírito de luta, a perseverança, dilatação dos próprios limites, controle sobre a vontade, e eu não conheço outra forma de desenvolvê-los a não ser com treinamentos intensos e sob pressão.
Bodhi - Quem foi (ou foram) o maior karateca brasileiro em kumite ? No RJ, o Ronaldo Carlos é uma lenda, o sr poderia comentar ?

Sensei Ennio - Não sei dizer quem foi o melhor. Eu conheci muitos, entre eles, além do Ronaldo: Antônio Gomes Matins, Ricardo D´Elia, Carlos Alberto Galvão Rocha (Carlão), Paulo Góes, Ugo Arrigoni, Antônio Fernando Pinto, Juarez Alves Gomes (Jacaré), Djalma Caribé, ... depois vieram: Robson Maciel, Yohanes Carl Frieberg, José Carlos Gomes de Oliveira (Zeca), etc...

Bodhi - Quais foram os treinos mais dificeis no Japão ? Houve algum dia mais marcante ?

Sensei Ennio - Por causa das circunstâncias pessoais, foram os que descrevo na resposta dada ao “Yama”, mais abaixo.

 Bodhi - O sr. poderia comentar suas valiosas impressões sobre sensei Nakayama, Nishiyama, Asai, Mori, Yahara ?

Sensei Ennio - O Prof. Nakayama deixou uma obra inestimável sobre o Karate-Do. Às segundas feiras, quando não estava viajando, ele dava a aula no “Shidoin-Gueiko”. Era uma aula muito técnica, muitas de suas explicações, só as compreendi após alguns anos.
O Prof. Nishiama estava nos USA e, embora tenha sido apresentado a ele em uma comemoração da Komazawa Dai Gaku, universidade do Prof. Oishi, onde treinei por alguns meses, não tive maior contato com ele e nunca o vi treinando.
Com Prof. Assai tive um contato quase diário no treino. No inicio de 1979, quando se preparava para substituir o Prof. Shoji como instrutor do “Shidoin-Gueiko”, começou a dar o treino em alguns dias da semana. Tinha um karate único, caracterizado por golpes e deslocamento circular. Seu treino era baseado na prática destes golpes.
Com Prof. Mori tive pouco contato, pois morava e dava aula no interior do Japão e vinha cerca de 2 semanas antes do Campeonato Japonês para treinar. Era muito grande e forte.
O Prof. Yahara, dos “Sempais”, foi o com quem mais tive contato. Como é sabido dono de uma incrível explosão e versatilidade. – Veja adiante mais comentários sobre ele.

Bodhi - Apesar de tantos anos passados, me parece que o Karate brasileiro inicialmente foi influenciado por alguns senseis que dedicaram a vida a essa arte marcial: senseis Uriu, Y. Tanaka, Takeuchi, Okuda (quem mais?) O sr concorda com isso? O sr. poderia comentar sobre cada um, especialmente a perspectiva que teve sobre esses mestres após sua experiência no Japão ?

Sensei Ennio - Sem dúvida concordo. Por eles e por muitos outros, inclusive brasileiros. Só para lembra de alguns: Harada, Akamine, M Shinzato, T Kawamura, Sagara, Higashino, Denilson Caribé, Lirton Monassa, A Yokoyama, Buio, Takamatsu, etc...
A minha estada no Japão não mudou a perspectiva que tinha deles: respeito e reconhecimento do seu trabalho.

Bodhi - e por último:
 - Qual foi a maior vitória que a prática do Karate lhe proporcionou na vida ?
Muito obrigado pela oportunidade. Espero não ter feito nenhuma pergunta incoveniente, nesse caso me desculpe antecipadamente. Meu pai competiu na década de 60, e tantas historias ele tinha. Se não se escreve o tempo leva.

Sensei Ennio - Foram muitas, não sei especificar uma só. Cito algumas ao longo da entrevista. Espero que responda a tua pergunta.

KATASHOTOKAN - Frente à FPK como diretor técnico, e presidente, gostaria de saber qual ponto positivo e negativo o senhor citaria.

Sensei Ennio - Este é um julgamento que deve ser feito pelos filiados da época ou pelos que de alguma forma tenham sido afetados, bem ou mal, pela minha administração.

KATASHOTOKAN - “SATORI” Qual sua definição a respeito desse assunto na vida do karateca.

Sensei Ennio - Pelo pouco que sei, Satori, ou estado de iluminação. É um estágio espiritual a ser alcançado pelos homens (ou seres) e pregado por varias religiões orientais tais como induismo, budismo, etc.... O Karate-Do que conheço não se propõe a tal.

KATASHOTOKAN - No Karate-Do, no tripé (KKK kihon, Kata, Kumite,) se o Senhor Tivesse de escolher apenas um, qual seria.

Sensei Ennio - A metáfora do tripé refere-se ao fato que a falta de um deles desequilibra o que ele suporta, no caso, a prática do Karate-Do. Realmente acredito nisto e nenhum dos “pés” deve ser negligenciado. Isto posto, é certo que todos tem preferências. A minha sempre foi o kumite.




xx SURPRESA PRO KARATECA.NET
bcabrera
Junho 16, 2011, 11:20:21 por bcabrera
Lido: 4587 | Comentários: 25

Notícias
Taí galera como eu havia prometido uma surpresa pra turma do fórum...Senhoras e Senhores com voces... Junior "Cigano " dos Santos ...Segue ae o vídeo...


Junior Cigano pro Karateca.net





grande abraço

OSS


exclamation Perguntas para Entrevista com o Ennio Vezzuli
Renê
Junho 03, 2011, 11:21:42 por Renê
Lido: 2312 | Comentários: 27

Notícias
Olá pessoal!

Uma ótima notícia! O Ennio Vezzuli irá realizar uma entrevista conosco.

Segue o currículo do ícone:
  • Participou dos treinos de instrutores da Nihon Karate Kyokai no Brasil de 1973 a 1977
  • Tornou-se instrutor pela JKA no Brasil em 1974
  • Estagiou no Shidoin- Gueiko no Japão de 1977 a 1979

Por favor, coloquem suas perguntas até o dia 14 de junho de 2011 neste tópico!

Para quem não conhece os termos em Japones aqui estão explicados:
Shidoin - gueiko - treino de instrutores
Kenshusei estudante do Shidoin - gueiko até formar-se Shidoin."


Abraços
Rene


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