Autor Tópico: Entrevista com Sensei Yonamine do Karatê Goju-ryu  (Lida 7025 vezes)

Offline RENGO-KAI

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Entrevista com Sensei Yonamine do Karatê Goju-ryu
« Online: Dezembro 23, 2006, 13:44:08 »
RETIRADO DO SITE:
http://adrianofx.multiply.com/journal/item/6
KIAI, não sei exatamente o número da revista, mas creio que é 1993.
Entrevista Sensei Yonamine - Karatê Goju-ryu

SENSEI YONAMINE - na época Oitavo Dan de Karatê Goju-ryu.
Competência-Serenidade-Seriedade-Honestidade
Sensei Yonamine - Uma lição de vida

Reconhecidamente sensei Yonamine, OITAVO DAN, graduação que lehr foi conferida pelo grande mestres da Goju-ryu, Meitoko Yagi, é o maior e mais expressivo no contexto da Gojuy-ryu no Brasil.
E a KIAI não poderia deixar de abrir espaço para divulgar detalhes relacionados com a atividade desse respeitado mestre das artes marciais, nesejando assim ,aos seus leitores. Uma oportunidade para conhecerem, não só seus critérios de ensino, como também o que pensa e aconselha quanto aos riscos de jovens aprenderem com pseudo professores.
Sensei Yonamine imigrou para o Brasil no dia 13-08-1961, integrando a última safra de mestres japoneses que para aui vieram e aqui se radicaram com o objetivo  de ensinar o verdadeiro Karatê.
Atualmente, a associação de yonamine lidera o ranking paulista com mais de 100% de pontos de vantagem sobre a segunda colocada, quer seja individualmente quanto por equipe.
Além do mais, sensei Yonamine é uma das poucas associações filiadas à escola de Meitoko Yoagi sensei em todo o mundo, a Meibukan Goju-ryu Karatê-do. Árbitro internacional Yonamine é diretor de arbitragem da FPK e membro da comissão de arbitragem da CBK.
Eis a entrevista concedida por Yonamine à KIAI.

Que tema o sensei gostaria de abordar inicialmente?

Inicialmente, gostaria de salientar as diferenças que vejo no Karatê-do e no Karatê esporte, pois são dois caminhos totalmente distintos. O karatê esportivo é o caminho que serve para revelrar aos outros uma ordem cronológica dos que são so melhores, isto é, o primeiro, o segundo e assim sucessivamente.Ou seja, o ponto máximo de q2uem o pratica é ser campeão, ou pelo menos obter um resultado expressivo, como objetivo ou alvo. Mas na verdade, um campeão, na maioria das vezes, não sabe em que escala de conhecimento se encontra. E isso é ruim, por que na nossa vida no dia-a-dia é diferente, pois na escola fazemos o primário, o ginásio, o colégio e, enfim, a universidade. E a partir daí,  se quisermos mais, teremos que estudar, desenvolvendo nosso conhecimento. Assim, também no Karatê-do existe uma escala de conhecimento e desenvolvimento, e os adversário de seus praticantes não são atletas em diferentes competições, e sim o seu "eu" interior. Este é o oponente do praticante de karatê-do.

Sensei, esclareça melhor a questão da escala, como funciona a coisa?

Vou tentar esclarecer melhor fazendo uma comparação com o ensino normal. Você passar pelo ginásio, colégio e cai no vestuibular, no entanto, em cada ano, em cada turma, existem os melhores, isto é, o primeiro, o segundo e assim por diante, enquanto no karatê esporte, o que passa a competir no primeiro ano, se for bom, se assimilar as técnicas dos adversários, já se nivela com os de ponta e que estão há anos nas competições. E por que isso? Por que não há conhecimento ou aplicação técnica suficiente, ou seja, o nível técnico competitivo é raso, é mínimo.

"NÍVEL DE ARBITRAGEM PÉSSIMO"

Além do mais - prossegue sensei Yonamine - isso acontece também por que o nível de arbitragem é baixíssimo. Então, o atleta que é consciente de suas limitações, tenta ludibriar a arbitragem, pois sabe que se encenar bem, cola, ou seja, usa do recurso da "máscara" para envolver a arbitragem.

Então o importante não é apenas o nível técnico dos atletas, mas também o nível técnico da arbitragem?

Exatamente. Não adianta o atleta demonstrar um nível elevado que, geralmente a arbitragem não assimila, não aquilata.

E o senhor vê alguma alternativa para a questão?

A arbitragem não pode somente se apegar à aplicação ou colocação de um golpe, e sim atentar a luta como um todo, avaliando a mesma pelo aspecto evolutório, ou seja todo o movimento tem uma trajetória, com início, meio e fim, e isso deveria ser avaliado. Desde a postura, forma, caminhar, etc. Deve-se-ia deixar o Karatê aeróbico ( dança ) de lado e forçar o desenvolvimento do Karatê prático e lógico.

"80% dos que ensinam não são professores"

Além disso - aduz sensei Yonamine - acho que mais de 80% dos professores no Brasil não são professores formados devidamente, são elementos que alcançaram a faixa preta e se autodenominam professores. É por isso que se vê nmuitos casos, aqui, de alunos que por não receberem muito de seus professores quando conquistam um campeonato, desligam-se de seus pseudo professores e seguem seu caminho, isto é, ambos estão nivelados por baixo: um, não ofereceu e não deu muito; o outro, tão pouco, ainda que tenha muito que o ligue a seu mestre. E praticamente no sentido filosófico não atingem nada, por que nada foi oferecido e portanto, nada assimilado. Basicamente, nenhum trabalho foi feito.

E quanto tempo se leva para se obter esse conhecimento básico?

Bem, para se ser campeão, às vezes em um ano se conseguie...agora, na vida real, no Karatê real, pode-se levar até a vida toda, pois sempre haverá uma evolução...

Sensei o que o senhor classifica como evolução? O que é a filosofia nas artes marciais?

A coisa é muito complexa. Temos que retroceder no passado. Antigamente não havia a tecnologia que existe hoje. O Karatê sempre foi algo que esteve interligado ao cotidiano às atitudes do nosso dia-a-dia e uma pessoa que praticava Karatê, podia fazê-lo de forma intensa, ou seja, se dedicava ao Karatê, ao mestre e fazia disso a atividade central de sua vida. Hoje não, temos uma vida multifrenética e complexa, não existindo a mínima possibilidade de um indivíduo ir ao dojo e só. Ele tem que estudar, formar-se profissionalmente, mas o mestre, o verdadeiro mestre deve analisar a personagem e o cárater do aluno, e auxiliá-lo no que for necessário para sua evolução como homem.

Quando viaja para o Japão, o que o sensei recebe de seu mestre?

Primeiramente, o que se fala é de muita coisa, mas o que com certeza não se fala, é do Karatê esporte, pois, para o meu mestre isso não existe.
Competição é uma palavra que não existe no vocabulário do meu mestre.
O que dele recebo são sempre conhecimentos técnicos, no que abrange golpes, energia.

E na área filosófica?

É difícil dizer algo sobre a questão filosófica, pois envolve níveis de conhecimento e evolução interior, mas tentarei explicar de maneira que atinja o maior nível de leitores possível. Então veja, um praticante de Karatê que recebe instruções de um verdadeiro mestre, quando se depara com um oponente, seja no nível de competição ou até mesmo de briga de rua, primeiro deve ir com uma postura de superioridade, pois sabe que ele não foi o pivô da encrenca, que tem conhecimento elevado e jamais provocaria uma situação de combate desnecessariamente, e não traz no peito ódio, raiva ou qualquer desequilíbrio emocional, pois tem consciência do que está fazendo. Tem sangue frio e prepara a luta estrategicamente, não parte para cima do adversário sem um plano, vê a luta como um todo, isto é, não só a parte física, alia o coração e o intelecto, com muita presença de espírito e harmonia, sem ódio ou precipitações, enquanto o karateka mal instruido, vai desequilibrado energeticamente, pois na prática, uma luta é como um tabuleiro de xadrez, e se um aluno perde, ele pára após a luta e analisa o motivo que provocou a perda.

Seu mestre Meitoko Yagi, lhe proibe competir?

Não, de maneira alguma. ele apenas pede que alèm da competição, eu ensine o verdadeiro karatê aos meus alunos.

Quantos alunos de nível elevado seu mestre possui no mundo?

Em nível de Oitavo Dan, como eu, uns cinco.

Quantas escolas( filiadas ) o Meitoko sensei tem em termos mundiais?

Não são muitas, mas tem na Ásia, Canadá, Estados Unidos, França e América do Sul.

E todas participam de competições?

Eu sou o único, pois não só no Japão, como em outros países, é difícil um mestre viver do Karatê, Eu tenho a felicidade de possuir boa escola, minhas filiais e vivo bem disso e trabalho com o Karatê meu tempo integral e participo de competições, pois a estrutura de nosso país permite.

Como o senhor define Kihon e a competição?

Kihon é uma luta contra um inimigo imaginário, na qual você busca derrubá-lo com um único golpe, preciso e potente. Já competição é dança, é aeróbica, por isso coloco música em minhas aulas. Meus alunos treinam 6 dias por semana sendo 3 Jihon e outros 3 competição.

O sensei vai a competições quando está no Japão?

Sim, obviamente.

E o Meitoko sensei vai consigo?

Não, nunca. Pois esse não é o Karatê como ele vê, mesmo por que muitos dos líderes de outros estilos que estão lá hoje, aprenderam com ele, e lá também existe a questão política e meu mestre não aceita que dirigentes que aprenderam com ele, e sabem muito menos que ele, queiram graduar seus alunos. Os professores de Okinawa não tem o menor interesse em participar de competições no Japão.

O senhor após tantos anos no Brasil, como vê atualmente as competições?

Triste, um pouquinho triste né, pois ninguém está reinado mais o verdadeiro Karatê. È só competição. Ningupem se preocupa em conhecer o profundo, só o raso, só o mínimo para competir. Tudo está virando água. Quatro ou cinco golpes e nada mais. Aliás, como em outras modalidades, como o Judô e o Jiu jitsu.

Mas isolando as coisas, o senhor é totalmente contra atividades esportivas?

Em absoluto, acho que o esporte é festa dos jovens saudáveis do nosso planeta. Só que no Karatê, assim como na maioria das artes marciais japonesas, estão nivelando a coisa muito, mas muito mesmo, por baixo. E os responsáveis por este estado de coisas são os mestres, não os jovens alunos.

No seu sistema de ensino existe o trabalho psicológico?

Eu nunca penso em formar campeões. Preocupo-me apenas em passar para os meus alunos tudo o que aprendi com meu mestre tecnicamente, mas somado a isso, trabalho muito a questão psicológica deles, cobrando de todos no mesmo nível, principalmente dos meus filhos e dos campeões.

Ressalta aos olhos de quem visita a academia do sensei Yonamine que se trata de uma academia tipicamente familiar. Não só pelo fato do sensei ter quatro filho9s faixas pretas e todos atletas de ponta, mas também por que ela é frequentada por pais e até avós dos alunos, que percebe-se, fazem do dojo parte deles, integrado, assim se manifestou sensei Yonamine, ao ser indagado se também é assim em Okinawa com seu mestre:

Sim, 80% do que faço, aprendi com ele. Lembro-me de um dia, quando minha filha Simone estava lá comigo, pois ia participar dos Jogos Olímpicos Nacionais do Japão, e pedi a Meitoko sensei para dar-lhe uma mão nos seus preparativos e quando Simone fez uma demonstração para ele e sua esposa, presentes ainda muitas pessoas, os dois, emocionados, choraram. Ele, realmente, tem um grande coração e encara a todos como sendo membros de sua própria família.

Por que o senhor faz questão que os pais entreguem as graduações para os filhos?

Isso é muito importante, porquanto são os pais que trazem os filhos para a academia, os esperam e pagam. É muito sacrifício, mas isso é muito importante para eles valorizarem o pai, a mãe, o vovô. Sempre digo aos meus alunos, que lutam, que treinam muito, que o importante, aliás, o mais importante, é eles dizerem "obrigado" a eles que lhes oferecem todas as condições para "virem aqui" A idéia é que antes que eles "empinem" os narizes saibam reconhecer e valorizar os esforços dos pais.

E o senhor acha que eles entendem e assimilam isso?

Sim, pois tudo lhes é explicado. E eles compreendem que antes de irem para a competição e conquistarem medalhas, houve um grande preparo na academia e tudo isso graças aos esforços e dedicação dos pais.

Por que os alunos quando terminam as aulas não vão embora, continuam na academia?

Se dependesse deles, muitos não iriam embora, ficariam aqui, tão bem se sentem, eu não raro, sou obrigado a "tocar" muitos para que retornem a casa. Aqui, quando temos seletiva, pergunto a eles que Kata vão fazer, então mando os faixas pretas se sentarem com papel e caneta e eles dão notas para os que são de nível inferior. Sabe por que? É que aqui temm atletas muito bons e muitos de origem japonesa. Então, para não haver dúvida em relação aos atletas, ou seja, o time que irá nos representar nos campeonatos, os próprios alunos elegem os que estão em melhores condições de competir. Não somos apenas um time, somos antes de tudo uma família. Por isso ganhamos tudo, não somo uma "panela" onde uns querem mais aparecer que os outros. Outra coisa, se um aluno começa a "usar salto alto" os demais logo tratam de puxar o tapete dele.

Quando a KIAI começou a cobrir os eventos marciais, a Meibukan mantia a hegemonia nos Katas. Hoje está ganhando não só nos Katas, como também no Kumitê. A que se deve isso?

Para se ensinar o básico demora muito tempo. No ensino do Kumitê coloco música e ensaio os alunos como se entra, a defesa, o combate, e pronto. Com 20% do tempo, se faz bons campeões.

Sensei, o que o senhor acha ser realmente importante na relação mestre-aluno?

O mestre basicamente tem que ter o dom de olhar para o seu novo aluno e defini-lo, não só quanto ao nível social e intelectual, como também de uma forma mais abrangente, isto é, tantar ver em que estágio emocional ele se encontra, que tipo de relacionamento há entre ele e seus pais, se é filho único ou não, e eu , geralmente nessa ótica, acerto 90%, seja ele branco, negro, japonês, se está com problemas com os pais, etc. Daí, além da formação marcial, deve-se partir para uma colaboração também em relação a formação dessa criança com vistas a detalhes importantes.
A coisa é bem profunda e dimensiona a responsabilidade entre mestre e aluno, abrangendo outros níveis além do técnico e defesa pessoal. O mestre deve funcionar meio como suplente do pai, meio como complemento na sua educação. Daí a importância dos pais conviverem um pouco com os mestres de seus filhos e saber com que tipo de homem seu filho está convivendo.

Nota-se que a preocupação do sensei Yonamine não está voltada apenas para o lado técnico e físico dos alunos, mas acima de tudo para o outro lado, o mais importante se se atentar ao futuro deles, o da formação de homens na acepção do termo, e para tanto, faz ele questão de acompanhar o dia-a-dia de cada aluno, inclusive no que pertine à sua vida familiar. E é esse comportamento, essa dinâmica filosófica de trabalho que faz o sensei Yonamine o mestre completo...

Offline RENGO-KAI

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Entrevista com Sensei Yonamine do Karatê Goju-ryu
« Resposta #1 Online: Dezembro 24, 2006, 17:15:09 »
È bem antiga essa entrevista, mas tem alguns pontos interessantes...O que chamou atenção de vcs ?

OSS

Offline mago

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Re:Entrevista com Sensei Yonamine do Karatê Goju-ryu
« Resposta #2 Online: Abril 22, 2011, 16:00:46 »
OSS,

Esta entrevista é com o sensei Yasunori Yonamine?

É que andei procurando e sei que também tem o Kazunori Yonamine.

O sensei Yasunori Yonamine, foi o sensei de meu sensei, por isso a minha curiosidade e interesse na entrevista deste tópico.

OSS!

GOJU-RYU

Offline Chucrutis

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Re:Entrevista com Sensei Yonamine do Karatê Goju-ryu
« Resposta #3 Online: Julho 18, 2011, 13:26:18 »
Mago .. isso mesmo... esse é o sensei Yassunori Yonamine, da Goju, o Sensei Valdir treinou com ele por alguns anos..

O sensei Kazunori é da shorin Ryu.

Sensei Yassunori é exemplo a se seguir no Karatê.
Pra quem já treinou ou conhece sabe que não só ele mas todos da familia yonamine são pessoas 110%.

Osu.
Jean C. Peyerl

"O tatame é meu chão, o kimono minha pele e a faixa minha alma"