Autor Tópico: É ISSO QUE ACONTECE...  (Lida 2128 vezes)

Offline retsudo tanaka

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É ISSO QUE ACONTECE...
« Online: Fevereiro 26, 2008, 16:26:23 »
É isso que acontece...

O que vou relatar agora foi contanto por um grande amigo de Brasília que convive nós meios da federação local que está filiada à CBK. É uma história que, pelo menos a mim, chocou,  mas que mostra claramente os perigos de haver uma inversão de valores no karatê. Principalmente quando ele é visto e treinando apenas como esporte.

A principal academia de karatê de Brasília formou vários campeões brasileiros nas diversas categorias de peso. Campeões, bi, tri brasileiros, pan-americanos e etc. Até o final do ano passado, ela tinha uns 10 karatecas das categorias inferiores de idade com nível de pódio em campeonato brasileiro, numa turma ESPECIAL de aproximadamente 20 alunos infanto, juvenil e Junior.

Neste ano, após o atraso  de 30 minutos da turma inteira, o sensei titular da academia repreendeu os jovens alunos e os proibiu de treinar durante uma semana no seu dojo e também proibiu-os de treinar com a seleção estadual neste mesmo período. Na verdade o atraso no dojo deveu-se ao fato de que esses alunos estavam estendendo o treino com a seleção, visando o campeonato sul- americano das categorias inferiores. O sensei não aceitou a justificativa e puniu os alunos.

Este sensei, que já vi o treino uma vez, tem um karatê que foi formado no “modo antigo” do karatê , mas acabou, ao longo da década, optando por enfocar o lado esportivo em seus treinamentos. Tendo, inclusive já sido campeão brasileiro de shiai. Enfoque quase exclusivo de seus treinamentos. Daí o sucesso em competições.

Pois bem, ao que consta, após longos anos dedicados aos torneios, o sensei reformulou seu modo de pensar e estabeleceu que o enfoque dos seus treinos seriam os fundamentos e um karatê marcial, em detrimento ao esportivo. Informou isso a todos seus alunos, adultos e inferiores. Uma semana após a punição e a mudança de treino, TODOS OS ALUNOS EM IDADE INFERIOR A 18 ANOS, simplesmente abandonaram a academia indo treinar em outro Dojo, já que o treinamento de competição não seria mais o principal. TODOS.

Os adultos que participam da seleção local e brasileira permaneceram com o sensei.

Eu fico pensando que em primeiro lugar isso é uma lição ao sensei titular. Algo errado ele fez. Produziu excelentes atletas, mas péssimos karatecas. Mudar de sensei?? Só em casos extremos, penso eu.
Essa molecada não sabe o que é karatê. O pior é que o sensei foi o responsável por arrumar o patrocínio de todos esses jovens. E, agora, eles vão embora. 

Outra coisa. Como o outro sensei que recebeu os alunos, assim como o técnico da seleção local não repreenderam esses alunos?

Isso serve para mostrar que, quando o foco é única e exclusivamente o esporte, se perde o que essencial ao karatê. Não sou contra competições. Eles estão aí e foram estabelecidas pelo todo poderoso, maior e etc sensei Nakayama. Mas as coisas atingiram uma proporção absolutamente desvirtuadora.   

Offline retsudo tanaka

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #1 Online: Fevereiro 26, 2008, 16:31:42 »
A academia tem mais de 100 alunos só em idade inferior a 18 anos. Mas esta turma treinava separada por ter os alunos que mais se destacavam.

Offline Borchio

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #2 Online: Fevereiro 26, 2008, 22:55:28 »
eu conheco esse sensei, ja fiz um curso junto com ele... to espantado com o fato mas fiquei fã da atitude dele
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Offline yama

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #3 Online: Fevereiro 27, 2008, 01:04:33 »
Oss 

Que preço caro que foi pago,isso é mais normal do que parece,quem oferecer mais leva,mesmo sem qualidade, a fama é efemera mas todos acabam por busca-la >:(

sem Oss para eles
alberto/Santos.
« Última modificação: Fevereiro 27, 2008, 01:06:43 por yama »
yama-Alberto S. Almeida

Offline Avi

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #4 Online: Fevereiro 27, 2008, 02:10:20 »
Em 2006, antes de conhecer o fórum e a academia em que treino devo ter visitado umas 10 academias de karate, a maior parte perto de casa. Umas 7 participavam regularmente de competiçoes tendo a via esportiva como principal. Vi treinos onde enquanto 2 competiam num pequeno quadrado, os outros aguardavam em pé, rindo, brincando, contando piadas. O treino consistia quase que num jogo de tentar tocar o outro fazendo fintas com as mãos. Cada um treina o que quer, onde quer, eu achei bem estranho.

oss
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Offline DoghQuch

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #5 Online: Fevereiro 27, 2008, 08:06:37 »
Oss!

Fico feliz de não ser japonês e poder escolher com quem posso treinar. Concordo que o motivo dos caras foi frívolo, mas se o seu Sensei para de te ensinar algo que você considera util, então você tem todo direito de procurar outra pessoa que te ensine.

Eu mesmo fiz isso mas a situação era contrária. Meu primeiro Sensei foi para o Karate esportivo, jurou de pé junto que era por motivos políticos e que não mudaria nada nos nossos treinos ou na filosofia de aula.

Bem, as coisa mudaram e mudaram muito. Dei muitas chances para ele, conversei algumas vezes e como ultima "ação desesperada" até pedi que ele me cobrasse diferente dos outros porque aquilo não era Karate para mim. Eventualmente desisti, mas não sem ganhar muitos maus hábitos.

Ele era (realmente no passado, no sentido de não ser mais) o melhor professor de Shotokan de Campinas. Podia não ser o melhor Karateka, mas vou continuar dizendo para todo mundo que ele era o melhor professor de Shotokan de Campinas.

Hehehe, meu atual Sensei por sinal tem uma rixa de morte com ele...

Minha saída não traz nenhuma desonra para mim ou para ele.
"E depois de tudo, céu e terra aí estão, como se nada tivesse acontecido.
  A essa altura, a vida e as ações de um homem têm o peso de uma folha
  seca no meio da ventania..."

Lezon

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #6 Online: Fevereiro 27, 2008, 13:43:10 »
Sinceramente que estou farto de ler e reler o que se diz sobre o Karate desportivo e tradicional.. Uns porque porque gostam e fazem competição e outros porque não gostam e fazem tradicional. Diz-se sempre as mesmas coisas e nada muda, nem pode mudar, perdão… realmente pode mudar se as pessoas quiserem e forem sensatas e, fundamentalmente, se forem  tão profissionais e capazes como aparentemente demonstram ser…

Penso que as pessoas com posições de destaque, mais concretamente aquelas que estão directamente ligadas ao ensino, deviam parar um bom tempo para pensar bem em toda a temática do Karate, não esquecendo o passado, mas também o presente e ainda o futuro.

Nessa paragem de tempo, há que saber reflectir, há que consciencializar, há que se esquecer de olhar para o seu próprio umbigo, há que saber visionar o que nos rodeia, e, acima de tudo, reconhecer os nossos erros e as virtudes dos outros, e não o contrário.

Se queremos que o nome do Karate seja respeitado e admirado, só há um caminho a seguir, penso eu. Poderei não ser um bom exemplo, no entanto, pelo que já caminhei no Karate, pela minha verdadeira convicção, pelo curriculum e provas dadas, penso que ainda tenho um pingo de saber para concluir que, o único caminho a seguir para que o Karate seja respeitado e dignificado, é que ambas as vias caminhem de mãos dadas e não de costas voltadas.

É perfeitamente viável e saudável, já que eu caminhei nessa harmonia e tudo me correu lindamente, tal como hoje o faço sem qualquer tipo de demagogia e/ou de pretensiosismo. Em Portugal eu  ministrava aulas de Karate tradicional, nada de “ pulas pulas “, mas também ministrava aulas de competição. Nunca tive falta de alunos e todos  se davam bem uns com os outros. Felizmente também que os meus competidores e campeões que foram muitos, também adoravam treinar forte, pelo que para além das suas aulas específicas de competição, apareciam sempre para participarem nas aulas de Karate tradicional. Aliás, refiro que as graduações que ostentam nada tem a ver com a competição, mas sim pelo que são capazes no estilo que praticam seriamente.

Com isto quero afirmar que é possível haver uma simbiose perfeita entre o Karate desportivo e o tradicional. O que é preciso é as pessoas quererem, mas também devem ter consciência de que têm que se actualizar a vários níveis nos métodos de ensino, caso contrário não dá. E aqui está o busílis da questão…

Temos que pensar todos que estamos em 2008 e não em 1920 ou 1930. Tudo mudou e continuará a mudar. Quando se diz mal de uns, estamo-nos a expor que também digam mal de nós, e quem se prejudica somos todos nós e a própria imagem do Karate.   

Pergunto:

Porque não ensinar as duas formas de Karate?
Aqueles que não são capazes de o fazer, seja lá porque motivo for, porque se sentem impelidos a dizer mal e/ou a denegrir os outros?
Será que em ambos os lados não há gente tecnicamente capaz?
Antes de falarem e/ou escreverem, porque não meditam na filosofia do próprio Karate? Será que ela está bem enraizada no concreto dentro de todos?

Hai!!!   Oss!!!
 

Offline fran

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #7 Online: Fevereiro 27, 2008, 14:21:28 »
Eu nem vou deixar passar pela cabeça de mencionar o meu estilo que é o Kyokushin, de uma maneira geral convivemos muito bem com isso.

Aqui os Karatecas (Shotokan, Goju, Wado etc) se empolgam nas suas argumentações muitas vezes radicais de que isso e aquilo, Karate de competição não é Karate, Karatê tradicional, Karatê esporte....bla bla bla...o que eu gosto é ótimo o que eu não gosto é $%&!.

Minha modesta opinião é a de que todos estão certos....porem...agindo errado.
Pode praticar o Karatê marcial tradicional e se quiser competir esportivamente que se prepare para isso de uma maneira adequada....ou adequando um espaço no treino diário ou mesmo em treinamentos especiais destinados a esse fim.

Como alguem disse.....ficar num canto da academia treinando competição totalmente alienado ao andamento do treino também não acho legal.....A coisa tem de ser séria.

Offline retsudo tanaka

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #8 Online: Fevereiro 27, 2008, 14:24:37 »
Caro Lezon,

Talvez eu tenha sido interpretado de forma equivocada. Acho que as duas vias são possíveis. Não tenho nada contra torneios. Gosto de ir ver e respeito qualquer campeão, seja da tradicional seja da CBK. Acho que não se é campeão por acaso.

O que me impressionou neste caso é que, simplesmente, os treinos passariam a ser balanceados entre competição e marcial, o que impeliu crianças a decidirem em conjunto a abandonarem seu dojo. Aqui não é uma crítica a CBK ou a WKF, mas aos professores e alunos.

Da mesma forma que não compartilho da visão que karatê é unicamente marcial, para matar o adversário. Também acho que o karatê tem intrínseco a si a formação de valores através moldagem de caráter. Isso independe de ser treinando como esporte ou não.

O sensei desta história, até onde sei, é muito sério, de caráter e tem história. Além de ser um touro fisicamente. Não importa se ele é CBK ou tradicional.

O que assusta é crianças abandonarem seu mestre, que lhes arrumou patrocínio, abandonar o dojo porque o treino não seria unicamente esportivo. Aqui, o que está em jogo são sentimentos e valores de pertencimento, parceria, fidelidade e, sobretudo, gratidão.

Fiquei pensando se eles foram influenciados pelos pais, ou aliciados pelo técnico da seleção local.   Quem já esteve em Brasília sabe que ela é do tamanho de um ovo. Não tem 10 academias da CBK lá. Ou seja, todos os professores se conhecem e fazem parte da diretoria da federação local. Como fica essa relação agora?

Então Lezon, não se irrite. Esse e-mail não se trata de que a federação tal é melhor que a outra. Nem tão pouco que a verdade está na via tradicional ou esportiva. Se trata de valores, que talvez hoje em dia, nas sociedades contemporâneas, estejam demasiadamente individualistas e egoístas. Um individualismo predatório. É disso que se trata. Abraço.

Lezon

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #9 Online: Fevereiro 27, 2008, 14:51:03 »
Caro Tanaka,

Não me equivoquei nada em relação ao que o meu amigo disse, e já agora me desculpe por eu não ter feito qualquer referência a isso, pois, na verdade, eu é que aproveitei a oportunidade para falar mais uma vez na questão do Tradicional e no Desportivo.

Eu devia ter dito algo que descodificasse mas, com a pressa, passou-me pelo que mais uma vez lhe peço desculpa por isso.

Todavia, o meu amigo sabe que as coisas também estão interligadas, pelo que a talho de foice, lá disse o que era preciso para alertar as consciências mais renitentes para o diferendo Karate desportivo e tradicional.

Tal como o amigo Tanaka, eu também não partilho a visão de que o Karate é unicamente marcial e para matar o adversário. E não adianta estarmos aqui a justificar os porquês, porque isso não nos iria a levar a lado nenhum...

Nas perguntas que fiz, a última delas é intencional e para as pessoas pensarem bem nela e se auto-analisarem e se chegam à conclusão de que estão realmente seguindo à risca o que é preconizado.  Se assim for, então se está apto a ensinar os valores intrínsecos que o meu amigo muito bem e a propósito falou.

Da facto, mais uma vez concordo consigo que, o individualismo e o egoísmo, são sem quaisquer sombras de dúvidas, um movimento perdatório e retrógrado!

Abraço
« Última modificação: Fevereiro 27, 2008, 14:53:42 por Jose Lezon »

Offline Antonio Pêcego

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #10 Online: Fevereiro 27, 2008, 17:28:31 »
Tal como o amigo Tanaka, eu também não partilho a visão de que o Karate é unicamente marcial e para matar o adversário. E não adianta estarmos aqui a justificar os porquês, porque isso não nos iria a levar a lado nenhum...

Correto, já se foi o tempo em que o karate se inseria no contexto de vida ou morte, hoje em dia ele é somente vida, porque depois do advento da arma de fogo não tem homem forte ou bom de porrada que resista a certeiro tiro. 

Quem compreende o espírito do karate, tem consciência do seu karate e tenta de fato exercer o domínio da mente sobre o corpo, foge de confusão, foge de multidão, porque onde tem multidão há de ter confusão e essa pode ocasionar a morte de alguém que gera na prática reflexos nocivos e sérios a todos, principalmente aos homens de bem.

Não há nada demais a convivência harmônica entre o tradicional e o esportivo, fazendo com que o próprio Professor deixe horários específicos para o treino específico, porque a essência do karate é inseparável, tendo que integrar a vertente esportiva, eventualmente existente em um dojo.  Se o Professor opta por ensinar, digamos, o karate "tradicional" que também tem sua vertente esportiva, tudo bem, mas respeite as escolhas diversas, porque é respeitando que se é respeitado.

Acredito no Dojo-Kun e o tenho como filosofia de vida e não só no karate, vivendo muito bem comigo mesmo, com a minha família, trabalho etc.

Oss !!!
Momo
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Offline Troyman

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #11 Online: Fevereiro 27, 2008, 17:32:23 »
A não ser o monge a prova de balas...   ;D

Concordo em gênero, número e grau!  É isso aí.

Saudações    :)
« Última modificação: Fevereiro 27, 2008, 17:34:43 por Troyman »
ACTroyman
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Offline Avi

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Re: É ISSO QUE ACONTECE...
« Resposta #12 Online: Fevereiro 27, 2008, 18:10:47 »
Só pra esclarecer o que eu disse no meu post, que de fato assisti muitos treinos a pouco tempo atras, é que NÃO esta existindo esse "casamento" entre as 2 vias pois o que eu vi foram treinos que abrem mão totalmente do que pra mim seriam preceitos basicos a postura e disciplina de um treino de karate, por isso relacionei com o topico inicial do autor. Na minha opinião, entrar em um campeionato de karate requer treino e disciplina mental e fisica bem como respeito por aquele que lhe derrotar ou for derrotado e o que eu vi por ai não foi isso. La na mushin por exemplo certos atrasos só com autorização do responsavel pelo treino e sem direito a recorrer. Pra mim esse tipo de disciplina é inerente a pratica do karate. Conversa paralela no treino ou até mesmo ficar parado é simplesmente inaceitavel, quem esta cansado se senta no canto e assiste o treino em silencio, pra mim essas coisas nao podem ser abandonadas na via de treinamento que for, me parece que os tais alunos de brasilia a abandonaram.

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