Autor Tópico: Sobre bases  (Lida 519 vezes)

Offline Joanir

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Sobre bases
« Online: Agosto 15, 2016, 22:31:20 »
Osu... gostaria de saber sobre as bases que treinamos. Onde eu treino quase não se treina em outra base que não seja zenkusu dachi, eventualmente kokutsu dachi. Minha pergunta é sobre quando usar cada base. Eu sei que existem muitas bases no Karatê. Mas não sei sobre sua utilização. Quando em uma situação de luta (não kumitê) usa-se zenkutsu, kokutsu ou outras bases? Agradeço desde já pela atenção e disponibilidade.

Offline Eros José Sanches

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Re:Sobre bases
« Resposta #1 Online: Agosto 16, 2016, 19:06:15 »
Osu!

Joanir, suas perguntas são muito pertinentes.

Vamos fazer algumas observações sobre as bases ou posturas (Dachi).
Quando iniciamos o aprendizado do Karate-dō é muito comum encararmos as bases como uma das muitas técnicas, crendo (erroneamente) que o formato conceitual apresentado é imutável. Ledo engano...

Falando inicialmente das três bases principais, Zenkutsu-dachi, Kōkutsu-dachi e Kiba-dachi, devemos entender antes de tudo o que de fato elas são: posição avançada, posição recuada e posição neutra. Ou seja: posição avançada (zenkutsu) para ataques, posição recuada (kōkutsu) para bloqueios/defesas e posição neutra (kiba) para situações especiais.

Na prática de um Kihon (fundamentos), basicamente se avançamos em Zenkutsu-dachi estamos realizando um ataque, seja qual técnica for. Exemplo: Quando preparamos um bloqueio Age-uke com a mão em Kaishō (aberta), significa que apressamos (agarramos) um braço e o avanço seria um ataque contra o cotovelo do braço agarrado. Tecnicamente, bloqueios como defesa, devem ser praticados recuando.
Isso serve para a Kōkutsu-dachi, cujo Kihon deveria ser realizado recuando, já que é uma postura defensiva. Embora treinamos o avanço de Kōkutsu (inclusive em alguns Kata), nesse caso deve ser entendido como um ataque com a faca da mão (Shutō). Mas porque não usamos Zenkutsu, se é um ataque? Porque trata-se de um ataque em uma posição aproximada com o oponente.
Vejamos um exemplo: fique frente a frente com o colega de treino (ambos em Zenkutsu); faça ele aplicar um Gyaku-zuki Chūdan (nível médio do corpo), sem dar um passo à frente e em uma distância que o soco o alcance. No exato momento do ataque, altere sua base para Kōkutsu-dachi. Se você fizer a mudança de base simultaneamente verá que o ataque dele não o alcançara (a menos que ele dê um passo a frente). Isso porque você "abriu" a distância (Maai) saindo da base avançada (próximo a ele) e passando à uma base recuada (mais distante dele). Eis aí, um exemplo bem simples de utilidade das bases.

Agora fazendo uma rápida análise dos Kata da série Heian. Você já reparou que o Heian Shodan é o único que inicia com base Zenkutsu-dachi e todos os demais iniciam em Kōkutsu-dachi? Por que isso? Simples.
No 1º Heian trata-se de um ataque a um golpe (possivelmente perna, mas poderia ser um soco) que está em seu início, ou seja, se for um Mae-geri (chute frontal) o ataque em Kentsui (mão em martelo) na altura Gedan (nível baixo do corpo) visa atingir a coxa do oponente, em sua face interna, logo que ele começa a levantar o joelho para chutar. Trata-se de uma técnica de Tai-no-sen, que significa alcançar o adversário no exato momento que ele inicia o ataque.
Nos Heian de 2 a 5, o movimento se inicia em Kōkutsu-dachi porque pretende que o adversário complete seu ataque, para efetivar o bloqueio e contra-atacar imediatamente. Ou seja, é uma técnica em Go-no-sen, que significa esperar o ataque do oponente para contra-atacar.

Basicamente falando, Zenkutsu para ataques e Kōkutsu para bloqueios. Kiba-dachi é para o emprego de quaisquer técnicas em sentido lateral.

Sobre as outras bases. Em meu dōjō eu ensino o Ten no Kata, que são exercícios de ataques e bloqueios tradicionais do Shōtōkan. Neste Kata aplica-se muito a base Sochin-dachi (ou Fudō-dachi). Também procuro praticar Kihon em todas as bases existentes nos Kata superiores, mesmo aos meus alunos Mūdansha (faixas coloridas, sem Dan).
Cada base tem sua aplicação prática, como a Neko-ashi-dachi, excelente para a prática de chutes frontais, ou as bases Hangetsu e Sanchin, que servem para a aplicação de técnicas que exijam solidez no solo (contra um oponente mais pesado, etc.).

Todo o ensino sempre dependerá do nível técnico de seu professor.

Para encerrar. Lembre-se que O'Sensei Funakoshi nos deixou ensinado em seu Nijūkun, no princípio nº 17: "as posturas (praticadas) são para principiantes, mas depois (com a evolução) tornam-se naturais". O que quer dizer que em Kumite, a base não precisa ser desenhada, tal qual no Kihon, mas apresentar as noções técnicas de "avançada", "recuada" e "neutra".

Continue curioso!  ;D
Osu.
"A popularidade internacional alcançada pelo Karate-do é recente, mas essa é uma popularidade que os professores de Karate devem fomentar e usar com grande cuidado" (Gichin Funakoshi, 1956)

Offline Joanir

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Re:Sobre bases
« Resposta #2 Online: Agosto 16, 2016, 22:15:05 »
Sua reposta foi maravilhosa! Muito rica e clara. Obrigado! Sinto-me honrado em poder aprender com gente tão inteligente e competente nesta nobre arte. Osu!

Offline Felipe Andrade

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Re:Sobre bases
« Resposta #3 Online: Fevereiro 04, 2017, 04:07:03 »
Pegando um gancho na pergunta do Joanir, até hoje não acho convincente as explicações do por que se treinar bases baixas se lutamos em jyiu kamae.

O único motivo que me é satisfatório, é que os movimentos se tornam mais fáceis de executar em forma livre quando passamos anos e anos treinando e aperfeiçoando kihon.

Já tem algum tempo que tenho pensado muito sobre isso... alguns vão até se benzer com o que vou falar, rs, .... as vezes acho uma grande perca de tempo treinar golpes em bases baixas pra na hora da porrada não se usar...



« Última modificação: Fevereiro 04, 2017, 04:35:18 por Felipe Andrade »
Furimukeba Tiisana Kinou, Me wo agereba Mugen no Ashita

Offline Platão

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Re:Sobre bases
« Resposta #4 Online: Fevereiro 06, 2017, 12:39:13 »
Felipe Andrade

Penso o mesmo, rs.
Um dia um sensei me disse que era esse objetivo mesmo que tu disse: ficar difícil para depois ficar fácil.
Não sei se tem a ver com uma espécie de exercício para as pernas também, fortalecer.
Engraçado que creio que só o Shotokan tem essas bases baixas, outros Karatês não.

Offline PSekiMG

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Re:Sobre bases
« Resposta #5 Online: Fevereiro 06, 2017, 14:00:45 »
Osu,

Estava esperando exatamente este tipo de indagação antes de escrever algo sobre o tema "bases altas X baixas", principalmente no estilo Shotokan. Então vou buscar contribuir com o que venho estudando.

Felipe Andrade, Platão,

Antes de tudo, não precisa se benzer para comentar algo aparentemente polêmico, pois acredito que todos devem respeitar a opinião alheia, mesmo não concordando. Assim sendo, acredito que este seu pensamento não está nada distante da questão "bases baixas X perda de tempo". Contudo, já buscando trazer informações ao filósofo do fórum (acho muito engraçado dizer que troco mensagens com Platão online, kkk), os treinos realmente são para fortalecimento, mas muitos vão dizer que não, que as bases, por exemplo, do S. Egami (vide vídeo abaixo) estão corretas, pois devem ser cumpridas etc.



Discordo da efetividade do que se passou no vídeo acima. Aliás, é nítido que os golpes são desprovidos de força, sequer potência. Sabem aqueles vídeos do M. Ueshiba do Aikido? Onde os alunos simplesmente se jogam quando ele levanta os braços? O vídeo do S. Egami consegue demonstrar coisas mais duvidosas!

-//-

Assim sendo, compreende-se que as bases mais baixas são necessárias ao reforço muscular específico do Karate-Do, cujas peculiaridades demandam tal estruturação. Acredito que o cumprimento, por exemplo, de uma Zenkutsu Dachi deva estar associada ao perfil corpóreo do praticante e não a uma medida especifica padronizada, pois desta maneira os anões (e os Hobbits) não poderiam praticar esta arte marcial. Inclusive, aquelas medidas exatas de "tantos pés" (para determinar os "desenhos" das bases), mesmo sendo a partir dos seus próprios, me parecem guias subjetivos, motivo pelo qual podem ser substituídas, mas que em nada adiantam se não houver compreensão de gatilhos, extração de força, deslocamento linear e o mais importante: centro gravitacional.

Concordo que o treinamento deva incluir bases baixas, mas sem prejudicar articulações ou músculos. Contudo, praticar eficiência da mesma maneira é muito utópico! Uma coisa é treinar com uma espada de maneira; outra é fazer o mesmo com uma lâmina! Treina-se o que quiser no primeiro momento, mas na realidade a coisa é mais simples e objetiva. Basta lembrar que uma das máximas no Karate-Do é adquirir uma postura mais natural para abandonar o Kamae.

O tema é vasto...

Osu.
A força física sem respeito nada mais é que força bruta, e para os seres humanos não tem nenhum valor ― Shoto.

Offline Cabadapest

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Re:Sobre bases
« Resposta #6 Online: Fevereiro 06, 2017, 17:16:28 »
Shigeru Egami, pela proximidade com os grandes mestres, seria uma lenda do Shotokan, porém é desconhecido. Por que será? No plano filosófico um ortodoxo, do ponto de vista técnico um paradoxo. Está minha opinião.
No vídeo é possível ver a decadência técnica do Shotokai, bases exageradamente baixas, com risco para joelho e desequilíbrio.

Sobre as bases Zenkutsu e kokutsu servir para o Kumite, esse é o erro de alguns "mestres mamulengueiros" que ensinam a lutar parecendo uma estátua.
As bases do Shotokan são baixas o suficiente, foram estudadas com apoio científico e tem toda uma fundamentação teórica para assim serem. O treinamento dessas bases no kihon e no kata condicionam o corpo e ensinam a utilizar a força do quadril, a se deslocar em várias direções e a ter estabilidade e força para os golpes. Mas querer fazer Kumite com a forma do kihon não é correto. Assim como não dá para fazer um age-uke ou shuto-uke de kihon em um combate, o estudo destas técnicas no kihon, tem o objetivo criar uma base psicomotora para aquisição de uma forma livre e espontânea de lutar

OSU!
"Aquele que está consciente de suas próprias fraquezas será senhor de si mesmo em qualquer situação." Funakoshi.