Autor Tópico: Uma morte por golpe  (Lida 1667 vezes)

Offline samurai

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Uma morte por golpe
« Online: Fevereiro 05, 2007, 08:30:46 »
Nos bons e velhos tempos em que as artes guerreiras japonesas ainda serviam para “impôr a paz” com uma violência despida de preconceitos e, portanto, sem grandes considerações a propósito do conceito de Harmonia e sem grandes preocupações a respeito da saúde física do oponente (por essa altura designado, e muito bem, por “inimigo”), uma expressão havia para, no Karate, designar um dos objetivos centrais do combate: Ikken Hissatsu – “um golpe, uma morte”.
Takaatsu Nishimura, na sua discussão sobre “O Karate Moderno”, explica que “uma das características principais do Karate de Okinawa original [To De] era começar por imobilizar o adversário,  transformando-o num alvo fixo, para depois o incapacitar com um único ataque”.
Na formulação do responsável pela apresentação do To De ao Japão, Gichin Funakoshi, o conceito aparece expresso na prática do Ippon Kumite – um único ataque, uma única defesa e um único contra-ataque, todos eles realizados com total entrega do corpo-mente, como se outra oportunidade não houvesse.
Razões históricas acabaram por transformar esta prática, em que o conceito de controle não existia e levou freqüentemente a resultados muito desagradáveis, a transformar-se progressivamente no modelo competitivo atual (em que um árbitro avalia os efeitos virtuais de uma técnica mais ou menos controlada e anuncia a sua decisão favorável gritando “Ippon!”).
Esta transformação em direção ao paradigma desportivo marca, quanto a mim, o princípio do fim do Budo (se é que tal coisa existe ainda...) e, para os mais otimistas, a sua “evolução” em direção à noção de “desporto de combate”.
Infelizmente, o que aqui está em causa não é a perda de “eficácia” no combate (que a passagem do Bu Jutsu ao Budo tornou, de certa forma, irrelevante), mas algo bem mais importante – a perda de “instrumentos” essenciais à evolução do Budoka.
Vem esta reflexão a propósito de alguns hábitos, nefastos mas freqüentes, que tenho observado nos tapetes “Aikidokas”:
Um, Uke ataca de forma diferente da prevista, Nague pára a sequência e “manda” atacar da forma “correta”;
Dois, Nague engana-se na execução, pára a a sequência e “manda” atacar de novo.
 Este tipo de procedimento nada tem de errado, num contexto em que a prática seja encarada como o aperfeiçoar de coreografias destinadas a tornar-se cada vez mais belas, até à pseudo-perfeição final.
Mas o aspirante a Budoka teria, na minha opinião, todo o interesse em abordar a prática de forma diferente: o Budo é a propósito de situações-limite, não a propósito deste dia-a-dia ilusoriamente descansado em que imaginamos haver sempre segunda oportunidade para corrigir um erro ou “dar a volta por cima”.
Uma palavra mal colocada, no tempo ou no espaço, pode significar o fim de uma amizade. Uma iniciativa que só leve em conta, os desejos do “agente” e se esqueça do contexto (ou seja, do “Outro”) pode significar o fim de uma carreira. Uma decisão que ignore os avisos dos que “já passaram por lá” pode significar o fim de uma Vida.
Aceitar, no Dojo, a situação tal como ela se coloca (independentemente dos erros do Uke) e levá-la até ao fim (independentemente dos erros do Nague) pode proporcionar “insights” valiosos, não só para a prática do Aikido mas também, e na linha do que António Galrinho diz sobre a importância do levar o Aikido para fora do tapete (ver “A Atitude na prática do Aikido”, neste site), para a evolução do próprio praticante como Budoka e, sobretudo, como pessoa.
E portanto, se o Uke se engana e faz Gyaku Hanmi em vez de Ai Hanmi Katate Dori, aceitemos alegremente o Gyaku Hanmi e respondamos, na mesma, com o Irimi Nage ordenado pelo professor ! E, se ficarmos momentaneamente confusos com o erro do Uke e a nossa resposta tiver um momento desordenado, recuperemos rapidamente a compostura e transformemos o Irimi Nage noutra coisa qualquer !
Em Budo não há segunda oportunidade – aqui e agora é tudo o que há, todo o território que temos, todo o Espaço que sobra, todo o Tempo que resta.
Na verdade, o Uke-que-se-engana e o Nague-que-se-confunde são a expressão imediata e vivida da própria Realidade. Perder esses preciosos momentos de Verdade e pura e simplesmente “apagá-los” fingindo que o “rewind” é possível é, no mínimo, dramático.
Evidentemente, é ao praticante (professor ou aluno) que cabe definir as suas próprias opções, tanto como assumir as consequências que daí resultem. Mas que seja pelo menos feita uma séria reflexão sobre a coincidência entre o que se deseja e o que se pratica. Talvez repentinamente se descubra, como alguém uma vez disse, que “Deus está nos pequenos detalhes” , e os pormenores insignificantes do treino se tornem, afinal, nos mais decisivos .

fonte: Internet

Offline Pedro

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Texto
« Resposta #1 Online: Fevereiro 22, 2007, 11:44:37 »
Olá!
Exelente texto,além de muito bem redigido,seu contexto é muito bom.
Pena que até agora ninguem comentou.
Muito legal Samurai.
Oss!
Pedro
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Offline Borchio

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Uma morte por golpe
« Resposta #2 Online: Fevereiro 22, 2007, 11:55:58 »
eu ja tinha lido esse texto... muito legal
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Offline samurai

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Uma morte por golpe
« Resposta #3 Online: Fevereiro 22, 2007, 12:49:36 »
É Pedrão o pessoal prefere vale-tudo, tkd, jj.


OSS

Offline yama

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Uma morte por golpe
« Resposta #4 Online: Fevereiro 22, 2007, 13:47:53 »
Oss Fábio Sensei

Excelente texto,não o havia visto ainda.

Normalmente se reclama antes de corrigir e aproveitar o que se recebe esta transformação proposta deveria ser seguida para melhoria em si de todo o aprendizado e não só repetir o cotidiano,já que a vida nunca é igual todos os dias,sempre há um imprevisto,modificar a forma não significa perde-la.

Oss
alberto/Santos.
yama-Alberto S. Almeida

Offline Bodhidarma

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Uma morte por golpe
« Resposta #5 Online: Fevereiro 22, 2007, 15:19:33 »
O nosso treinamento em particular das formas de Kumite em geral (Ippon Kumite, Sanbon ou Gohon Kumite, etc...) sempre foi orientado partindo desta premissa da imprevisibilidade. Se por um acaso o atacante (intencionalmente ou não) modificar a altura de um golpe, isto não significa que o defensor não deva defender-se de acordo com este.

Muito me estranha esta postura de "parar e fazer novamente" e, acredito que ela possa ser premiada com um belo gyaku-zuki antes de realmente repetir-se o ataque.

Obviamente que existe o controle e obviamente que muitas das vezes os ataques são pré-definidos mas adotar, como diz o texto, uma postura de simplesmente "ignorar" possíveis situações imprevistas é realmente passar do condicionamento à simples coreografia. Cabe ainda muita discussão neste assunto. Bom texto.

Offline Zkorpione

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Uma morte por golpe
« Resposta #6 Online: Fevereiro 22, 2007, 15:31:21 »
Bom texto, já tinha lido sobre Ikken Hisatsu em algum site antes, se me lembrar qual posto o link aqui.
Sobre esta parte (quase-)esquecida do karate, vai sempre depender do praticante e do sensei. Fóruns como este ajudam a divulgar estas idéias que são nada mais que os princípios originais do Karate.
OSS.
Coração de Karateca não bate, faz ippon.