Autor Tópico: José Lezón 6º dan - parte I  (Lida 3353 vezes)

Offline samurai

  • Global Moderator
  • Hero Member
  • *****
  • Mensagens: 2.184
  • Votos: +0/-0
José Lezón 6º dan - parte I
« Online: Junho 05, 2007, 13:57:43 »
Gostaria de apresentar aos colegas participantes do karateca.net, o Sensei
José Lezón 6º dan de karate Wado representante da JKF WADO KAI em Portugal e
agora no Brasil reestruturando e divulgando seu estilo. Lembrando aos
colegas que no Brasil temos três correntes da Wado: 1) Sensei Koji
Takamatsu; 2) Sensei M. Buyo e 3)Susumu Susuki (falecido). E é com esse
último grupo que o Sensei Lezón está trabalhando no Brasil. Desde já assumo
a culpa pela infinidade de perguntas, mas não poderia deixar de fazê-la, já
que nem sempre, temos um pessoa do nível do Sensei Lezón com a sua boa
vontade de atender e responder as perguntas feitas. Se manifestarem o desejo
de fazer mais perguntas além das que aqui estão, fiquem a vontade, pois o
Sensei deve participar do fórum e poderá responder a todos.  Sensei Lezón,
muito obrigado pela atenção e muito sucesso para o Sr. e que colha muitos
frutos do seu trabalho e possa contribuir com o karate em nosso País.

Oss
Ari


1) Como o Sr. foi apresentado ao karate ?
José Lezón - A minha entrada para o Karate, ficou-se a dever essencialmente
pelo fascínio da arte em si, acrescido ao fato de na época também existir
uma grande difusão cinematográfica. Em 1963, iniciei a carreira de
futebolista, como (Goleiro) no Sporting Clube de Braga, clube da cidade e
que hoje é o quarto clube mais importante do país.Em 1967, e tal como todos
os jovens na altura, e ainda porque era obrigatório, foi chamado a prestar
serviço militar. Nesta fase da minha vida e que era muito complicada para
todos os jovens na altura, pois Portugal estava em guerra nas ex-colónias, a
Guiné, Angola e Moçambique, fui incorporado no exército.Passados três meses,
foi seleccionado para tirar a especialidade de Polícia Militar, pelo que fui
parar ao regimento de lanceiros, em Lisboa. Foi aqui que comecei a tomar
conhecimento das Artes Marciais e, curiosamente, com o Judo. Na altura, ser
Polícia Militar não era nada fácil, já que na época era uma especialidade
bastante dura e difícil de tirar. Felizmente que, com algum sacrifício,
consegui obter a especialização e, com isso, ser Polícia Militar, o que de
certo modo me veio a compensar até ao términos da minha vida militar. Foi
então na Polícia Militar que me iniciei no Judo onde, para privilégio meu,
tive a sorte e a honra de ser aluno do grande Mestre Japonês, Sensei
Kobayashi, que aí era professor. Entretanto, acabei por ser mobilizado e, em
Janeiro de 1968,  embarquei para a guerra de Angola.Em 1971, já livre de
todo o serviço militar, assisti a uma demonstração de Karate, que logo o
fascinou.  Porém, só em 1972, iniciei a sua prática e no estilo Shotokan e
em 1975 o Wado-Ryu, tendo sido graduado em 1º.Dan em 1981. Então, depois de
uma pausa , recomecei a treinar e a estudar o estilo Wado-Ryu, ao qual se
dediquei  profundamente  a partir de 1988.

2) Com quais professores treinou e como influenciou em seu karate e na sua
vida ?
José Lezón - O meu primeiro professor foi Artur Lemos, com quem aprendi a
dar os primeiros passos. Seguiram-se depois Fernando Suissas, Tatsuo Suzuki,
Toru Arakawa, Naoki Ishikawa, Yasuaru Igarashi, H.Takashima, Yanagawa,
Hakoishi, Maeda,  Takagi, e K.Sakagami . Mas os mestres que me marcaram
indelevelmente na minha vida de Karateca foram Tatsuo Suzuki e Toru Arakawa.
Pelo Wado-Ryu, percorri países como a França, Itália, Grécia, Inglaterra,
Espanha, Suissa, Austria, Noruega, Bélgica, Japão e agora o Brasil.

3) Poderia falar um pouco sobre o estilo Wado ? Qual a diferença em Wado-ryu
e Wado-kai ?
José Lezón - A mudanças realizadas pelo Mestre H. Otsuka no karate ensinado
pelo Mestre Funakoshi foram válidas ? O que diferenciou uma escola da outra
? Bom, vou falar sim das diferenças que existem no Wado-Ryu. Mas
primeiramente tentar desmistificar algo que me tem feito alguma confusão e
que tenho verificado existir aqui no Brasil, pois já várias pessoas tem
falado da mesma questão e vejo afirmações como esta: eu já fiz Wado-Ryu, mas
agora faço Wado-Kai. Então vamos lá esclarecer.
WA = Paz/Harmonia; DO = Caminho / Via; RYU = Escola; KAI =
Associação/Federação. Assim temos, WADO= Estilo; RYU = Escola,  KAI=
Associação/Federação. O estilo de Karate é o WADO  e não o RYU  e/ou KAI.
Agora dizer-se que RYU é o estilo, é um absurdo, pois então não havia
estilos, todos eles são RYU…
Para os menos esclarecidos diga-se, existem neste momento três organizações
do estilo Wado, mas só uma é que tem o reconhecimento oficial não só do
governo do Japão, como da EKU e WKF que é a JKF Wado-Kai. As outras duas são
a Wado-Ryu Karate-do Renmei liderada por Jiro Ohtsuka, filho de Hironori
Ohtsuka, e a WIKF-Wado International Karate-do Federation, liderada por
Tatsuo Suzuki.A Zen Nippon Karate-do Renmei Wado-Kai, hoje designada por JKF
Wado-Kai, foi criada em 1934 por H.Ohtsuka, sendo a única instituição de
Wado que faz parte da Japan Karate-do Federation, e que portanto, tem o
apoio governamental. Voltando um pouco atrás, quando dizemos que estamos na
Wado-Kai, ou que treinamos Wado-Kai, quer dizer que treinamos o estilo
Wado-Ryu mas  pertencemos à Federação JKF Wado-Kai. Penso que esclareci a
questão. Agora a questão do que diferencia o estilo ou do que o caracteriza.
Tecnicamente o Wado-Ryu não é um estilo fácil para um iniciado e muitas
vezes até para praticantes mais evoluídos. As técnicas realizam-se com
movimentos muito curtos e precisos, com conjugação da rotação do corpo,
fazendo-se projecções, que foram introduzidas por H. Ohtsuka, trazidas do
Shindo Yoshin-Ryu JuJutsu Kempo. São técnicas utilizadas e que originam
diversas acções motoras, o que dificulta a sua aprendizagem. Só com muito
treino e com o decorrer do tempo, se conseguirá tirar o verdadeiro  proveito
e torná-las verdadeiramente eficazes. As posições têm o centro de gravidade
mais alto, contrariamente aos restantes estilos. Só assim se consegue fazer
as deslocações e esquivas  com maior velocidade, fluidas e sem necessidade
de recorrer à utilização da força, fazendo-se o aproveitamento a força do
adversário para desferir o contra-ataque, que geralmente é feito em
simultâneo, ou seja, o chamado Nagashi Tsuki, técnica principal do Wado.
Este tem por base três elementos muito importantes: Nagasu, que é a forma de
deixar passar o ataque do adversário de forma muito simplificada, não se
afastando demasiado do mesmo para facilitar o contra-ataque; o Inasu, que é
a forma de desviar o ataque com os braços ou as mãos, do ponto em que o
ataque era direccionado, e contra-atacar no momento em que o adversário
utiliza a sua força, tornando assim o contra-ataque mais forte; e o Noru,
que significa entrar no adversário. Conclusão, o estilo Wado-Ryu se
diferencia dos restantes essencialmente por recorrer a técnicas de esquiva
(tai-sabaki e nagashi), a torções, projecções, imobilizações,
estrangulamentos e quedas (Kansetsu-Waza, Nage-Waza, Osae-Komi-Waza,
Shime-Waza, Uke-mi-Waza). É um estilo muito natural, fluído, onde todos os
movimentos se enquadram na forma natural do corpo humano. Para que se
entenda bem, quando se pratica as técnicas defensivas (Ukewaza), tudo é
praticamente feito em esquiva, com movimentação simultânea da cintura em
direcção ao oponente, fazendo-se o contra-ataque quase em simultâneo à
defesa (esquiva), aproveitando o máximo da força do adversário utilizada no
seu ataque. Este é  um dos princípios do Wado-Ryu, obter o máximo de
eficácia com o mínimo dispêndio de energia e que o distingue dos demais,
para além do imenso  manancial de técnicas trazidas do Shindo Yoshin Ryu
Jujutsu algumas das quais muitos poucos conhecem. A somar a outras, as
treinadas regularmente e que caracterizam o estilo, são os Yakusoko Kumite /
Kihon Kumite, - Treino com parceiro, com ataques e defesas onde os conceitos
avançados do Wado são treinados e que Sensei Ohtsuka criou e introduziu com
as bases do Shindo Yoshin Ryu Jujutsu. Em que se utilizam constantemente
técnicas de Yaku (chaves) e Nage (projecções), para além da grande
importância do ma-ai (distância), o Timing ( momento certo da acção e da
reacção), e o Zanshin (espírito de alerta). Trata-se de um treino em que é
exigido o máximo de concentração, a qual deve ser aliada a um relaxamento
muscular para permitir uma rápida reacção de movimentos imprescindíveis para
efectuar uma defesa eficaz.

4) O sr. representa o estilo em Portugal. Como está constituído o estilo em
Portugal ?
José Lezón - Em Portugal o estilo está representado na Federação 7
associações, e das três organizações de Wado que atrás já falei. A Wado-Kai
é representada pela AKWP-Associação Karate-do Wado Portugal, da qual sou
fundador e diretor técnico internacional.

5) Qual a sua gaduação e o que tem feito para divulgação da escola Wado ?
José Lezón - Em possuo a graduação de 6º.Dan, fui graduado em 1º,2º.e 3º.por
Tatsuo Suzuki, WIKF e 4º.5º.e 6º.por Toru Arakawa JKF Wado-Kai. Mas acredite
que nunca me preocupei com as graduações, senão hoje seria ainda mais
graduado. Sempre estive mais vocacionado para treinar e para divulgar e
expandir o Wado do que para outra coisa qualquer. Em Portugal quando em 1993
fundei a AKWP, o Wado-Ryu só existia praticamente em Lisboa. Depois, com as
vitórias alcançadas pelos meus atletas, num conjunto de 103 medalhas de
ouro, 79 de prata e 105 de bronze nos campeonatos regionais e nacionais de
todos os estilos, e ainda com 5 de ouro, 2 de prata e 3 de bronze nos
Europeus e Mundiais do estilo, WIKF, o Wado deu um salto muito grande, sendo
hoje um estilo muito respeitado e  sempre em expansão. Hoje, a situação se
reverteu, já que o Wado passou a estar em grande força no norte do país,
onde o estilo não existia à data da fundação da AKWP. Fui eu que introduzi o
Wado no norte do país e hoje para além da AKWP, existem mais duas
associações formadas por ex alunos  meus.
As grandes vitórias alcançadas a nível nacional e internacional, ajudaram
também a tornar o Wado um estilo sólido e expansivo. Saliente-se também que
com o aparecimento da AKWP, os atletas de Wado passaram a fazer
constantemente parte  da selecção portuguesa, a qual tem hoje como
Seleccionador/Treinador,  meu ex aluno e meu genro também, sensei Joaquim
Gonçalves 5º.Dan. E para que conste, a sua equipa sagrou-se há dias campeã
de Portugal de todos os estilos em Kumite. Como pode ver, o estilo Wado-Ryu
está de boa saúde, pelo menos em Portugal.

6) Como o Sr. vê o karate no momento atual. O karate-do está perdendo para o
karate esporte (olimpico) ?
José Lezón - Hoje eu vejo o Karate diferente do que via há 30 anos atrás.
Não na sua essência, mas sim nos métodos de treinamento e da sua própria
evolução e para onde caminha. O momento atual do Karate  ele está sofrendo
de uma expetativa “doentia” do olímpismo. Digo isso sem qualquer sentido
pejorativo como é evidente. Como não foi desta feita que ele entrou nos
jogos, houve como que um desencanto, pois a expetativa que tinha sido criada
à possibilidade de entrar nos jogos foi bem alta, e agora está a pagar-se
por isso. Mas tudo vai  passando e se normalizará com toda a certeza.

7) Em Portugal ou mesmo no resto da europa qual é a tendêncial atual para o
Karate ?
José Lezón - Em Portugal, como na Europa e ainda no resto do mundo, o Karate
continua a ser a arte marcial mais praticada. A tendência esportiva está a
enraizar-se cada vez mais por esse mundo fora, o que tem aspetos positivos e
outros negativos. Mas não vou falar agora nem de uns nem de outros, ficará
para outra oportunidade.

8) Qual entidade dirige o karate de Portugal, e estão filiados a qual
entidade (ITKF,  JKA, WKF etc.,) ?
José Lezón - Os estilos ou escolas tem suas organizações própria
independente das Federações ?A entidade que rege todo o Karate em Portugal,
aquele que quer ser reconhecido, quer seja competitivo ou não, e usufrui do
apoio governamental e  consequentemente o reconhecimento da EKU e WKF, essa
entidade é a  FNK-P – Federação Nacional Karate Portugal. Existe uma outra
federação que só trata do estilo Shotokan, e que está filiada na ITKF, a
qual vive às suas custas e cujos títulos alcançados não são reconhecidos.
Quanto aos estilos de Karate, eles possuem as suas próprias associações que,
por sua vez, estão filiados n FNK-P, mas são completamente autónomas, tendo
a liberdade de se filiarem ou não na federação, sendo certo que noventa e
oito por cento delas estão filiadas.

9) Uma das coisas que já lhe falei e que achei muito legal, é a convivência
que tem com outras escolas e estilos. Como isso é possível ?
José Lezón - A minha convivência com pessoas de outros estilos, tem a ver
por dois motivos: o primeiro é pela minha própria maneira de ser e de ver as
coisas, pois não gosto de olhar só para o meu umbigo. O segundo motivo é
porque em Portugal desempenhei sempre cargos federativos em que estava
constantemente em contato com todas as pessoas dos outros estilos,
tornando-me amigo delas, e dando cursos  também. Para mim ir dar curso
técnico de Wado ao pessoal da Shotokan ou de outro estilo, dá-me imenso
prazer. Mas saiba que quando posso, também treino qualquer estilo, pois
penso que todos temos a aprender com todos.

10)O karate, como arte marcial caminha em paralelo quanto ao seu aspecto
técnico (tsuki, keri, uke etc) com o aspecto filosofico e humanista,
conforme os mestres japoneses. O Sr. concorda com essa afirmação ?
José Lezón - O Karate como arte marcial caminha e caminhará intrinsecamente,
tanto no aspeto técnico, como no filosófico e humanista. Aliás, se
completam.

11)Qual o kata que representa o estilo Wado  ?
José Lezón - Falando agora dos Katas Wado, treinamos 15 Katas, sendo 5
Pinans e 10 superiores. O Kata Chinto é o Kata típico do estilo Wado-Ryu
pela diversidade de acções envolvidas, particularmente ao nível dos
deslocamentos e posições, assim como, pelo conjunto diversificado de
movimentos rápidos, fluidos e de explosão.

12) O que representa o Do (caminho) do karate para o Sr. ?
José Lezón - Pois é, a pergunta é curta que dava para uma resposta longa…mas
eu vou encurtá-la respondendo a ela deste modo: o DO é de fato o caminho e
ele é sempre traçado pelo homem. Portanto, cada um o deve entender como
achar melhor para o poder seguir convictamente. O meu caminho no Karate por
exemplo, é treinar até ao fim dos meus dias.

13)Fazendo uma comparação com o karate de ontem e o de hoje. O sr. Poderia
dizer que o karate cresceu de forma positiva ou negativa ?
José Lezón - O Karate de ontem e o Karate de hoje…bom, se eu pudesse voltar
atrás, garanto-lhe que não fazia metade das coisas que fiz naquela época,
pois hoje estou sofrendo por causa dos maus treinos que fiz pensando que
estava a fazer uma grande coisa…hoje as minhas articulações sofrem
demasiado. O Karate de hoje tem muitos mais praticantes e evoluiu muito nos
métodos de treino. Com isto apontei já dois casos, um pela negativa e outro
pela positiva. Mas há outro aspeto que quero realçar e que também tem os
dois lados da moeda. A evolução para o Karate esportivo que tem muitas
coisas positivas, tem um que me entristece imenso pelo seu negativismo, o
qual que fere toda a essência do próprio Karate, a sua própria filosofia. É
que na ânsia da conquista da taça ou da medalha, perde-se o respeito e a
compostura, infringindo-se todas as regras do Karate. O meu medo é que o
Karate caminhe a passos largos para mais uma modalidade esportiva e que toda
a sua essência seja totalmente desvirtuada e ferida de morte.

14)O que fazer para melhorar o quadro atual do karate e como unir a
comunidade do karate e caminhar todos juntos para o desenvolvimento do
karate. E possível as diferentes federações e confederações trabalharem
unidas para o desenvolvimento da nossa arte marcial ou a divisão que
aconteceu e um processo irreversivel ?
José Lezón - O que se pode fazer para melhorar o quadro atual do Karate? Meu
caro, enquanto as pessoas que detêm o poder e que normalmente são os donos
das suas quintas e quintinhas, (associações) e não deixarem de pensar só
neles e nos estilos deles, a coisa não vai melhorar não. São as mentalidades
que vão amordaçando e estagnando a evolução do Karate como um todo. Enquanto
tais pessoas não se libertarem dos seus dogmas e dos seus interesses
associativos, e passarem a ver o Karate com um interesse coletivo e
nacional, será muito difícil ele evoluir para o bem de todos. O Karate pode
evoluir coletivamente sem que se perca e descaracterize os estilos, a única
diferença  está nas mentalidades de quem os dirige. E pelo que me é dado
observar, aqui no Brasil há um número incontável de federações e
confederações, o que eu acho incrivelmente lamentável e que confirma bem o
que eu acabei de dizer acima. Mas quem sou eu para mudar este estado de
coisas?


Offline yama

  • Hero Member
  • *****
  • Mensagens: 4.615
  • Votos: +11/-0
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #1 Online: Junho 06, 2007, 03:50:08 »
Oss

Excelente entrevista,nos dá uma mais ampla de como está o Karate em outros pontos do globo.

_Sensei Lezon os katas Pinan Wado seguem as mesmas posturas do katas Pinan e Heian -Shorin/Shotokan- e suas evoluções,pois para mim um deriva do outro  ???

_O Sr. não tem problemas com outras escolas de karate,visto que passeia entre todas,por que todos nós praticantes não podemos evoluir assim também,aqui poucos pensam assim,é a natureza HUMANA,ser ganancioso ou a outras questões que só o tempo ensina?

_Com esta história de vida cheia de aventuras por diversos lugares do mundo,só poderia esperar de um guerreiro como o Sr, este tipo de afirmação :

"O meu caminho no Karate por exemplo, é treinar até ao fim dos meus dias".

_ como o Sr. já percebeu que; aqui temos alguns conflitos de poder,o Sr. já viu isso em outros lugares,com este mesmo sentido de posse que aqui tem?

_Temos cura,com todo respeito para este mal?

Se um dia o Sr. vier à Santos estamos de portas e corações abertos para recebe-lo.

Oss
alberto/Santos.




 
yama-Alberto S. Almeida

Offline Arivaldo

  • Hero Member
  • *****
  • Mensagens: 1.357
  • Votos: +2/-0
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #2 Online: Junho 06, 2007, 07:45:01 »
É isso mesmo Yama, é uma boa oportunidade de conhecermos um pouco do estilo Wado, já que no fórum pelo que parece não tem ninguém da Wado.

Sensei Lezón, uma das coisas que notei foi que o Mestre Otsuka não mudou os nomes do katas como Mestre Funakoshi fez. Saberia informar a respeito ?

Oss,

Ari - Santos/SP 

Lezon

  • Visitante
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #3 Online: Junho 06, 2007, 10:05:54 »
Hai!!! Este é o nosso ritual e habitual cumprimento e/ou aceitação/compreensão / e o sim, sinónimo do vosso Oss. Bom, agora vou ver se respondo ao Yama e ao Ari.

Com efeito, Sensei Ohtsuka entendeu que devia manter o nome dos Katas, tal como os conheceu. A partir daí, ele como criador do Wado-Ryu, foi introduzindo novas formas e  novos conceitos baseados nos seus conhecimentos de Shindo Yoshin-Ryu Jujutsu Kenpo, alterando aqui e acolá com novas técnicas e utilizando as posições mais altas, mas nunca perdendo o embussen do Kata. Já agora, sobre ele não ter mudado os nomes, refiro que por exemplo ele os manteve não só nos Katas, já que a terminologia que usamos no nosso Kihon de base também a manteve.

Sobre eu não ter problemas com outras escolas, acho ridículo que outros os tenham, pois todos somos estudantes da mesma arte, da mesma filosofia, dos mesmos propósitos e dos mesmos fins. O Karate é ou não uma filosofia de vida? O Karate serve ou não serve para moldar o nosso carácter? Tornar as pessoas melhores? Então para quê rivalidades? Algo estará mal se assim não for…A natureza humana tem esses defeitos todos, uns com mais outros com menos, só que nos devemos ir moldando e modificando sempre para melhor e nunca pelo pior. O tempo também ajuda muito a ensinar mas a verdade é que há certos egoísmos e certos complexos que são de fato muito difíceis de erradicar de certas mentes…

Infelizmente, os conflitos de poder não é virgem no Brasil. Eles proliferam um pouco por todo o lado deste planeta.  Em Portugal também, muito embora nos dias de hoje as coisas tivessem mudado muito e estão mesmo em franca evolução nesse sentido.  A nível institucional as coisas mudaram 100%,pois só uma federação rege e tem o apoio governamental. Em Espanha também só uma federação tem o apoio do governo. Todas as federações que surgirem sabem à partida que não têm qualquer apoio governamental nem reconhecimento para as suas provas. Conclusão, têm que viver às suas próprias custas e sem reconhecimento oficial de nada, a não ser o deles próprios. A tendência é para que essas federações se diluam lentamente, uma vez que a lei é clara no que diz respeito a quem tem ginásios (academias) clubes, centros, associações, só poderá dar aulas quem estiver devidamente credenciado para o efeito.


Ora, quem dá essa credencial? É a federação que tem o apoio governamental, por isso as outras federações não podem credenciar ninguém, entendem?

Assim sendo, a vida federativa fora do contexto institucional, terá a vida muito dificultada, se bem que poderá subsistir, como é evidente. Mas há algo muito mais importante que já vai fazendo enfraquecer cada vez mais essas federações e que um dia (?) possivelmente também acabará por acontecer aqui no Brasil.

Na Europa, os pais já têm a  preocupação de colocar o seu filho em locais de treino devidamente reconhecido pela federação, o que quer dizer pelo governo. Um dia ele poderá vir a usufruir desse mesmo estatuto para prosseguir numa carreira de ensino, ou mesmo para entrar numa faculdade e ainda para o mercado de trabalho. 
Portanto, este será um  remédio (antibiótico) bastante forte para a doença que o eu impera em muitas mentes que têm o poder no Karate.

Quando me surgir a oportunidade de poder ir a Santos, não duvidem que irei com o maior prazer. Saudações Amigas. Hai!!!
 
José Lezón   

Offline Antonio Pêcego

  • Hero Member
  • *****
  • Mensagens: 560
  • Votos: +6/-3
  • 1985 no RJ, soltando a perna em exame para shodan
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #4 Online: Junho 06, 2007, 11:50:56 »
Oss !!!

Shihan José Lezón, falou com muita propriedade, vendo em suas palavras uma visão global do Karate, daqueles que buscam a sua melhora para que consequentemente também fique melhor. 

Tudo evolui na vida, e não seria diferente com o Karate.

Iniciei no Karate em 1970 e hoje em dia sou 3º Dan, sempre no estilo Shotokan, e não poderia ficar calado diante dessa suas manifestações sábias quando diz, especial:

"Sobre eu não ter problemas com outras escolas, acho ridículo que outros os tenham, pois todos somos estudantes da mesma arte, da mesma filosofia, dos mesmos propósitos e dos mesmos fins. O Karate é ou não uma filosofia de vida? O Karate serve ou não serve para moldar o nosso carácter? Tornar as pessoas melhores? Então para quê rivalidades? Algo estará mal se assim não for…A natureza humana tem esses defeitos todos, uns com mais outros com menos, só que nos devemos ir moldando e modificando sempre para melhor e nunca pelo pior. O tempo também ajuda muito a ensinar mas a verdade é que há certos egoísmos e certos complexos que são de fato muito difíceis de erradicar de certas mentes…"

O Karate não se aprende somente na Academia ou Escola, porque como sabemos o pensamento do Budo é que dojo é todo e qualquer lugar...karate é mais do que técnicas, é realmente filosofia de vida porque se observarmos atentamente no nosso dia-a-dia estamos sempre praticando karate de uma forma direta ou indireta, a exemplo do "espírito alerta" que devemos constantemente manter.

Correto, os conflitos de poder são o câncer do Karate, sendo que as diversas divisões só o enfraquecem, digo à nível federativo e confederativo, com federações interestilos, de karate Tradicional e etc.

Agora vejo o por que do karate europeu ter crescido tanto, pois unificados em torno de uma federação se tornam naturalmente mais fortes e poderosos, dura lição que hão de aprender com o tempo por aqui.

Iniciei, como não poderia deixar de ser no karate tradicional, mas embora tenha tido certas dificuldades que até hoje persistem, apesar dos treinamentos constantes, cursos e etc, não há como negar que é melhor para o Karate a sua incansável busca de se tornar um esporte olímpico e, nesta seara, não há como não sofrer alterações, notadamente no Kumite, afastando da natureza de sua criação para aproximá-lo mais da prática esportiva.

Por último, tomo a liberdade, com todo o respeito, de assinar embaixo a sua e sábia expressão:

"Portanto, este será um  remédio (antibiótico) bastante forte para a doença que o eu impera em muitas mentes que têm o poder no Karate."

Oss !!!

Antonio José Pêcego (com dupla cidadania - Portuguesa)
« Última modificação: Junho 06, 2007, 11:54:40 por A.Pêcego »
Momo
"Conhecer os outros é sabedoria, conhecer a si próprio é Iluminação." Lao-Tzu

Offline Luiz

  • Hero Member
  • *****
  • Mensagens: 1.124
  • Votos: +1/-1
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #5 Online: Junho 06, 2007, 12:51:49 »
O problema aqui amigos é que as pessoas de bem se cansaram de ver tanta porcaria e somente alguns poucos ainda persistem em lutar e formar realmente uma Federação dignica de respeito de todos.

Está havendo uma tendência muito forte dos praticantes mais antigos e se manterem fechados, treinando a seu modo.

Não dificultando ou barrando aqueles que procuram pelo verdadeiro caminho, mas sim sem entusiasmo algum em mostrar o certo, aos que estão errado.

Aqui em nosso forum vocês irão encontrar alguns "Ronins"

OSS...
"Aqui se cultiva o corpo e a mente"

Offline Arivaldo

  • Hero Member
  • *****
  • Mensagens: 1.357
  • Votos: +2/-0
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #6 Online: Junho 06, 2007, 15:08:32 »
Pessoal não esqueçam que tem a parte 2 da entrevista com Sensei Lezón.


Sensei Lezón,

Como o Sr. falou que  em Portugal tem apenas uma entidade oficial, gostaria de mais um esclarecimento.
Tenho visto ultimamente uma movimentação bem grande da WUKO na organização de campeonatos e outros eventos na Europa. Como sabemos, uma das exigências do COI para que o karate se tornasse um esporte olímpico seria que houvesse apenas uma organização mundial e com isso teria que unificar a WUKO e a ITKF e com isso surgiu a WKF. Sem querer entrar no mérito por enquanto, de quem fez a lição de casa ou não, o fato e que essa junção não aconteceu e a ITKF seguiu com sua vida. Hoje vemos novamente que foi criado uma nova WUKO com dissidentes da WKC, WKF, JKA, ITKF etc., que para não ter problemas jurídicos passaram a usar a denominaçao de WUKO agora com a Presidência do Osvaldo Messias.
A pergunta é : Como o Sr. vê esse movimento em contrapartida com a WKF (oficial), já que o Sr. Tem elogiado a organização dos citados torneios promovidos pela nova WUKO ?   


Oss,

Ari - Santos/SP

Lezon

  • Visitante
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #7 Online: Junho 06, 2007, 16:58:12 »
Boa pergunta caro Ari,

Vou então tentar esclarecer o porquê do elogio que faço à WUKO, sem que isso signifique que sou seu apoiante em detrimento da WKF.

Em determinado ponta da minha entrevista, eu disse e repito agora que sempre que surge uma organização de Karate, só enfraquece o próprio Karate.

Como muito bem sabe, como membro que fui do conselho de Arbitragem e formador da FNK-P - Federação Nacional Karate Portugal, eu sempre estive inserido no contexto da WKF. No entanto, eu não concordo com o sistema utilizado nas suas provas de Katas que o considero de uma injustiça a todos os títulos lamentável. Como é evidente, por uma questão de ética, não vou aqui enumerar as razões que são muitas. Vou antes dizer porque elogio as provas de Kata da WUKO.

Com efeito, e como provavelmente sabe, as provas de Katas na WUKO são efectuadas por estilos. Ora, assim sendo, as injustiças são praticamente nulas, uma vez que nada é perfeito. Então resulta que existem os campeões europeus e mundiais do estilo tal… e não de todos os estilos.

Repare, na WKF, todos os atletas, quer na prova individual quer equipas, têm que fazer na 1ª.e 2ª.eliminatória os Katas Shitei. Pronto, começam aqui as injustiças… e não vou falar de outros factores importantes a ter em conta, mas sim em algo que é de todo em todo visível e não subjetivo como muitos querem fazer crer…por isso pergunto: um atleta de Wado, por exemplo, vai fazer o Kata Shitei Seishan e o seu adversário de Shoto, por exemplo, executa a Jion. À partida, o Kata Seishan não tem a visibilidade nem estética como tem a Jion, induzindo por isso os árbitros a dar a vitória ao atleta Shoto.  Duvidam disto? Eu não, nfelizmente! E não quero dizer mais nada sobre isto…

Pergunto também que seriedade há em se premiar um Bassai (Shito) em confronto com (Chinto) Wado, ou Seipai (Goju) com Kunku-dai (Shoto)?

Meus amigos, o que num estilo pode ser uma técnica correta, noutro estilo ela pode ser considerada um defeito. Por isso meus caros, o sistema utilizado pela WUKO é aquele que no meu ponto de vista está certo.

Bom, espero ter esclarecido o Ari sobre a questão que me pôs.
Hai!!!
Rio de Janeiro
José Lezon

Lezon

  • Visitante
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #8 Online: Junho 06, 2007, 17:19:28 »
Meu caro Ari,

Com o entusiasmo que estava falando das injustiças, esqueci-me de lhe responder como vejo a contrapartida à WKF.
Bom meu amigo, isso é muito complicado já que os homens é que complicam a vida, porque esta não é complicada...
Sabe, enquanto não se pensar o Karate como um bem coletivo e, muito especialmente, certas pessoas se mantiverem à frente das organizações de poder, é muito dificil mudar o estado atual das coisas. Lamento não ter eu algum poder para mudar algo, já que a WKF e WUKO podiam e deviam muito bem ser apenas UMA!

José Lezón
 

Offline luiz gama magalhaes

  • Newbie
  • *
  • Mensagens: 2
  • Votos: +0/-0
Re: José Lezón 6º dan - parte I
« Resposta #9 Online: Junho 07, 2007, 12:17:24 »
Excelente participação do Mestre José Lezon, elucidando questões a respeito tanto do aspecto técnico, filosófico e estrutural do Karate em geral, como também do Wado. A entrevista traduz a sua dedicação e o seu amor a Arte do Karate.
É gratificante fazer parte das suas aulas de Wado no Rio de Janeiro porque elas refletem esse mesmo espírito contido nesta entrevista. 

                           Parabéns Karateka.net e Mestre José Lezon  !

Luiz Gama / 4º Dan de Wado-Ryu