Autor Tópico: Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar  (Lida 2702 vezes)

Offline katsumoto

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Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Online: Novembro 24, 2011, 13:48:02 »
este mes de Outubro, estive na Africa do Sul, para meus treinamentos anuais com Sensei Stan Schmidt. Por la, fui convidado para ser Examinador, junto a ele, de alguns candidatos a Shodan até Godan.
De repente, apareceu aquele fundamento de Oiziki pra frente e depois recuando.
Por diversas vezes Stan SEnsei chamou a atençao de gente que estava usando o calcanhar como apoio indo pra frente e a bola do pé recuando.
Como eu semnpre disse por aqui, o CERTO é...
-Ao avançar toca-se com a bola do pé que esta avançando primeiro e ao recuar toca-se o canlanhar primeiro.
Esse é o Karate da JKA. Pode ser que outro Karates, possa ser diferente.
Alias, basta ler Karate dinamico ne pessoal?
Nakayama deixou tudinho ali....Não vale interpretação pessoal.
NAKAYAMA E DEUS SÃO SINONIMOS, TRATANDO-SE DE KARATE.
KATSUMOTO-Prof. Roberto Sant Anna

Offline Alexander dos santos

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #1 Online: Novembro 24, 2011, 14:12:43 »
Prezado Katsumoto...

Com todo o respeito que lhe devo... A diferença entre Deus e Nakayama, é que Deus não erra...

Prezados...

Usando este tópico para promover um debate sobre isso...

Por que eu, que tenho livros do Nakayama, não posso questionar e aperfeiçoar, e até mesmo adaptar o que grandes mestres disseram no passado?

A. HIGINO

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #2 Online: Novembro 24, 2011, 16:26:33 »
Sant’Anna Sensei...

Sem entrar no mérito novamente, devido entender que nós dois, mesmo com opiniões diferentes, fizemos todas as observações pertinentes ao que entendemos ser o correto, gostaria de compreender o “porque” de no RECUO (Zenkutsu-Dachi) se deve tocar com o calcanhar primeiro. Haja vista que, anatomicamente, o natural seria tocar com o Koshi (bola) primeiro.

OBS: Meu questionamento não visa prolongar aquele debate se o fundamento está certo ou errado, estou querendo apenas compreender o seu ponto de vista no que tange a observação supracitada.


OSS...

Offline Rodrigo (Rodfu)

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #3 Online: Novembro 24, 2011, 17:48:09 »
Questionar é dever de todo ser inteligente. Principalmente a reflexão feita internamente.

Mas eu acho de uma arrogância gigantesca eu querer me comparar com mestres que devotaram uma vida inteira a estudar e praticar determinada arte. Aliás, arrogância é coisa que os mestres geralmente não têm, estando dispostos a aprender com quem sabe mais do que eles. Aliás, já acharia arrogância me colocar acima do meu professor, que é alguém com muito mais experiência e dedicação ao karate do que eu. 

Apesar de não ter nem 35 anos, cada vez me sinto mais antiquado. Acredito que justamente por essa cultura atuar de não aceitar coisa alguma e questionar absolutamenbte tudo é que crianças do ensino fundamental têm convicção de que sabem mais que seus professores. E o pior é que tem adulto que bate palma e diz que é isso mesmo.
Abraços,
Rodrigo

Offline Gon

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #4 Online: Novembro 24, 2011, 18:00:57 »
Um erro muito comum também é girar sempre sobre a bola do pé, quando na maioria das vezes deve-se girar tendo o calcanhar como pivô.

Offline katsumoto

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #5 Online: Novembro 24, 2011, 21:00:23 »
Sensei Higino,

Quando vc recua, o Jiku ashi, perna de apoio nao podera mudar sua posição, ou seja, nao se pode levantar o calcanhar da perna de tras, e o pé da frente que recua devera estar na mesma posição que estava quando estava a frente, portanto, ao recuar o que toca primeiro o solo é o calcanhar, que fara o papel, de breque no movimento.
Alias, isso é bem basico para quem treina JKA Karate. Os pés devem se locomover na horizontal todo o tempo.
Ao andar pra frente o centro de gravidade é empurrada para frente portanto a bola do pé toca antes, para tras, o inverso é verdadeiro.
Quem quiser treinar diferente disso que o faça.
Sobre nosso amigo ai querer se comparar a nakayama, era só o que faltava. O homem dedicou sua vida toda ao karate do....Reinventou a RODA se é que vcs me entendem.
KATSUMOTO-Prof. Roberto Sant Anna

Offline bruno_leite

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #6 Online: Novembro 24, 2011, 21:44:29 »
Oss.
Sant Anna Sensei, se me permite, gostaria de aproveitar a situação para tirar uma dúvida.
O movimento natural de nosso corpo é andar sem arrastar os pés no chão, certo? Contudo, vejo diversos vídeos de karatecas das antigas executando os movimentos de transição das bases arrastando o pé que se movimenta até chegar ao ponto final do movimento. Inclusive, tem um que ví a pouco tempo, que me impressionou um pouco, que se trada de um mestre partindo de Musubi dachi, arrastando o pé que irá à frente e mantendo o peso na perna de trás até chegar à posição de Kokutsu Dachi. Em outros vídeos, mais modernos, vejo os karatecas dandos os passos sem arrastar o pé no chão e, quando este o toca, é justamente o ponto final da base.
Daí eu pergunto: Qual é o correto?

Oss.
"A victória depende da habilidade que temos em distinguir as vulnerabilidades, naqueles que pensam que são invulneráveis."
Gichin Funakoshi

A. HIGINO

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #7 Online: Novembro 24, 2011, 21:52:49 »
OSS, Sant’Anna Sensei...

Grato pela explicação!
Realmente devo concordar, no recuo, para obter uma parada brusca não pode haver a transição do Koshi para o Calcanhar, o pé deve firmar totalmente em um único movimento com o calcanhar fazendo esse papel de breque.
Errei ao analizar o recuo como uma mera movimentação!


Parabéns e obrigado pela aula!

OSS...

Offline Alexander dos santos

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #8 Online: Novembro 24, 2011, 21:59:38 »
Prezado Katsumoto,

De forma nenhuma quero me igualar a Nakayama ou qualquer outro... apenas não vejo necessidade de me fechar para uma boa discussão teórica sobre os temas do karatê...

Mas se ofendo... peço que me perdoe!

Offline Kohai_Taigen

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #9 Online: Novembro 25, 2011, 07:49:05 »
Com todo o respeito que lhe devo... A diferença entre Deus e Nakayama, é que Deus não erra...

Quem não erra é Chuck Norris!!!!! ;D ;D ;D


André Lima
Faixa-Preta da escola Taigen de Karate Shotokan.

Offline Lourival Silva

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #10 Online: Novembro 25, 2011, 08:39:30 »
Citação de: bruno_leite
Sant Anna Sensei, se me permite, gostaria de aproveitar a situação para tirar uma dúvida.
O movimento natural de nosso corpo é andar sem arrastar os pés no chão, certo? Contudo, vejo diversos vídeos de karatecas das antigas executando os movimentos de transição das bases arrastando o pé que se movimenta até chegar ao ponto final do movimento. Inclusive, tem um que ví a pouco tempo, que me impressionou um pouco, que se trada de um mestre partindo de Musubi dachi, arrastando o pé que irá à frente e mantendo o peso na perna de trás até chegar à posição de Kokutsu Dachi. Em outros vídeos, mais modernos, vejo os karatecas dandos os passos sem arrastar o pé no chão e, quando este o toca, é justamente o ponto final da base.
Daí eu pergunto: Qual é o correto?


Conheço 2 estilos de karatê (não falar quais para não ferrar o tópico rsrsrs) que fizeram esta alteração, antes deslisavam o pé na superficie do solo e tambem aproximavam os 2 pés na passagem de um pelo outro. Agora não deslisam e nem aproximam os pés. Quando perguntei sobre isso disseram que fazia parte da "modernização".

Minha opinião sobre o assunto é que deslizar sobre a superficie do solo ajuda saber sobre o terreno onde pisa sem olhar, em um dojo nos dias de hoje pode não fazer sentido mas imagine lutar em um descampado ou mesmo em um dojo de muitos e muitos anos atraz onde, segundo dizem, alguns treinamentos eram feitos em quintais, praças e etc....

Minha intenção não é responder a pergunta apenas reforça-la, na verdade gostaria de saber da resposta tambem.

OSS!


Offline katsumoto

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #11 Online: Novembro 25, 2011, 10:10:39 »
Sobre arrastar ou não os pés.
Posso apenas falar do Shotokan JKA, que é o estilo que pratico. Com certesa deve existir algum estilo que faça diferente.
Nakayama diz para arrastar os pés na altura de uma folha de papel de seda, ou seja, como se o pé tocasse o solo o tempo todo, de leve.
Quando andamos naturalmente elevamos nosso pé um pouco do solo. nao levantamos muito.
No Karate andar assim se chama Fumidashi(arrastando). Existe uma maneira diferente que é o Fumikomi Ashi, estampado o pé no chão, como no caso do heian Sandan com Enpi Uke e Uraken, mas acho que ali o método muda por causa dos chutes fumikomi.
Tem se que evitar levamntar muito os pés do chão no Karate pelo motivo obvio de perna de equilibrio. Por essa razao, da-se mais enfase na velocidade do movimento.
Higino, Alexander e Bruno....acho otimo um debate como este, pois podemos tirar duvidas frequentes entre os membros deste forum, ainda mais quando sabemos que as pessoas aqui, treinam Karate de verdade. Somente acho que nao devemos contrariar os ensinamentos de Nakayama, tratando-se de Shotokan, porque no seu livro Karate Dinamico, ele deixou tudo isso pronto pra nós. Alias, livro de cabeceira para os amantes do karate do.
KATSUMOTO-Prof. Roberto Sant Anna

Offline Alexander dos santos

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #12 Online: Novembro 25, 2011, 10:26:37 »
Eu entendo seu posicionamento prezado Katsumoto,

E acho muito bacana também... e posso dizer que sou de uma linha de karatê bem parecida, onde se apega aos princípios técnicos deixados pelos senseis da época... Mas questiono sim algumas coisas, não com o intúito de tumultuar, mas de aprender...

Mas voltando ao tópico... Eu aprendi também que o pé não deve levantar muito do solo, e que deve passar perto do outro pé, e assim faço até hoje, e acho estranho andar em zenkutsu por exemplo, sem aproximar as pernas no meio do passo...

Quanto ao recuo, eu ainda acho meio estranho falar em colocar primeiro o calcanhar, pois anatomicamente é meio desconfortável, eu fiz alguns testes em casa, pois nunca tinha parado para avaliar essa minha movimentação, e percebi que eu coloco sim o calcanhar no solo, mas juntamente com a faca do pé... o que os senseis acham? estou falando a mesma coisa que vcs mas com um entendimento um pouco atrapalhado? ou estou fazendo errado mesmo?

Offline Bodhi

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #13 Online: Novembro 25, 2011, 10:27:12 »
Somente acho que nao devemos contrariar os ensinamentos de Nakayama, tratando-se de Shotokan, porque no seu livro Karate Dinamico, ele deixou tudo isso pronto pra nós. Alias, livro de cabeceira para os amantes do karate do.

Oss!

Não que eu aceite as coisas como dogma, mas sou incapaz de contestar Nakayama (isso soa tão óbvio...!), pois não tenho nem formação nem vivência para isso.

Acredito que ele deixou uma obra de presente. Mesmo em outras artes marciais não é comum encontrarmos um trabalho tão completo, detalhado e atualizado com os conhecimentos conteporâneos de biomecânica.

Uso como uma biblia mesmo. E continuando nessa metáfora, os senseis com quem treino são os "sacerdotes", pois eles aplicam Nakayama Sensei!

Longe de entender o Karate como religião, acho apenas uma questão de bom senso e humildade.

Com todo respeito aos que pensam diferente e valorizam outros tipos de karatê.
Oss!
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Offline Marquinhos

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Re:Sobre aquele assunto do passado, bola do pé ou calcanhar
« Resposta #14 Online: Janeiro 30, 2012, 00:17:39 »
Novamente, descubro esse post tardiamente, mas como ja tinha traduzido esse artigo do Sensei Richard Amos pra os alunos do meu Sensei, compartilho aqui no forum. Muito interessantes as colocacoes dele... Peco desculpas por possiveis erros na traducao e digitacao.

OSS!



 
Calcanhar ou Terço Anterior do Pé?
Por Richard Amos Sensei
 
Usar o pé como pivô de rotação pode parecer simples até que desmembremos o processo para considerar quando e porquê devemos usar o calcanhar, o terço anterior do pé, ou até, como alguns instrutores importantes sugerem, algo entre um e outro.

Como o peso corporal é idealmente dissipado ao longo de todo o pé, essa última opção pode parecer, a princípio, adequada. Entretanto, quando simplesmente avançando ou recuando, o peso naturalmente varia de uma parte do pé para outra. Um passeio na areia revela exatamente isso. Uma pegada perfeita (assumindo que VC não tem pé-chato) na areia mostrará uma impressão mais profunda tanto no calcanhar quanto na parte interna do terço anterior, com uma pressão menor na lateral externa quando permanecemos parados de pé. Mas no momento em que movemos um pouco para frente, o terço anterior afunda na areia e, quando vamos para trás, o calcanhar. Essa imagem pode ser referência quando quebramos os movimentos de kihon e kata em extremos.

Para o momento, nos focaremos nos movimentos simples apropriados para kihon e kata que, mesmo assim, deixarão muito espaço para dúvidas, tanto na perspectiva da instrução quanto auto-correção. As ramificações do uso do terço anterior, que agora chamaremos de "bola do pé" (ou simplesmente "bola"), ou do calcanhar quando andamos ou giramos, para mim, vão muito além do que reconhecer que o peso migra para a bola quando avançamos e para o calcanhar quando recuamos.

Já houve muita discução quanto a NÃO LEVANTAR o calcanhar de forma alguma quando nos movemos durante o kihon, mas depois, alguns ressaltaram que muita ênfase em manter o calcanhar no solo pode diminuir a liberdade de movimentos em longo prazo. Permitam-me, se possível, voltar à esse assunto posteriormente e, por hora, somente reiterar que essa imobilidade aparente em kihon e kata tem o propósito de ensinar ao corpo como se mover de forma, inicialmente não intuitiva, porém necessária para adquirir maestria com o passar do tempo.

O que o princípio de andar e girar nos ensina, no que concerne a calcanhar e bola, é que enquanto deslocamos o peso corporal, devemos ter consciência da força compressiva sempre presente e da qual a explosão que sucederá vai precisar. Qualquer compressão, por definição, acontece entre pelo menos duas coisas: como estamos andando ou girando, são as pernas. No plural. Elas se espremem em direção da outra. Uma é a âncora ou pivô, enquanto a outra é a que desloca, mas AS DUAS trabalham durante o deslocamento.

Em uma passada simples adiante, como em Oi-zuki, é considerado imperdoável durante prática de kihon, girar os dedos para fora (e portanto pivotar sobre o calcanhar dianteiro) durante o início do movimento. Isso é porque, dessa forma, não teremos a compressão instantânea da perna traseira em direção à dianteira. Além do mais, se apontarmos o pé para fora, não estaremos nos movendo para a frente, que é o propósito do movimento em si e, assim, invalidamos a possibilidade de dominar a mecânica da passada.

Em recuo, o calcanhar não deve levantar (sempre levanta inicialmente pela dificuldade de sincronizar a tranferência de peso com a compressão da perna traseira, tendo assim a sensação de que o calcanhar está ancorado e, consequentemente, ser capaz do efeito da puxada) pelas mesmas razões. Se levantarmos o calcanhar ao recuar, nossa perna traseira está, na verdade, indo para a frente primeiro. Ilógico.

Esse argumento parece obviamente aplicável em jiu-kumite pelas inúmeras circunstâncias mitigantes mas, quando alcançamos um nível técnico suficiente para o jiu-kumite apropriado, já devemos ter, mediante prática diligente, desenvolvido a ênfase física (e muscular) descrita nesse artigo.

Além de tudo isso, existem, claro, excessões para toda a regra e, a miríade de variações que nos é apresentada, somente no nosso treino regular, seria impossível de endereçar nesse artigo. Discutir essas excessões é, entretanto, muito interessante apesar de abrir uma verdadeira Caixa de Pandora de exemplos que podem somente ser satisfeitos através de demonstrações físicas. Então, em vez de tentar dissecá-las todas, eu usarei somente uma. O Ushiro-geri, das minhas técnicas preferidas. Eis um caso onde, apesar de estarmos girando, não mudamos de direção. O compromisso deve ser em direcionar o peso diretamente para a frente, rumo ao alvo, para gerar o máximo de potência. Controle equilibrado é primordial e, girar apoiados no calcanhar (apesar de ser uma rotação para trás) é um "tiro no pé".

Precisamos de potência aí para ir massivamente para o alvo e o raio de uma girada precisa para cobrir a distância é suficiente para justificar o uso da bola. Porém, e também, como estamos chutando com o que pode-se chamar de sutemi-waza (técnica de sacrifício), o corpo deve dobrar-se consideravelmente (relativamente falando) para estender a perna. Fazendo isso, deixamos o quadril em uma posição não muito similar à uma girada normal, quando devemos manter nossa postura e aproveitar nossas opções. Isso, é claro, abre outras correntes de pensamento às quais somente um livro ou vídeo podem chegar perto de fazer justiça.

De volta, então, ao assunto ao qual aspiro somente oferecer mera orientação à idéia básica, que é avançar e recuar em simples kihon e girar em Heian Shodan, exelentes modelos para muitos exemplos.

Geralmente podemos dizer que quase não há recuos em kata (o último shuto da sequência de quatro no Bassai Dai é um dos poucos) o que é interessante, mas há várias giradas para trás. A conclusão que podemos tirar disso é que se conseguirmos adquirir força suficiente nos músculos das pernas para um giro, então será, da mesma forma, fácil andar em linha reta tanto avançando quanto recuando. O meio (treino de kata) justifica o fim (fortalecer áreas menos óbvias para atingir maestria).

Se usarmos Heian Shodan, da maneira correta, veremos quão imensamente benéfico pode ser para nosso kihon e, posteriormente, ao nosso kumite. Todas as girada são sobre o calcanhar, assim como são, nesse kata, todas recuos. Até o primeiro movimento, em shizen-tai deveria ser considerado um recuo, girando no calcanhar direito. O teceiro movimento, claro, é um grande giro para trás.

O que dificulta esses movimentos de girada no calcanhar é uma tréade: i) falta de comprometimento em transferir o peso; ii) falta de conexão entre a bola e o centro do corpo, ou pelo menos, a parte superior das coxas e, muito importante; iii) falta de esforço consciente em envolver a perna/pé de apoio na geração do movimento.

Quem, porventura disse, que é melhor colocar o pé primeiro no lugar e, só depois girar, devia estar falando de uma possível interpretação de uma aplicação específica. Esse exemplo pode ser plausível se exemplificando o tai-otoshi depois do primeiro kiai, mas mesmo aqui, ippon seoi-nage é mais apropriado e, nesse caso, os pés chegarão mais perto, de qualquer forma, e não faria sentido. Falar de "preparar-se" ao esticar a perna por detrás de si mesmo e girar, chicoteando o corpo para criar uma força tremenda em direção ao bloqueio é uma declaração impensada e pode ser facimente rechaçada. Pode ser muito forte no final, mas... e o início?

Certamente a essência de qualquer técnica deveria ser a prontidão e a habilidade de se adaptar e ser aplicada espontaneamente. O giro de chicote deve ser feito PRIMEIRO: comprimindo o corpo em um pacote compacto com força centrípeta. Se feito corretamente (digamos com o começo do gedan-barai depois do primeiro kiai) a bola do pé direito começa a se comprimir no sentido anti-horário (pivotando no calcanhar, claro) assim que o movimento inicia. Se pivotarmos aqui, incorretamente, na bola, a perna em movimento estaria essencialmente caçando a perna de apoio, que é o contrário da prontidão compacta que estamos buscando. Após essa compressão, o relaxamento resulta em um gedan-barai explosivo, um torso em expansão, base e bloqueio em uníssono rumo ao nosso oponente imaginário. Também, porque preparamos nosso gedan-barai infinitamente melhor (essa é a personificação de kamae) nós ensinamos nosso corpo algo muito importante, os movimentos e ênfase necessários para sermos capazes de ajustar nosso timing e distância com espontaneidade. As duas essências do kumite.

Essa é uma associação crucial.

Kihon e kata executados propriamente são, sem sombra de dúvida, o caminho de um melhor kumite. Pode não ser aparente no início, especialmente quando lutadores eficientes são, geralmente, jovens e atléticos (consequentemente se safando melhor) ou têm um bom senso de combate, adquirido ou inato. Tudo isso é muito bom, mas será que eles não gostariam de ficar ainda melhores? Atingir seu potencial? E aqueles que não têm essas características?

Uma das razões pelas quais Oi-zuki, nosso mais potente soco, raramente é usado com eficácia em jiu-kumite é que sua tão importante "instantaniosidade" não foi desenvolvido propriamente, um resultado direto de não enfatizar os papéis da bola e calcanhar e a sensação de conectividade. Se abrir no início do Oi-zuki pode dar a ilusão de técnica de grande poder, mas raramente de alguma serventia, se tem alguém esperando pra te interceptar. Isaka Sensei baseou grande parte de seu treinamento em Oi-zuki e jura que esse golpe é uma verdadeira metáfora para o Shotokan em si. Mesmo aos 50 anos, ele estava marcando ippon com essa técnica em oponentes com metade de sua idade.

Além disso, compressão levando a uma explosão significa a liberação de potência (já adquirida) e não a aplicação de mais esforço ao fim da técnica. o final da técnica é onde queremos finesse e compostura. Desses nós conseguimos atingir timing perfeito, precisão e controle.

Os conceitos de Ki e a importância de seishi sobre teishi e tensão rígida estão fora do escopo desse artigo, mas devem ser estudados. Adeptos do ki usam a frase "ki o dasu", que significa literalmente "deixar/colocar/liberar o ki para fora" e é geralmente traduzida como extender o ki, impossível a não ser que se tenha compostura e prontidão.

Na medida em que libertamos nosso Karate, possivelmente nos direcionaremos mais para a utilização da bola do pé, sacrificando um pouco da dureza à medida que viramos para controlar. Isso é normal, visto que a bola do pé é onde estão os artelhos e onde ganhamos estabilidade. Ainda assim, devemos passar pelo processo de aprendizado primeiro.

Sempre tenhamos em mente que, uma vez que o corpo tiver assimilado a essência de um princípio (potencialmente precisamos de milhares de horas) e tivermos adquirido "memória muscular", não devemos permanecer acorrentados à idéia fiel "ao livro" acima de tudo, ou o progresso refreará e o Karate irá estagnar. É muito difícil, entretanto, reconhecer o momento de desacorrentar-se e vi muitos Karate-ka experientes desqualificar seu progresso futuro aparentando etar atados à sua forma, obcecados em evitar qualquer digreção do "manual" nem que seja milimétrica. Se teinamos diligentemente algumas décadas, certamente nossos Heian não irão deteriorar em "bagunça" se adotarmos uma qualidade mais natural, e se o fizer, devemos naturalmente praticar alguns milhares de horas a mais. O ponto é: a hora de liberdade irá chegar e não devemos perdê-la antes que seja tarde demai e fiquemos muito velhos e teimosos (e medrosos ?) para mudar.

É nesse nível elevado que podemos encontrar um ideal de, talvez, pivotar em algum lugar entre a bola e o calcanhar, mas acho esse, um conceito realmente bastante avançado. E, desta forma, está constante e perpetuamente, fora de alcance.

Todos precisamos de um objetivo ou meta...
Marcos Piolla - OSS!
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空手道は礼に始まり、礼に終る事を忘れるな。
"Karate-Do começa e termina com respeito"
Shoto - Funakoshi