Autor Tópico: Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (UNICA)  (Lida 13865 vezes)

Offline Pedro

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Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (UNICA)
« Online: Julho 19, 2011, 15:00:04 »
Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli

caio d elia - Tenho a recordação de um depoimento feito por meu pai (Prof. Ricardo D' Elia) anos atrás, quando conversavamos sobre Karatê. Ele disse em referência ao período no qual ele e Ênnio treinavam juntos:
"...acredito que depois de anos de treino consegui me desenvolver como um Karateca, mas o único verdadeiro Budoka que conheci até hoje foi o Ênnio, este sim tinha um espírito excepcional..."
Em cima deste relato pergunto:
Sensei Ênnio, o que na sua forma de encarar e viver o Karatê pode ter gerado este tipo de sentimento, mesmo em pessoas muito próximas a você, como o Prof. Ricardo D' Elia, com quem treinou durante anos?

Sensei Ennio - Nossa!... vindo do Ricardo é um elogio e tanto.
Fico muito surpreso. Realmente não sei o que pode ter causado tal percepção. Não me sinto nem próximo deste ideal. Espero alcançá-lo.

Ulbricht - Primeiramente quero dizer que sou um grande admirador do Sensei Ennio, e que é uma grande honra poder fazer uma pergunta a ele. E que acho um desperdício um karateca como ele não ser melhor aproveitado por nossos "dirigentes" no karate brasileiro!
Sendo assim desejo saber como foi treinar na Japão durante tanto tempo? Quais as diferenças entre o karate no Brasil e no Japão? E como ele vê o karate hoje em dia?
Obrigado!!

Sensei Ennio - Foi uma experiência e tanto e é difícil de descrever em poucas palavras. Como na entrevista há muitas perguntas semelhantes, vou estender as respostas um pouco além do seu escopo para tentar responder às tuas perguntas.

Shaolin do Norte - Na sua opinião, nós brasileiros hoje somos "auto-suficientes" em Karate, onde um iniciante buscando aprender Karate, pode tornar-se um Karateca tão bom quanto um Japonês sem sair do Brasil como o senhor fez?

Sensei Ennio - Não diria que somos auto-suficientes. Acredito que ninguém é, nem o Japão. Hoje o Karate-Do é global e evoluiu e evolui de diferentes formas em diferentes localidades. Acredito no intercâmbio de conhecimento e experiências com qualquer pais/localidade que tenha um Karate-Do desenvolvido.
Mas ao mesmo tempo devemos deixar de nos comportar como uma “colônia” e buscar uma identidade própria (já deveríamos ter), um Karate-Do brasileiro, sem ufanismo, mas acreditar que podemos. Não nos faltam nem conhecimento nem material humano.
Quanto a 2ª parte de tua pergunta, para principiantes, hoje, há bons professores, mas o que me preocupa é o Karate-Do de alto nível, para alcançá-lo devemos unir os talentos e esforços isolados.
Como?... Lembrando-nos que os laços nacionais (Brasil) devem ser maiores que os laços de estilo ou escola, que Karate-Do é Karate-Do, independentemente de grupos, estilos, federações e confederações. Com estas ou apesar destas, devemos agir: implantar treinamentos de alto nível, formar instrutores, disseminar o ensino e a prática do Karate-Do para a população em geral, preparar atletas, promover eventos (não só campeonatos) e promover intercâmbios.
O Karate-Do: o seu ensino e prática, a graduação, os eventos, etc... devem ser desvinculado da política, dos interesses pessoais ou “corporativos, projetos pessoais de poder, seja quais forem eles. O ensino e prática deve seguir um programa próprio, independente e contínuo seja lá quem quer que esteja no poder ou o assuma.
Caso não consigamos isso de forma oficial e mesmo que tudo o que consigamos seja uma iniciativa isolada ou particular, devemos estendê-la a todos que queiram praticar o Karate-Do (prática da técnica, do aperfeiçoamento pessoal e da ética do Karate-Do) e não limitá-la a mesquinhez dos nossos grupos. Daí surgirá a união e sinergia que resultará em mais crescimento e aperfeiçoamento do Karate-Do beneficiando mais e mais pessoas.

GUICOMES - Que tipo de luta acha que melhor desenvolve o karateka: com sun dome; algo simples como luvas e proteção bocal; ou com bogu?

Sensei Ennio - Qualquer que seja a regra não deve descaracterizar os princípios do Karate-Do: o espírito de luta, o respeito, o kime-waza (golpe decisivo) e o sundome (controle do golpe, preservação da integridade do lutador), etc...
Quanto aos tipos de competição que você aponta, acredito que um completa o outro, por exemplo: na competição sem protetores, com menor pontuação e de menor duração, pelo risco e “stress” envolvidos, determinam uma luta mais estratégica, os praticantes arriscam menos ou calculam mais os riscos. Na competição com protetores, com pontuação maior e de maior duração, envolve menor risco e menor “stress” e por isso é mais dinâmica, arrisca-se mais tanto em quantidade e seqüência de golpes quanto em golpes de elevado grau de dificuldade, desenvolvendo-se assim maior versatilidade.

GUICOMES - Já vi diversos relatos a respeito do senhor como sendo o mais forte karateka brasileiro. Você atribui este status a sua carga de treinamento físico da época ou seu espírito? Se espírito, acredita que é algo próprio ou forjado pelo tipo de treinamento que enfrentou?

Sensei Ennio - Não me reconheço na imagem descrita..... Acredito em treinamento (seja ele físico ou mental) mais que em habilidades inatas. O Karate-Do (bem como a vida) nos dá muitas ferramentas e, mesmo que privados totalmente ou em parte de algumas, com treinamento, aperfeiçoando as que temos ou as que temos parcialmente, podemos superar nossas limitações.

GUICOMES - Quais suas técnicas e estratégias favoritas de luta?

Sensei Ennio - Faz 44 anos que treino e, tanto as técnicas quanto as táticas e estratégias, foram mudando ao longo destes anos.

A. HIGINO - A seu ver, a que se deve a decadência do Karatê?
Outrora a Arte Marcial mais temida, hoje, ocupa uma singela posição de mera atividade lúdica.

Sensei Ennio - Respondo esta pergunta na pergunta do “Golden Era”.

Nelson Junior - e uma mais pessoal que técnica... gostaria de saber o que levou o sr. a praticar o Karatê quando mais jovem.

Sensei Ennio - Eu gostava de lutar. As técnicas e o “poder” do Karate me fascinaram. Com a prática fui percebendo pouco a pouco os outros predicados do Karate-Do.

Golden Era - Fazendo um trocadilho com meu Nickname...
Você pertenceu a GOLDEN ERA do karate do Brasil.
Os atletas de hoje em dia nao se comparam aos de sua epoca no quesito Espirito de luta, são apenas PLAYERS de algo que se parece com Karate.
Porque vc acha que houve essa degradação total dos reais valores do karate do?

Sensei Ennio - Conheço muitos karatekas atuais com grande espírito de luta e outras qualidades que os caracterizam como excelentes, contudo não é a maioria. A essência está se perdendo.
Um dos motivos é a falta de formação de Instrutores Profissionais que, além de dominarem todos os aspectos do Karate-Do, também sejam preparados para ensinar e treinar de forma sistematizada desde principiantes a atletas de alta performace. — Veja mais adiante o meu projeto para sanar esta deficiência.
Outro fator, a meu ver, é o excessivo apego as competições, o vencer a qualquer custo, desprezando e descaracterizando-se os princípios e os valores do Karate-Do: o aperfeiçoamento pessoal, a ética (espírito de luta, o respeito, etc...), o kime e o sundome. Pior ainda, estas competições influenciam, moldam e direcionam a prática nas academias, o que limita e distorce o verdadeiro Karate-Do.
Ressalto que não sou contra as competições, muito pelo contrário. Eu mesmo fui competidor por muitos anos, técnico da seleção paulista e da seleção brasileira.
As competições são muito importantes para a divulgação e desenvolvimento do Karate-Do. Bem conduzidas, nelas temos a oportunidade de por a prova “nosso Karate” sob pressão (o que não ocorre na academia), lutamos com diferentes tipos de atletas e diferentes “Karates”, aprendemos novas táticas, estratégias e até novos golpes, e mais importante, tiram-nos da acomodação. Mas as competições devem ser direcionadas para que reflitam o verdadeiro Karate-Do em toda sua amplitude e profundidade.

Bodhi - Os treinos de Karate, quando foram introduzidos no Brasil, eram muito violentos. O sr. atribui essa caracteristica a: falta de técnica, empolgação, compreensão errada, ensino errado, ou os treinos eram o correto e dentro da tradição NKK ?

Sensei Ennio - Isto acontecia no passado por uma série de motivos, inclusive os que você cita, exceto pelo último: nunca foi um “moto” ou uma tradição da NKK, nem de qualquer organização séria de Karate-Do. O Karate-Do deve ser forte, eficiente e eficaz, mas digno e dignificante.
A violência não deve ser um meio ou meta em si. Coragem, Espírito de Luta, Bravura, não é não sentir medo, quem não sente medo não é normal, o medo é um mecanismo de defesa de, pelo que sei, todo ser vivo. Estas virtudes tão comentadas e almejadas no Budo, não consistem em buscar a violência, mas sim, enfrentá-la quando inevitável. Mesmo assim, nem sempre com mais violência.
Os professores devem adequar o treinamento ao tipo de público que procura a academia. Crianças, profissionais que dependem de sua aparência ou habilidades manuais (executivos, médicos, dentistas, marceneiros, etc...) no seu trabalho, ou seja, para sobreviver, não podem se machucar. Deve-se formatar uma aula/treino que possam obter os benefícios do Karate-Do com o mínimo de riscos. O Karate-Do tem as ferramentas para moldar este tipo de Aula/Treino.
Isto até por uma questão de interesse econômico-financeiro, pois sem alunos, não há receita e sem receita não há futuro para o Karate-Do.
Para os que têm interesse em se aprofundar no Karate-Do deve-se ter um treinamento de alto nível em separado. Nestes treinos, assim como acontecia no passado, pela dedicação e entusiasmo dos participantes, pode e ocorrem acidentes, mas são acidentes e, quando ocorrem, devemos procurar saná-los. O que o sofre deve engolir o sangue e continuar a lutar encarando o acidente como um teste de desenvolvimento do Espírito de Luta e Controle dos Impulsos. O que o causa, deve se desculpar pela falta de controle técnico e treinar para corrigir a falta de habilidade.
Mas, atingir um colega propositalmente em uma luta, onde é previamente e tacitamente combinado o “sundome” (controle do golpe) é altamente reprovável: é falta de controle emocional, deslealdade e covardia. Inadmissível para um verdadeiro “Karateka”.

Bodhi - O que o sr. acha  do grande número de repetições nos treinos de karate quando pensamos em lesões por esforço repetitivo ? Lesões de bacia, joelho, e coluna são relativamente comuns em praticantes de longa data do tradicional. Será possivel treinar o tradicional a vida toda sem precisar de algum tipo de cirurgia, ou ter algum tipo de limitação ?

Sensei Ennio - O nível de maestria, de virtuosismo, só se alcança com o treinamento, com a repetição. Isto serve para todas as atividades da vida. Esta prática tradicional foi comprovada recentemente por estudos científicos baseados no acompanhamento de inúmeras atividades humanas, entre elas a dos pianistas profissionais. A síntese destes estudos refere-se a 10.000 horas de prática para se alcançar o virtuosismo.
Os avanços científicos ocorridos nos últimos anos nos campos do treinamento desportivo, alimentação, fisioterapia, medicina e na psicologia, permitem minimizar os riscos ou otimizar o treinamento para se obter melhores resultados sem se comprometer em demasia a saúde. Mas em se tratando da busca do virtuosismo, tanto na parte técnica quanto formação do caráter (budo), não há atalhos.
Muitos treinamentos no caso do Karate-Do, são treinamentos de superação, de desenvolvimento das faculdades não físicas tais como o espírito de esforço, o espírito de luta, a perseverança, dilatação dos próprios limites, controle sobre a vontade, e eu não conheço outra forma de desenvolvê-los a não ser com treinamentos intensos e sob pressão.
Bodhi - Quem foi (ou foram) o maior karateca brasileiro em kumite ? No RJ, o Ronaldo Carlos é uma lenda, o sr poderia comentar ?

Sensei Ennio - Não sei dizer quem foi o melhor. Eu conheci muitos, entre eles, além do Ronaldo: Antônio Gomes Matins, Ricardo D´Elia, Carlos Alberto Galvão Rocha (Carlão), Paulo Góes, Ugo Arrigoni, Antônio Fernando Pinto, Juarez Alves Gomes (Jacaré), Djalma Caribé, ... depois vieram: Robson Maciel, Yohanes Carl Frieberg, José Carlos Gomes de Oliveira (Zeca), etc...

Bodhi - Quais foram os treinos mais dificeis no Japão ? Houve algum dia mais marcante ?

Sensei Ennio - Por causa das circunstâncias pessoais, foram os que descrevo na resposta dada ao “Yama”, mais abaixo.

 Bodhi - O sr. poderia comentar suas valiosas impressões sobre sensei Nakayama, Nishiyama, Asai, Mori, Yahara ?

Sensei Ennio - O Prof. Nakayama deixou uma obra inestimável sobre o Karate-Do. Às segundas feiras, quando não estava viajando, ele dava a aula no “Shidoin-Gueiko”. Era uma aula muito técnica, muitas de suas explicações, só as compreendi após alguns anos.
O Prof. Nishiama estava nos USA e, embora tenha sido apresentado a ele em uma comemoração da Komazawa Dai Gaku, universidade do Prof. Oishi, onde treinei por alguns meses, não tive maior contato com ele e nunca o vi treinando.
Com Prof. Assai tive um contato quase diário no treino. No inicio de 1979, quando se preparava para substituir o Prof. Shoji como instrutor do “Shidoin-Gueiko”, começou a dar o treino em alguns dias da semana. Tinha um karate único, caracterizado por golpes e deslocamento circular. Seu treino era baseado na prática destes golpes.
Com Prof. Mori tive pouco contato, pois morava e dava aula no interior do Japão e vinha cerca de 2 semanas antes do Campeonato Japonês para treinar. Era muito grande e forte.
O Prof. Yahara, dos “Sempais”, foi o com quem mais tive contato. Como é sabido dono de uma incrível explosão e versatilidade. – Veja adiante mais comentários sobre ele.

Bodhi - Apesar de tantos anos passados, me parece que o Karate brasileiro inicialmente foi influenciado por alguns senseis que dedicaram a vida a essa arte marcial: senseis Uriu, Y. Tanaka, Takeuchi, Okuda (quem mais?) O sr concorda com isso? O sr. poderia comentar sobre cada um, especialmente a perspectiva que teve sobre esses mestres após sua experiência no Japão ?

Sensei Ennio - Sem dúvida concordo. Por eles e por muitos outros, inclusive brasileiros. Só para lembra de alguns: Harada, Akamine, M Shinzato, T Kawamura, Sagara, Higashino, Denilson Caribé, Lirton Monassa, A Yokoyama, Buio, Takamatsu, etc...
A minha estada no Japão não mudou a perspectiva que tinha deles: respeito e reconhecimento do seu trabalho.

Bodhi - e por último:
 - Qual foi a maior vitória que a prática do Karate lhe proporcionou na vida ?
Muito obrigado pela oportunidade. Espero não ter feito nenhuma pergunta incoveniente, nesse caso me desculpe antecipadamente. Meu pai competiu na década de 60, e tantas historias ele tinha. Se não se escreve o tempo leva.

Sensei Ennio - Foram muitas, não sei especificar uma só. Cito algumas ao longo da entrevista. Espero que responda a tua pergunta.

KATASHOTOKAN - Frente à FPK como diretor técnico, e presidente, gostaria de saber qual ponto positivo e negativo o senhor citaria.

Sensei Ennio - Este é um julgamento que deve ser feito pelos filiados da época ou pelos que de alguma forma tenham sido afetados, bem ou mal, pela minha administração.

KATASHOTOKAN - “SATORI” Qual sua definição a respeito desse assunto na vida do karateca.

Sensei Ennio - Pelo pouco que sei, Satori, ou estado de iluminação. É um estágio espiritual a ser alcançado pelos homens (ou seres) e pregado por varias religiões orientais tais como induismo, budismo, etc.... O Karate-Do que conheço não se propõe a tal.

KATASHOTOKAN - No Karate-Do, no tripé (KKK kihon, Kata, Kumite,) se o Senhor Tivesse de escolher apenas um, qual seria.

Sensei Ennio - A metáfora do tripé refere-se ao fato que a falta de um deles desequilibra o que ele suporta, no caso, a prática do Karate-Do. Realmente acredito nisto e nenhum dos “pés” deve ser negligenciado. Isto posto, é certo que todos tem preferências. A minha sempre foi o kumite.

« Última modificação: Agosto 15, 2011, 08:28:16 por samurai »
Com o "Obi", amarre seu corpo ao seu espirito,e vai em frente.

Offline Pedro

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #1 Online: Julho 19, 2011, 15:02:31 »
Arknjo - 1- Diante da desmoralização atual do karate o senhor acredita ser necessário uma mobilização para acabar com a picaretagem, ou seja uma mudança na lei para que haja um orgão oficial (jka, cbk ou sei lá qual, se é que isto é possivel) para fiscalizar as associações e academias no que tange a pratica do karate budo e do karate esportivo.
Sensei Ennio - Não creio que isto seja factível. Já foi tentado na minha gestão da FPK, mas esbarramos em empecilhos legais e políticos. O melhor é fazermos um Karate-Do de qualidade, que além do ensino e prática correta, concilie também as expectativas dos diferentes públicos interessados. Também devemos nos preocupar em divulgar o trabalho, assim forneceremos elementos de comparação o que, certamente, nos dará a preferência dos potenciais praticantes.
Arknjo - 2- Será o Lyoto Machida o grande salvador do karate?. Não deveriam as federações e organizações se esforçarem para criar mais karatecas budokas, demonstrando assim a verdadeira força do karate para retir a nossa arte do limbo?
Sensei Ennio - Não acredito nisto. Veja resposta abaixo.
Arknjo - 3- Qual a sua opinião sobre o karate no MMA? Sera este o futuro do karate budo?
Sensei Ennio - Também gosto de ver lutas de MMA, é meu instinto, mas acho que devemos controlar nossos instintos ancestrais e primitivos e as emoções destrutivas. Por uma questão de dignidade e até de interesse econômico-financeiro, devemos considerar as reflexões e pensamentos abaixo:
Não acredito que o Karate-Do ou qualquer tipo de Budo se preste a shows e espetáculos de violência. Nossos objetivos são outros: trata-se de formar o corpo e o espírito (caráter, mente, etc.). O poder do Karate-Do ou de qualquer outra forma de Budo só deve ser usado em casos extremos, como em própria defesa, em defesa de outras pessoas e em causa da justiça. Não são palavras minhas, são palavras do Prof. Nakayama que, por sua vez, repetiu palavras de antigos Karatekas e outros Budokas. Tais afirmações encontram eco em todas as “artes marciais” (Budo). Mesmo antigamente, quando a conduta dos Samurais era regida pelas leis e pelo Bushido, os mesmos só podiam usavar suas habilidades bélicas em defesa da população, e em favor da ordem e da justiça.
É por causa deste entendimento do Budo (filosofia) que predomina no Karate-Do que, felizmente, temos poucos ou quase nenhum representante nos MMAs.
Usar o poder destrutivo do karate para machucar outras pessoas em troca de dinheiro ou fama me parece incorreto.
Também não acredito que seja uma forma saudável de propaganda. Se por um lado pode atrair o público afeito a competição, ou um público desejoso de violência ou candidatos a lutadores profissionais, talvez afaste a maioria que pode associar o Karate-Do ‘a violência e a bravata. Tendo assistido um torneio de MMA e visto a agressão e ferimentos causado pelo Karate-Do, qual mãe, em sã consciência, colocaria seu filho para “quebrar a cara” numa academia de Karate? Qual profissional que precise de suas habilidades físicas (ex.: destreza manual) ou de sua aparência (especialmente mulheres) para ganhar a vida, procuraria uma academia de Karate-Do ante a possibilidade de lesões conforme assistiu em um torneio de MMA?
Além de restringirmos os benefícios do Karate-Do a um público pequeno, o que prejudica a missão do Karate-Do, colocaríamos também em risco a sobrevivência das academias por causa da pequena receita gerada por este público limitado.
Arknjo - 4- Pit boys de DO-GI mancham a arte ou simplismente fazem propaganda gratuita assim como fizeram no jiu jitsu, e ajudam o povo a lembrar que o karate existe e funciona?
Sensei Ennio - Acredito ter respondido na pergunta acima
Arknjo - Muito Obrigado pela oportunidade e espero não ser inconveniente em meus questionamentos.
Sensei Ennio - Foi um prazer
Gon - Ennio Sensei, o que o senhor acha dos introdutores do Karate Shotokan no Brasil (mestre tanaka, sasaki, machida, takeuchi...)?

Sensei Ennio - Eles, como outros do Shotokan e de outros estilos, foram os responsáveis pela introdução do karate competitivo no Brasil.

Gon - Que impressão teve sobre os treinos no Japão e dos mestres lá? O nível técnico (em especial de kumite) é muito diferente do resto do mundo?

Sensei Ennio - Referindo-me aos que treinavam no “Shidoin-Gueiko”, sim, eram muito superiores na época. Hoje é diferente, o conhecimento se disseminou, o resto do mundo treinou e evoluiu e temos “karates” muito fortes em várias localidades do mundo, como demonstram os resultados, mesmo que limitadamente, dos campeonatos mundiais de entidades oficiais (WKF) e entidades de estilo (JKA, Wado, Shito, Goju, etc).

Nelson Junior - Sensei Ennio. na sua visão o karate treinado na maioria das academias do brasil atualmente é igual tem a mesma força dos anos 70/80? não somente na forma de treino como na dedicação dos praticantes da Arte? OSS.

Sensei Ennio - O Brasil é muito grande e, é claro, não conheço a maioria das academias do Brasil, mas considerando o que tenho visto em campeonatos, cursos e contatos que tenho, o treinamento das academias, hoje, está voltado para as competições, o que limita e distorce o verdadeiro Karate-Do, conforme expus anteriormente.
Gustavo-RJ - Qual foi o fator a que o Ennio atribui o fato da equipe de SP nunca ter ganho um brasileiro na decada de 70. É inegável a qualidade dos atletas (tendo inclusive titulos individuais) mas por equipe nunca deu certo.
Seriam rixas internas? Má arbitragem? Azar? O RJ com mais opções táticas? Erro em escalações?
Vejam bem minha pergunta não tem nada de zoação é apenas uma curiosidade pois o karate de SP era excelente.

Sensei Ennio - Não há desculpas para a derrota, não deve ser justificada. Deve-se procurar entender porque ocorreram, quais foram as causas e tomar atitudes corretivas para evitá-las no futuro, e isto já fizemos. Na década de 80, São Paulo se tornou quase que imbatível, e, pelo que sei, até hoje o é estado com mais título obtidos.
Os atletas da equipe do Rio de Janeiro na década de 70 eram excelentes além de muito leais. Eles mereceram cada vitória que tiveram. Paulo Goes, Ugo Arrigoni, Ronaldo Carlos, Victor Hugo, Flávio Costa, só para citar alguns.
A principal causa por São Paulo nunca ter ganho um Campeonato Brasileiro por equipe na década de 70 (ganhamos o Campeonato Nacional em 1974), no meu entender, foi a falta de treinamento específico para competição.
Na década de 70, por causa da separação do Prof. Okuda do Prof. Sagara São Paulo, se não me engano, só participou dos Brasileiros por equipe a partir de 1974.
Em 1973, o Prof. Okuda iniciou o Treino de Instrutores da NKK no Brasil. Segundo suas próprias palavras, queria primeiro formar karatekas fortes e depois pensaria em campeonatos. Nos íamos para campeonatos, inclusive em estaduais sem treino algum de competição — nunca treinamos “entradas” (o tal do 2 a 2 ou utchikomi), distâncias, táticas e estratégias de competição. Não que o Prof. Okuda não conhecesse os treinamentos de competição, pois foi competidor e foi da seleção japonesa, além disso treinamento para competição era matéria do “Shidoin-Gueiko”, mas ele, terminantemente, se recusava a treinar para competição por causa da sua crença. Daí a quantidade de acidentes, desclassificações e derrotas de São Paulo. Isto também acontecia em São Paulo, entre nós, mas aqui a arbitragem era mais tolerante aos acidentes, especialmente nas finais. As derrotas nos Campeonatos Brasileiros eram muito frustrantes para quem treinava tanto e acredito que tenha sido um dos fatores da separação da equipe do Prof. Okuda no fim da década de 70.
Os primeiros treinos de distância e “ponto”, os treinos de entrada 2 a 2, algumas táticas e estratégias de competição foram trazidas pelo Ricardo D´Elia, quando voltou do Rio onde fora treinar para o Panamericano com os professores do Rio, exímios conhecedores dos campeonatos e de seus métodos de treinamento. Depois, em 1976, veio o Prof. Oishi que nos ensinou novos métodos de treino de competição. Mas o Prof. Okuda continuava a relutar em treinar para competição, assim treinávamos sozinhos, entre nós, quase que escondidos do Prof. Okuda. A partir de 1977, como conseqüência dos treinos de competição São Paulo começou a obter resultados individuais e em equipe nas competições. Primeiramente com o Sasaki como técnico até 1982, depois com o D´Elia até 1984, a seguir, comigo, quando assumi como técnico até 1986, posteriormente com o Takashi Shimo, novamente com D´Elia e outros.

Alaumir Mainardes - Sensei Ennio Vezzuli quais são as suas lembranças dos treinamentos com o Sensei Taketoshi Kawamura ?

Sensei Ennio - São ótimas lembranças. Ainda hoje nos encontramos 2 a 3 vezes por ano. O Prof. Kawamura além de ser um excelente Karateka é uma boa pessoa.
Já naquela época (década de 1960) ele já estava muito a frente de seu tempo. Foi 4º. Grau de Judo, 4º grau de karate, 2º. Grau de Aikido e praticou boxe com o Eder Jofre. Na busca de conhecimento e experiência foi ao Japão onde ficou por 2 anos aperfeiçoando-se.
Apesar de suas habilidades inatas sempre foi humilde, sempre disposto a aprender, nunca se deu ares de “Grande Mestre”, nunca contou vantagens e seu comportamento era e é inspirador.

Andrews Moura - 1 - O que o karate acrescentou na sua vida?
Sensei Ennio - Completou e confirmou a educação que os meus pais me deram.
Andrews Moura - 2 - Segundo sua ótica quais os maiores Karatecas da historia? Se possível cite cinco(5).
Sensei Ennio - Cinco é muito pouco. Ao longo da entrevista citei vários.
Andrews Moura - 3 - Que conselho o senhor poderia dar aos estudantes de karate da atualidade?
Sensei Ennio - Aprenda corretamente,Treine muito, Reavalie, Aperfeiçoe, Inove, comece tudo de novo...
Andrews Moura - 4 - Poderia citar um momento marcante na sua trajetória no karate?
Sensei Ennio - Foram vários, apresento alguns durante esta entrevista.
Andrews Moura - 5 - Sensei  Ennio Vezzuli, com relação ao curso de instrutores no Japão: O que o motivou o senhor a faze o curso?
Sensei Ennio - Meu sonho, desde que comecei a treinar karate, era ir treinar no Japão. Mais tarde, quando fui treinar na NKK do Brasil, ouvi falar no “Treino de Instrutores da NKK da Matriz em Tóquio” o “Shidoin-Gueiko”. Dizia-se que era o melhor do mundo, que poucos agüentavam e até que houvera mortes no treinamento. Aquilo aguçou a minha fantasia e eu ousei pensar que queria ser um dos poucos que agüentaram, ousei querer treinar entre os melhores o mundo e, quem sabe, chegar a algo próximo disto, enfim, tornou-se um desafio.
Após 2 anos treinando na NKK do Brasil, com o Prof. Okuda, fui convidado a participar do “Treino de Instrutores da NKK no Brasil”, curso/treino nos mesmos moldes do “Shidoin-Gueiko” da Matriz da NKK. Participei de 73 a 77 sendo que me forme em julho de 1974.
Por volta de 1975, comentei com o Prof. Okuda da minha intenção de ir treinar no “Shidoin-Gueiko”. Ele tentou me dissuadir, alegando que o treino no Brasil era igual diferindo somente na quantidade de instrutores e do ambiente mais opressivo especialmente com os estrangeiros. Que eu teria muitas dificuldades por causa da adaptação, que sofreria muito, etc. Não adiantou, o sonho não me saia da cabeça, eu queria ver como era o original. No fim, vendo minha determinação, me apoiou e ajudou com seus contatos no Japão... e eu fui.
Andrews Moura - 6 - Quais as maiores dificuldades no mesmo?
Sensei Ennio - Apresento algumas ao longo da entrevista.
Andrews Moura - 7 - Em algum momento o senhor pensou em desistir?  Se Sim o que o motivou a continuar?
Sensei Ennio - Sim, algumas vezes. Nestas ocasiões lembrava-me que participar era a realização de um sonho de muitos anos; lembrava-me que diziam que o “Shidoin-Gueiko” era muito duro e que poucos agüentavam, especialmente os estrangeiros não agüentavam, desistir seria uma vergonha. Agüentar era uma questão de honra, então me recuperava rapidamente.
yama - é uma grande honra poder estar me dirigindo ao Sr.
_Quais eram os kihons mais treinados pelos Srs. no tempo que passou no Kenshusei ?

Sensei Ennio - Os kihons e outras práticas variavam muito. O “Treino de Instrutores” era contínuo, mas dividido, ao longo do tempo em ciclos de treinamento, cada um com metas e objetivos próprios. O conteúdo de cada ciclo era projetado de maneira que os vários métodos de treinamento (kihon, kata, kumite e outros), coordenadamente, se completassem e se integrassem de forma a atingir os objetivos daquele determinado ciclo e que aquele, também, coordenadamente se integrasse aos outros ciclos completando o todo.

yama ___O período de treinamento é o mesmo que ocorre hoje em dia ?

Sensei Ennio - Na época o treino ocorria diariamente das 12:00 ‘as 14:00, as vezes se estendida um pouco mais. Antes do Campeonato Japonês, ocorria 2 vezes ao dia: de manhã e ‘as 12:00 h. Hoje não sei.

yama ___O que o Sr. fazia para sobreviver quando esteve por lá ?

Sensei Ennio - Recebia US$300,00 (na época era o valor máximo que podia ser enviado do Brasil para o exterior) de um aluno e amigo meu, o Marco Antônio Fialdini, que continuou a dar aula nos locais em que eu dava, mas claro que o dinheiro não era suficiente. Após seis meses de Japão o dinheiro que eu levara acabou, mas logo consegui um emprego de professor de português e de italiano. Dava aulas em alguns horários entre os treinos.

yama ___O Sr. pode citar algumas lembranças deste período,boas e até as não tão boas ?

Sensei Ennio - A época mais difícil foi no primeiro semestre de 1978 quando o meu dinheiro acabou. Tive que racionar comida e fiquei muito preocupado com a vergonha de ter que voltar ao Brasil e desistir do treino. Nesta época adoecia com facilidade e me desconcentrava no treino, conseqüentemente me machuquei muito. Após alguns meses quando pensei que não tinha mais jeito, consegui um trabalho como professor de português e mais tarde também como professor de italiano, o que permitiu a continuidade de minha estada no Japão.
Mesmo após ter iniciado a trabalhar continuei a passar dificuldades, pois passei a ter mais uma despesa com gastos com condução (que na época eram elevados) para ir até o local. A minha confiança no destino estava muito abalada, não sabia se agüentaria o mês que faltava até receber o pagamento. Eu não queria pedir um adiantamento. Surpreendentemente, na sexta feira seguinte, cerca de dez dias do inicio do trabalho recebi o adiantamento regular da escola (eu não sabia que existia).
Esta é a melhor lembrança que tenho: com o dinheiro na mão, me convenci que não teria que passar pela vergonha de voltar e desistir do treino. Foi um grande alívio. Fiquei muito feliz, quase eufórico
Era uma sexta feira fim da tarde, no sábado não tinha treino, imediatamente separei algum dinheiro e fui ao supermercado onde comprei um “monte” de comida. Lembro-me especialmente de umas salsichas muito grossas e das “Kirin Biru” (cerveja Kirin), levei as compras para o meu pequeno quarto de 6 tatamis. Naquela sexta-feira me lembro inundado de alegria, comi e bebi tanto que minha barriga parecia de uma grávida e quase não conseguia me levantar do tatami para ir ao banheiro. No sábado estava imprestável, mas muito contente. No domingo fui correr para estar desperto para o treino da segunda.

yama ___Foi facíl sua adaptação com os outros alunos e os Mestres ?

Sensei Ennio - Descrevo o período de adaptação mais adiante em resposta a uma pergunta idêntica.

Leomju - Depois de tantos anos de treinamento, após essa caminhada, como o senhor explicaria aos iniciantes que o Karatê valeu a pena?

Sensei Ennio - Valeu muito à pena, mas especificamente, não sei como explicar, pois ele se integrou a minha vida como um todo. Espero que ao longo da entrevista possa ter transmito os leitores esta percepção.
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Offline Pedro

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #2 Online: Julho 19, 2011, 15:03:19 »
Arivaldo - 1) Por que “alguns” professores insistem em afirmar que você não concluiu o curso de “Shidoin-Gueiko” ? Concluiu ou não?
Sensei Ennio - Eu treinei no “Shidoin-Gueiko" da matriz da NKK em Tóquio por cerca de 2 anos que é a duração do curso. Naquela época, pelo que eu sei, a NKK não credenciava estrangeiros como Instrutores da Matriz da NKK. Estrangeiros que tivessem os requisitos necessários podiam participar, mas não eram credenciados. Quando fui, eu estava ciente disto, pois fui alertado pelo Prof..Okuda antes de viajar.
Não tenho total certeza, pois nunca me interessei pelo assunto, mas, pelo que sei, os estrangeiros que participaram do “Shidoin-Gueiko” por períodos longos (um ano ou mais), embora tenham sido poucos, nenhum foi credenciado. Assim foi com Wendel, Jackson, Stan Schimit, comigo e com o Pete, bem como aos que se seguiram.
Lembro-me que o Pete em uma conversa em seu apartamento, sugeriu que pedíssemos ao Prof. Nakayama se poderiam emitir algum certificado. Eu não me interessei, pois já fora credenciado instrutor no Brasil, não falamos mais sobre isto. Logo depois voltei ao Brasil.
Em 1980, ao me desligar do Prof. Okuda me desliguei também da NKK.
Parece-me que após a cisão da NKK no fim dos anos 80, início dos 90, houve algumas mudanças: Criaram uma classificação de instrutores.

Arivaldo - 2) Poderia fazer uma comparação com o treino de kenshusei que fez com o Okuda (Brasil), no Japão e atualmente mudou muito?
Sensei Ennio - As intensidades físicas dos treinos eram muito semelhantes: muito puxadas. O treino no Brasil era mais voltado para o kihon e kumite no Japão mais focado no 2 a 2 e Kumite e períodos pré-campeonato com forte enfoque ao Shiai Kumite.
A quantidade de participantes no Brasil, em média era de 6 e no Japão cerca de 22 participante. Além disso, no Japão havia muitos “Sempais” o que no Brasil não havia, pois fomos a primeira turma. Os “Sempais” além de ajudarem a ensinar e corrigir os Kohais (são uma espécie de mentores) também são referências tanto em “tipos de karate” como em conduta. Quanto mais “Sempais” melhor.
Mas o diferencial era mesmo o ambiente. No Japão o ambiente era muito mais tenso e em certas épocas, hostil. A pressão psicológica era intensa, mas compatível com os objetivos do treino.
Pelo que sei o sistema continua o mesmo.
Arivaldo - 3) Troquei alguns e-mails com Pete Pacheco (Portugal) seu colega de treino no Japão. Como instrutor formado ele conseguiu implantar um projeto de karate shotokan (JKA) em Portugal. E no Brasil por que não deu certo?
Sensei Ennio - Não sei exatamente, mas acredito que, como não apareceram novos candidatos, o Prof. Okuda não se viu mais estimulado e não teve como prosseguir com o curso.
Arivaldo - 4) Tem algum projeto (karate) para o futuro? Poderia falar a respeito?
Sensei Ennio - Sim, tenho. Veja mais adiante.
David Mendes - Em algum momento o senhor se sentiu discriminado por ser brasileiro?

Sensei Ennio - Sim, mas foram casos isolados.

David Mendes - Durante os treinos pegavam mais pesado por ser estrageiro?

Sensei Ennio - Quando estava lá achava que sim, mas a minha percepção foi influenciada, sem dúvidas, pelas dificuldades iniciais de adaptação ‘a um país totalmente diferente.
Todos que entram (japoneses e estrangeiros) passam por um período de provação para verificar se realmente agüentam, se são merecedores de estarem ali. No 2º. ano o tratamento muda e você passa a ser tratado como “quase gente”.
Muitos estrangeiros, por causa da grande diferença de culturas, não se adaptam e logo abandonam o treino ou apresentam uma conduta inadequada à esperada para tal treino. Assim os japoneses se precavem submetendo os estrangeiros a um período maior de observação antes de aceitá-los como merecedores de estarem ali e receberem os ensinamentos.
O rigor a que os kenshuseis são submetidos faz parte da forja, não se pode confundir isso com discriminação ou perseguição.
Também se deve considerar que o “Shidoin-Gueiko” é um motivo de orgulho nacional. O que se diz, como você deve saber, é que o treino e muito duro e rigoroso, que poucos agüentam, que estrangeiros não agüentam, etc...
O ambiente era opressivo, o rigor e pressão física e psicológica era muita e havia períodos que a intensidade era extrema, eram treinos de superação. Mas tudo isto era adequado aos objetivos do Treino, tratava-se de formar uma elite do Karate-Do que devia estar preparada para divulgar e ensinar a essência do Karate-Do e também preparar lutadores para as mais diversas situações, inclusive de entrave real.

David Mendes - O senhor acha que alguém no Brasil tem capacidade para participar para instrutores Kenshusei

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #3 Online: Julho 19, 2011, 15:04:01 »
Sensei Ennio - Sim. Não faltam karatekas sérios no Brasil.


Sensei Carlos Rocha - Aí vão algumas perguntas para a sua entrevista no karateka.net:
Voce foi um sempai super rigoroso e sempre exigiu o máximo do seu kohai, mas sempre leal e pronto a ensinar tudo que sabia. Vc teve um sempai assim no Japão? Se teve, quem foi?
Sensei Ennio - Sim, tive orientação do Prof. Isaka e do Prof. Oishi, amigos do Prof. Okuda, mas o foi com o Prof. Yahara que tive mais contato. Quase que diariamente, exceto as quartas-feiras, que era seu dia de folga, por cerca de 20 a 30 minutos antes do treino me chamava para Kumite. Às vezes também após o treino. Lembro-me que se aproximava do “chiqueirinho”, canto da Kyokai onde os Kenshuseis ficavam-se aquecendo e a disposição dos “Sempais”, e circundando os punhos um em volta ao outro, repetia com um ligeiro sorriso a inesquecível e temerosa frase: “Ennio kun, choto yarô ka?. A frase quer dizer: “Ennio Kohai, vamos fazer um pouco?” e o movimentos dos punhos queria dizer: Kumite. ... Certamente a minha resposta era: Oss!

Foi com ele que aprendi o então inédito Ushiro Mawashi Gueri.

O Yahara “Sempai” consumava viajar algumas vezes por ano para dar cursos e aulas na Nova Caledônia (ilhas da Oceania) e em outras localidades, estas viagens, esperadas com ansiedade, eram um alívio para os Kohais.

Sensei Carlos Rocha - O que foi mais difícil no Japão, quando da sua chegada. A dificuldade da língua, costumes, solidão, pressão psicológica ou os treinamentos em si. Comente um pouco esta situação.
Sensei Ennio - Eu fui para o Japão exclusivamente para treinar no “Shidoin-Gueiko” e iniciei assim que cheguei lá, o que não era comum para estrangeiros. O normal (e recomendado) era ir para o Japão, treinar na Hoitsugan (academia do Prof. Nakayama), que ficava um quarteirão da matriz da NKK no treino das 7:00 h e treinar na NKK no treino das 10:00 por alguns meses ou até por alguns anos até se ambientar e “quebrar o gelo” com os “Shidoins” e “Kenshuseis”. Após a ambientação, pediam para participar no “Treino de Instrutores” e, se preenchessem os requisitos, eram autorizados. No meu caso a ambientação foi “a frio”, direto no “Treino de Instrutores”, por isso o inicio foi um pouco difícil, ...bem difícil.
Tive que de imediato e ao mesmo tempo administrar a adaptação, a falta da família e dos amigos, aos costumes, à alimentação, o clima, pois cheguei no verão, que, em Tóquio, é sufocante (muito quente e úmido, mais que o Rio de Janeiro), o ambiente opressivo do “Shidoin-Gueiko” e o rigor com que eram tratados os iniciantes. Também sofria as seqüelas da operação que sofrera no início do ano que não me dava a confiança total na movimentação.

Quanto à intensidade física do treinamento, não tive problemas, pois era semelhante ao treinamento no Curso de Instrutores da NKK no Brasil, mas me lembro que, durante o primeiro mês, saia do treino exaurido, quase que me arrastando. Ia para um parquinho que ficava atrás da Kyokai, sentava-me num banco e ficava imóvel tal qual um yogi, contemplando o céu, as nuvens totalmente desligado, por um bom tempo, às vezes por mais de uma hora, até que a “consciência” voltasse e tivesse forças para, então, comer o lanche que levava de casa e continuar o dia.

Por outro lado o Prof. Okuda conseguiu que eu morasse na Hoitsugan de Yokohama, a academia do Prof. Horie (seu Kohai) e do irmão do Sr. Hiroshi Tabata (irmão do “Shidoin” Tabata). O Prof. Horie era um “Shidoin” que já não treinava no “Shidoin-Gueiko”. Morei na Hoitsugan de Yokohama por 7 meses, e praticamente todas as noites após o treino em que eu ajudava a dar aula, me levava para jantar e, as vezes, me embebedar. Durante a minha estada no Japão não mediu esforços para me ambientar e ajudar.

Além disso, iniciou comigo, no “Shidon Gueiko”, o português José Pacheco, o “Peté”, uma pessoa incrível mente boa de quem me tornei amigo e muito me ajudou em toda minha jornada japonesa.

Havia também o Ricardo Carvalho que treinava na Takudai. Ele me orientou quanto aos costumes e convivência com os “Sempais” o que amenizou muito a minha adaptação. Algumas vezes, após o treino eu ia até a Takudai, assistia ao treino e depois íamos nos embebedar, desabafar e cada um falar mal dos seus “Sempais”.

Tive também outros dois amigos que me apoiaram com sua amizade: o Takahashi, um aluno do Prof. Horie, que nos fim de semana vinha me buscar na academia para que não ficasse só e o “tchisai” Mori (pequeno Mori, como o chama o Yahara “Sempai” para diferenciá-lo do “Oki” Mori , grande Mori, que era “Shidoin” da NKK), um “Sempai” da Komazawa Dai Gaku e “Kohai” do Prof. Oishi, que sempre me procurava para sairmos ou para saber se eu estava bem. Coincidentemente, depois fiquei sabendo que pequeno Mori competiu na época de estudante com o Prof. Yahara e se tornaram amigos muito próximos, tal vez tenha sido o motivo do tratamento especial que recebia do o Yahara “Sempai”. (tratamento similar ao dispensado a um saco de pancada).
A pureza destas amizades, por si só, teriam feito valer a minha estada no Japão.

Sensei Carlos Rocha - Qual a sua melhor lembrança desta época e qual a pior.
Sensei Ennio - Hoje tudo valeu à pena, embora, na época, não parecesse assim. Abaixo cito algumas:
As ruins, com o tempo perderam importância e hoje até parecem boas. O saldo final é muito positivo.
Uma boa e engraçada lembrança (para quem tinha tão pouco lazer e com a auto-estima abalada por causa da pressão do treino):
Em agosto, como já disse, o clima é muito quente e úmido, quase insuportável e é o período de férias de verão no Japão. Também há férias para os “Shidoins”. Metade dos “Shidoins’ tiram as duas primeiras semanas de férias em agosto e a outra metade, nas duas últimas semanas. Se não me engano os “Kensusheis’ não tinham férias, pelo menos eu e o Peté não tínhamos. Nesta época geralmente o treino era livre, quer dizer, você ficava treinando sozinho ou em pequenos grupos conforme as necessidades de cada um e, é claro, a disposição dos “Sempais”, que, não tardava, vinham te chamar para o Kumite. Nós até tentamos fazer o Kumite entre nós para ver se os “Sempais”, nos vendo ocupados, desistiam de nos chamar, mas não adiantava, eles simplesmente interrompiam nossa lutas e nos chamavam para lutar com eles.
Um belo dia de agosto de 1978, o Prof Isaka, não sei ao certo, mas acho que foi para nos testar, convidou a mim e ao Peté para sairmos para beber ‘a noite. O tal do “hashi go” ou como nos conhecemos no Brasil o “de bar em bar”. No horário combinado ainda claro, cerca das sete horas da noite eu e o Peté estávamos lá. Além do Isaka e nos, havia outros “Shidoins” e “Kenshuseis”, creio que o Kurasako, o Kawawada, o Suzuki, etc. Fomos para Shinjuku, um bairro boêmio de Tóquio. A partir de então me lembro de bem pouca coisa, mas ficou claro que o objetivo era nos embebedar, pois além de nos obrigar a “virar” a toda a hora, misturavam bebidas tais como cerveja, uísque, sochu (destilado de batata), saque, etc... Sei que passamos em uma infinidade de bares, e vomitei por várias nos banheiros, até que, por volta das 5 horas da manhã, tudo acabou, com todos bêbados. Nunca nos passou pela cabeça faltar no treino do dia seguinte, mas esperávamos que, como era período de férias e por aquela noite ter sido de trégua entre nós e os “Shidoins”, representados ali pelo Prof Isaka, e considerando o estado deplorável que nos encontrávamos, inclusive ele, nos dispensasse. Para nosso desencanto se despediu dizendo que “nos encontraríamos mais tarde no treino”.
Como eu morava em Yokohama, dormi na casa do Peté e umas 9:00 já estávamos acordados e nos encaminhamos ainda bêbados para o Treino. O Prof Isaka não apareceu, nem os outros “Shidoins” e “Kenshuseis’, mais eu e Pete estávamos lá, bêbados contidos, mas estávamos lá e treinamos. Por sorte o treino, naquele dia, foi leve e havia poucos “Shidoins”. No fim do treino eu e o Peté cantávamos vitória um para o outro, dizíamos que eles não eram de nada, que nós sim, os estrangeiros, éramos mais homens que eles e um monte de bravatas. Embora falássemos em tom de brincadeira, para nós foi uma grande vitória.
No dia seguinte quando vimos o Prof isaka e os outros que estiveram na bebedeira e não foram no treino, eu e Peté rindo, falamos entre nós, bem baixo, simulando a expressão e voz de bronca dos “Shidoins” e sem que ninguém nos visse: Aí em seus “cabrões” (como o Peté costumava dizer), por que não vieram treinar ontem? Quando nos viu, o Prof Isaka nos cumprimentou como sempre e como todo “Shidoins” cumprimenta os “Kenshuseis”: de cima de seu salto alto. Mais tarde ficamos mais felizes ainda por termos decidido ir treinar no dia anterior, pois soubemos que ele perguntara a outros “Shidoins” se nós tínhamos comparecido no treino do dia anterior.
Outras boas lembranças foram dos meus últimos dias em Tóquio.
Cerca de 2 semanas antes da minha partida, quando já tinha comunicado ‘a Kyokai que deveria voltar ao Brasil, pouco antes do treino Prof Yahara, se aproximou de mim e, surpreendentemente ao invés de me “convidar” para o costumeiro Kumite, me convidou para um almoço com ele no sábado seguinte e, em seguida, me perguntou quais eram as medidas de meu kimono e da minha faixa pois queria dá-los de presente para mim (acho que para compensar os que ele me rasgou durantes os kumites). Perguntou-me também como queria o kimono, disse-lhe que gostava do kimono igual ao dele (casaco mais longo e calça e mangas mais curtas), ele ficou surpreso e acho que até envaidecido, pois na época era só ele que usava aquele corte de kimono que hoje se tornou comum.  Em seguida, quando já estava certo que escapara, ele fez seu “convite compulsório” para o kumite . No sábado seguinte fui ao seu encontro para almoçar, estava presente também o pequeno Mori, seu amigo e “Sempai” da Komazawa Daí Gaku, conversamos muito, o que era incomum entre “Sempais” e “Kohais”, se despediu e me desejou sorte.
No dia anterior a minha despedida o Prof. Nakayama ligou para a Kyokai e que me comunicassem para que eu fosse após o treino até seu apartamento. Fiquei um pouco apreensivo, mas ao chegar lá me recebeu encantadoramente bem, conversou um pouco comigo e me presenteou com os quatro primeiros volumes, até então publicados, da série “Best Karate”, todos com uma dedicatória e autografo seu. Se despediu e me desejou boa sorte.
No dia seguinte, no último treino no “Shidoin-Gueiko”, me fizeram uma festa de despedida. O treino foi um pouco mais curto, alguns “Kenshuseis” não treinaram, pois preparavam um “Yossenabe” (cozido de carne e legumes). Após o treino, ainda de kimono, comemos no chão do dojo no estilo japonês. O ambiente contrastava com o do dia a dia do treino, todos estavam alegres, tiramos fotos e cada um se despediu de mim, com quase sorrisos. Foi um momento alegre, mas me senti também muito triste em partir...
Um momento ruim:
Quando parti para o Japão planejava ficar fora por 3 anos, mais tarde mudei para ficar 2 anos no “Shidoin-Gueiko” e um ano para dar a volta ao mundo em meu retorno, mais tarde pensei em ficar indefinidamente e depois, influenciado por um amigo australiano, planejei após o campeonato Japonês de 1979, juntar algum dinheiro e dar a volta ao mundo me estabelecer na Austrália. No início de 1979, como acontecera no ano anterior consegui me classificar para a seleção de Tóquio que disputaria o Campeonato Japonês de províncias e também para o individual dos profissionais. Estava melhor preparado do que o ano anterior e acreditava que poderia ter uma boa classificação. Cerca de um mês antes do Campeonato Japonês, infelizmente, o meningioma de minha mãe, que tinha extirpado antes de eu viajar, voltou e eu tive que voltar para ajudar a cuidar dela pois no Brasil éramos somente minha mãe, minha irmã e meu pai que, como executivo de uma multinacional, naquela época, prestava consultoria no Chile retornando somente a cada 3 semanas e permanecendo 3 dias no Brasil.
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Offline Pedro

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #4 Online: Julho 19, 2011, 15:05:10 »
Sensei Carlos Rocha - O que de mais valioso vc aprendeu no Japão? O que de mais valioso vc aprendeu no karatê?
Sensei Ennio - Foi uma experiência de vida incrível e espero tê-la transmitido, mesmo que parcialmente, nesta entrevista.
Em termos técnicos e métodos de treinamento, aprendi muito, sobretudo pela quantidade de “Sempais” no “Shidoin-Gueiko” e cada um com características próprias. Observá-los, treinar e lutar com eles, por si só foi uma pós graduação. A diversidade e o refinamento do treino, somente possível com tal quantidade e qualidade de participantes foi outra.

Sensei Carlos Rocha - A seu ver técnicamente a JKA do Japão ainda é a melhor escola shotokan do mundo?
Sensei Ennio - A meu ver, apesar de suas falhas, política e administração equivocadas, confusas e até desastradas, ainda é uma grande escola, mas não sei se a melhor. Muitos países evoluíram muito, e mantém programas nacionais tanto particulares quanto financiados pelo governo, mas a NKK tem uma forte tradição no ensino e prática do Karate-Do.
O grande diferencial da NKK foi a profissionalização. Iniciada na década de 50, com tempo integral dedicado ao Karate-Do, puderam estudá-lo e aperfeiçoá-lo. Sistematizaram e regulamentaram a conduta, a prática e o ensino, melhoraram as competições e, principalmente, formaram instrutores fortes e capacitados para ensinar o Karate-Do. Outro ponto importante é a valorização do treinamento, a cultura é de que “Karate-Do é para a vida toda”, “se não dá para treinar não da para ensinar”, enfim: pouca conversa e muito treino.
Sensei Carlos Rocha - Podemos criar um karatê brasileiro comparável às melhores escolas japonesas?
Sensei Ennio - Sim, este é o meu objetivo agora. Estou desenvolvendo um projeto que tem o objetivo (e a pretensão) de melhorar o Karate-Do nacional e alcançar um nível de excelência. A parte mais importante dele é preparar instrutores com competência para ministrar a essência do Karate-Do por meio de um “Curso para a Formação de Instrutores” que será ministrado inicialmente por meio da Federação Paulista de Karate (FPK) e terá as seguintes características:
. O objetivo não é ensinar um estilo, é ensinar a ensinar, a estabelecer um método de ensino e treinamento dentro das tradições do próprio estilo;
. Início do 1º. Curso: Agosto/2011;
. Dividido em módulos: 1 Tradição, Didática (Como Ensinar); 2. Kihon; 3. Kumite; 4. Kata; 5: Competição; 6: Exames de Kyus e Dans; 7 Defesa Pessoal; 8 Outros;
. Duração de 12 meses;
. Uma aula por mês, no sábado, com “Aula Teórica e Prática” de manhã e “Treino Intensivo” à tarde;
. Matéria para treinamento no período entre as aulas/treinos;
. Requisitos mínimos: Faixa Preta 1º. Grau, escolaridade 2 grau incompleto, 18 anos;
. Aberto a qualquer estilo ou grupo ou indivíduo  filiados a FPK ou não filiado, inclusive filiados a outras federações e provenientes de qualquer estado;
. Haverá provas e exame final;
Se aprovado o Candidato receberá Cerificado de nível 1 – (total de 4 níveis).
Mais informações poderão ser obtidas a partir de 18/07/2011 na FPK pelo telefone  (11) 3887-6493, (11) 3887-7486, (11) 3887-9880 ou e-mail karatefpk@uol.com.br
A CBK (Confederação Brasileira de Karate) demonstrou grande interesse em aplicá-lo e os trabalhos e negociação já estão em andamento, mas acredito que sua participação será mais de chancelaria e reconhecimento em seu âmbito de atuação.
Apesar de ser uma iniciativa fundamental para melhorarmos a qualidade do Karate-Do nacional, não é suficiente. É necessário manter os instrutores unidos, atualizados, treinados e motivados. Para tanto, até o fim do ano/início do próximo temos a intenção de criar:
1. “Treino de Instrutores” permanente com periodicidade mensal e posteriormente...
2. ...um “Shidoin Kai” (Associação de Instrutores) com o objetivo de:
2.1. Atualizações técnicas e comportamentais (ética, moral e auto-aperfeiçoamento);
2.2. Treino mensal intensivo incutindo a mentalidade do “se não da para treinar, não da para ensinar” e “Karate-Do é para a vida toda”;
2.3. Troca de conhecimento e experiências entre Instrutores;
2.4. Disponibilizar o conhecimento gerado para alunos e demais praticantes;
2.5. Gashukus, Cursos e eventos relacionados com o ensino e prática do Karate-Do.
Também devemos desvincular a prática do Karate-Do da política. Apesar desta última ser inerente e também necessária ao ser humano, ela não pode atrapalhar ou desmotivar o ensino e prática do Karate-Do.
Assim, mesmo que possam funcionar dentro ou patrocinado por alguma federação ou confederação, tanto o “Treino de Instrutores” quanto o “Shidoin Kai” se dedicará exclusivamente ao estudo, ensino e PRINCIPALMENTE A PRÁTICA do Karate-Do e deverá ser desprovido de qualquer interesse ou influência política destas e/ou de outros indivíduos e/ou grupos políticos.
Carlão, sei que o projeto é ambicioso, mas, no meu entender precisa ser feito, e espero a tua participação e ajuda bem como de todo e qualquer Karateka sério deste pais, independente de, como já disse, federação, estilo ou grupo.
Sensei Carlos Rocha - De que forma vc acha que ainda pode contribuir para o karatê brasileiro. Quais seus planos para isso?
Sensei Ennio - Estou ministrando Cursos e Aulas, a quem se interessar, sobre os variados temas dentro do Karate-Do, mas o meu projeto principal é o exposto na pergunta anterior.
Quanto ao “Curso de Instrutores”, primeiro curso foi adotado pela FPK, que o promoverá todos os anos, mas quaisquer, federações e confederações, estilo ou grupos poderão solicitá-lo. Duas ou mais federações ou grupos de estados próximos poderão, por meio de sua Confederação ou não, se unir em um “pool” e se cotizarem para contratar o curso em local conveniente e próximo a todos dividindo e minimizando custos. Neste caso o curso poderá ser reduzido em sua duração para 6 meses, mas não na carga horária, optando-se pelas Aulas/Treinos uma vez por mês ministrados aos sábados e domingos. Mais informações poderão ser obtidas pelo e-mail evezzuli@gmail.com.
Sensei Carlos Rocha - Ennio, vou parar de te encher o saco. Tenho a felicidade de poder fazer perguntas à vc todos os dias e ainda treinarmos juntos.
Sensei Ennio - Eu é que tenho a felicidade de ter um amigo (para trocar confidências) e karateka hábil e sério (para trocar figurinhas) como você.

Sensei Carlos Rocha - Abração do seu amigo e kohai,

Carlão

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Offline Pedro

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #5 Online: Julho 19, 2011, 15:05:43 »
Sensei Pedro Campana Netto - Como era o Treino de Instrutores no Brasil?

Sensei Ennio - O Prof. Okuda como único Instrutor formado da NKK e responsável pela mesma (NKK) no Brasil, instituiu o treino de Instrutores da NKK no Brasil em 1973. Os convocados, 8 ou 9 no total, fizeram uma seletiva em um sábado. Iniciou-se ‘as 9:00 e foi até o fim da tarde, cerca das 17:00. A seletiva ou exame de capacitação constituiu-se de entrevista, conhecimentos de karate e... Jiu-Kumite, não me lembro quantas lutas foram ao todo, mas parecia que nunca iria acabar.
Na verdade não foi uma seletiva, pois todos já eram karate-kas de destaque, foi mais uma iniciação, uma demonstração do que estava por vir.
Todos foram aprovados.
Curso foi do tipo “pouca conversa e muita ação (treino)” e iniciou-se na semana seguinte. Basicamente o treino consistia em:
1.   Treino diário (segunda a sexta) na parte da manhã das 10:00 h ‘as 12:00 h ou mais;
2.   Aprender a ensinar (didática): Acompanhar o Prof. Okuda nos treinos para o público (aulas normais) ‘a tarde e a noite, ajudando a dar aulas aos alunos novos e dar aulas para grupos ou entidades. Quando não havia “novos” ou havia muitos kenshuseis, alguns de nos treinava, quando os outros ajudavam no treino (geralmente empurrávamos a “bomba” para os Kohais e os mais “Sempais” treinavam);
3.   Treinamento de Árbitros realizado em treinos próprios para tal fim e participação como árbitros em campeonatos em categorias em que não participávamos;
4.   Treinamento como examinadores de kyus nos próprios exames. Primeiro como auxiliares e depois como examinadores;
5.   Organizar e realizar campeonatos desde o planejamento e execução ao pós-campeonato o que consistia em tarefas tais com tratando de confecção de chaves, fazer a revista do campeonato, cartazes, enviar convites, compra de troféus, demarcar o koto de competição, conseguir patrocínios, treinar, competir, ser árbitros das categorias nas quais não participávamos, pagar as contas, etc...
O horário do treino era inconveniente e o treino era exaustivo o que conflitava com o horário das atividades de muitos Kenshuseis que estudavam e/ou trabalhavam. Por conta disso, eu mesmo tive abandonar a Faculdade de Engenharia para poder continuar treinando. Após alguns meses, restaram apenas o Ricardo D´Elia, o Gomes, eu e o Pedro Okuyama que vinha de Ribeirão Preto nas segundas-feiras.
Alguns meses depois vieram da Bahia o Djalma Caribe e o Júlio Gusmões que retornaram ‘a Bahia alguns meses depois.
Mais tarde o Carlão (Carlos Aberto Galvão Rocha) começou a se destacar e foi convidado a participar.
Aproveitando a vinda do Prof. Isaka, “Shidoin” da NKK em Tóquio, o Prof. Okuda antecipou o exame e fizemos o exame que consistia  inclusive de apresentação de uma tese. Em 13/07/1974 os 4 candidatos remanescentes originais (iniciais) que se fizeram exame — Ricardo D´Elia, Gomes, Pedro Okuyama e eu — foram promovidos a Instrutores da NKK no Brasil.
O treino continuou até 1977 quando foi reduzido a somente duas vezes por semana até que, mais tarde, por falta de candidatos, acredito eu, foi extinto.
Em junho de 1977 fui estagiar no “Shidoin–Gueiko” da Matriz da NKK em Tóquio onde permaneci até maio de 1979.

Sensei Pedro Campana Netto - Ennio, quando você se desligou do Sensei Okuda, passou a comandar a Associação Augusta de Karate. Fale um pouco sobre ela, desde a Augusta até a R. José Maria Whitacker.

Sensei Ennio - Já no Japão planejara não viver do Karate-Do. Já tinha realizado meu sonho. Pensava em continuar a treinar desenvolvendo o que aprendera e ajudar o Prof. Okuda a dar aulas. Mas as coisas não deram certo.
Por volta de julho de 1979 o Prof. Castanho, dono da Ass. Augusta de Karate, me cedeu um horário para que eu treinasse com uns poucos alunos da época pré Japão. Era só um treino, mas na Augusta havia muitos horários e vários professores. Alguns alunos souberam do treino e me procuraram pedindo para participar. Após o consentimento de seus professores permiti que treinassem. Cerca de um ano depois o Prof. Castanho, que era dono de um dos maiores escritórios de engenharia do Brasil, o Escritório Figueiredo Ferraz, por motivos profissionais se afastou da Augusta deixando-a a meus cuidados. Em seguida, por razões econômicas, como você sabe, pois já estava treinando comigo e ajudou na montagem da nova academia, mudamos para a R José Maria Whitacker.

Sensei Pedro Campana Netto - Fale também do “Curso de Profissionais para Amadores” que fazíamos lá e o seu resultado.

Sensei Ennio - O treino que se iniciará sem pretensões só para que eu e meus alunos nos mantivéssemos treinando. Posteriormente com a adesão de alguns poucos alunos de outros professores da Augusta começou a ganhar vulto. Após cerca de 2 meses tinha mos cerca de 20 praticantes e até alguns professores aderiram ao treino..
Ante o entusiasmo dos participantes decidi transformá-lo em um treino diário e passou a ser realizado das 12:00 ‘as 13:30, aproveitando o horário de almoço dos alunos cuja maioria trabalhavam na região da Paulista, outros, como você, vinham de mais longe. Era, como você disse, um “Treino Profissional para Amadores”, pois eles treinavam muito, mas não viviam do Karate.
Naquele ano aquela turma ganhou o Campeonato de Paulista de Novos e também ganhou em quase todas as categorias do primeiro campeonato por categorias de pesos realizadas no estado de São Paulo.
No ano seguinte aquela turma participou no Campeonato Paulista com três equipe (Augusta, Ipê e Paulistano) e ganhou o 1 º e 3º colocados em “Shia-Kumite” e 1º e 2º lugar em “Kata”. Naquele mesmo ano o “Tigrão”, que treinava no “Treino Profissional para Amadores” foi Campeão Brasileiro.
O pessoal continuou a ganhar campeonatos, mas em 1981 eu decidi que nos afastaríamos dos campeonatos para que eu pudesse ensinar e treinar o que considero o “Karate-Do” (mais que competição).
Como você sabe a Augusta não tinha fins lucrativos, e todo o dinheiro ia para a poupança, mas a década de 90 foi muito difícil economicamente falando. Tivemos o seqüestro da popança no Plano Color, Plano Real, etc... As dificuldades também atingiram a Meikyo e tive que me dedicar mais a ela. O treino do meio dia continuava (era gratuito), mas eu não podia dar mais que uma aula à noite e, é claro, a arrecadação não era suficiente para pagar as despesas. Em 1994 começamos a “invadir” o dinheiro da nossa poupança até que acabou. Banquei por mais alguns meses e em 1996 fechei a Augusta.
Continuei a treinar sozinho na Meikyo, onde tinha um bom espaço e de vez em quando alguns ex-alunos e amigos, como você, vinham treinar comigo.

Sensei Pedro Campana Netto - Sabemos que temos no Karate-Do uma luta arte para a vida toda. Assim sendo, os “ Karatekas” da “Velha Guarda” que ainda treinam, acrescentam o que para a Arte como também para eles?

Sensei Ennio - Sim, é para a vida toda! Para nós da “Velha Guarda” acrescenta o que sempre acrescentou: os benefícios da saúde física e mental além de, ensinando, cumprir a maior missão: estender estes benefícios ‘as outras pessoas, ajudando-as a se tornarem melhores.
No meu entender nos devemos nos ser os guardiões do “Karate-Do”. É nossa responsabilidade, em primeiro lugar treinar para preservar a essência do “Karate-Do” e em segundo, ensiná-lo corretamente para as novas gerações, não permitindo que se distorça, conforme citei ao longo da entrevista.

Sensei Pedro Campana Netto - Para nós da Mushin é uma honra tê-lo conosco. Como você sente e vê nosso desenvolvimento e nossa conduta?

Sensei Ennio - Eu é que agradeço a acolhida. O Carlão, com a tua ajuda, não faz nada diferente do que sabe e sempre fez: praticar e ensinar um “Karate-Do” de primeira linha, tradicional no que ele (o “Karate-do”) tem de bom e ao mesmo tempo se preocupa com a inovação.
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Sensei Ennio

- Caro Pedro
A demora em responder deve-se aos fatos terem ocorrido há muitos anos. Tive que buscá-los no fundo da memória, muitas coisas nunca tinha contado para ninguém. Tive que consultar anotações e fotos da época.
Foi uma oportunidade de rever o passado, de refletir e reavaliar a experiência e a minha trajetória no Karate-Do. Me diverti muito e espero que a memória não me tenha traído.
No que tange a expressão de meus pensamentos sobre o Karate-Do e outros assuntos, embora convicto de minhas afirmações, em momento algum tenho a intenção de ser o dono da verdade, são somente a minha opinião
Agradeço a oportunidade.
Um abraço e Oss!
São Paulo, 10 de julho de 2011

Ennio Vezzuli
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Pedro:

Em nome de todos os amigos do Karateka.net agradeço a tua disposição de contar um pouco da história do karate no Brasil da qual você é partícipe e espero convicto que a reunião de Amigos da “Velha Guarda” que hoje temos novamente, perdure por muitos anos.

Pedro Campana Netto

OSS
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Offline Cirilo

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #6 Online: Julho 19, 2011, 17:16:17 »
Muito obrigado Pedro sensei por nós presentear com essa importante entrevista com o sensei Ennio, parabéns sensei pela sua persistência e dedicação ao verdadeiro Karate-do. Espero em breve que o sr. possa vim para o nordeste ministrar algum curso.

Oss!!!

Offline KATASHOTOKAN

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #7 Online: Julho 19, 2011, 17:44:39 »
Muito obrigado, ao Pedro Sensei pela iniciativa,Muitissimo obrigado ao Ennio Sensei, por essa brilhante entrevista, onde de forma democratica todos participaram, parabéns pela dedicação, educação, humildade, e respeito, contidas em cada resposta, em resumo PARABÉNS.

OSS!
“O propósito supremo do KARATE-DO não está contido na vitória, nem na derrota de adversários, mas, no aprimoramento do caráter, da personalidade e da honra de seus praticantes."

Offline GUICOMES

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #8 Online: Julho 19, 2011, 17:55:25 »
Gostei, dei uma olhada e vou ler a noite. Não ficou aquela coisa burocrática, muito boa... Parabéns a todos, e obrigado.
Treine o que funciona, descarte o que não funciona ou é menos prático. Quem treina igual aos outros tende a ser como o resto.
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Offline Gustavo-RJ

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #9 Online: Julho 19, 2011, 20:32:42 »
Sensei Ennio, Sensei Pedro, obrigado pela oportunidade unica de vivenciarmos essa experiencia de beber na fonte.

Sucesso no Curso e que um dia alguém, que o fará, descreva-o com tanto entusiasmo como o senhor fez em relação ao Japão.
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Gustavo-RJ

Offline GEM

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #10 Online: Julho 19, 2011, 23:29:44 »
Entrevista muito boa. Gostei muito. Obrigado sensei Ennio por compartilhar suas experiências conosco.
OSS.
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Offline Bodhi

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #11 Online: Julho 20, 2011, 08:03:41 »
Obrigado sensei Ennio pela oportunidade de compartilhar de suas vivências e percepções.

Obrigado sensei Pedro pelo empenho.

Oss!
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Offline Shaolin do Norte

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #12 Online: Julho 20, 2011, 11:41:04 »
Fantástica a vivência e a experiência do Sensei. Fico feliz que ainda temos o privilégio de acharmos (poucos) mestres como ele que (importantíssimo!) ainda estão dispostos a disseminarem seus vastos conhecimentos à aqueles que tem interesse em aprender.

Ennio Sensei, OSS !

PS: O Sr deveria escrever um livro. Seria Best Seller!
      Gustavo

Offline pmax

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #13 Online: Julho 20, 2011, 11:43:29 »
Ao Ennio Vezzuli,

Infelizmente não tive ainda a oportunidade de treinar e conhece-lo, obrigado por compartilhar suas experiências ....

Ao Pedrão,

Arrebentou !!! palavras são poucas para descrever seu amor e dedicação a esta grande e maltratada arte.

OSS  :D

Offline DElia

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Re:Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli (Parte I)
« Resposta #14 Online: Julho 20, 2011, 11:58:52 »
Ennio,
apesar de nossa convivência e amizade de muitos anos li coisas muito interessantes que eu desconhecia.
Você continua com uma visão clara dos fatos.
Parabéns pela entrevista, perguntas e respostas muito bem colocadas!
Um grande abraço
Oss.
Ricardo