Autor Tópico: Karate Do ou… Karate Jutsu?  (Lida 1495 vezes)

kanizawa

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Karate Do ou… Karate Jutsu?
« Online: Maio 30, 2011, 12:45:03 »
Karate Do ou… Karate Jutsu?
Dezembro 30, 2008 in Artigos, Karate geral | Tags: do, jutsu, Karate, kempo, Okinawa




O que me leva a escrever este artigo emana de uma preocupação sobre o actual panorama do karate internacional. Esta é provavelmente a arte marcial mais praticada no mundo e teve nos poucos anos da sua existência, contando apenas com a actual denominação, uma expansão extraordinária e verdadeiramente notável.

Esta arte terrivelmente eficaz transformou-se num “desporto marcial” acessível a todos e podendo ser praticados por todas as classes sociais e condições físicas. Essa massificação teve historicamente dois pontos fulcrais. Um aquando da sua dispersão pelas escolas públicas de Okinawa por volta de 1901 tendo como grande interveniente o Mestre Anko Itosu (1832-1915) e outro por volta de 1920 em que a arte foi difundida por todo o Japão pela mão dos pratiarcas dos diferentes estilos actuais.

Uma pergunta fica no ar. Como é que uma arte de reconhecida eficácia marcial e com golpes letais se torna numa arte praticável por crianças?! A resposta é simples, retirando e atenuando as técnicas perigosas. Foi o que aconteceu ao antigo Te de Okinawa quando foi introduzido em escolas e universidades. A actual denominação têm na sua essência essa nova tendência, a mudança de antigos nomes como tode jutsu, Okinawa kempo jutsu ou simplesmente te, para karate do – a via da mão vazia, alerta para a necessidade de crescimento espiritual e físico num “desporto” que pode ser praticado por todos, quebrando com as designações associadas ao kempo Chinês.

Esta mudança teve um custo marcial, à qual muitos mestres não ficaram alheios levando a vários alertas sobre o perigo que esta acarretava, conduzindo a que a abordagem virada para a pura eficácia tenha sido alterada para componentes de treino mais seguros desvirtuando, de certa forma, a sua essência.

A parte Do incute no praticante a importância do crescimento espiritual a par do desenvolvimento físico e do culto da moral e dos valores. Apesar de ser louvável e de extrema importância, uma arte marcial não se pode definir apenas por este caminho. Se o treino não for sentido e a eficácia acurada estaremos num caminho ilusório que não conduzirá ao nosso verdadeiro crescimento como seres humanos e praticantes de artes marciais.

A competição surge no karate do após a sua dispersão pelo Japão. O karate universitário foi a grande chama para o crescimento do karate competitivo. As primeiras competições, mais brutais que as dos nossos dias, chamaram a ribalta muitos nomes de vulto do karate actual, alguns deles em declarada ruptura com os antigos mestres. Pontapés altos, rotativos e mais umas quantas técnicas eram suficientes para deixar plateias em êxtase ao ver a rapidez e determinação dos golpes.

Este apógeu bem como a introdução de conceitos de desporto moderno tornaram o karate actual num sucedâneo do antigo kempo de Okinawa. A forte presença do Judo como arte marcial no Japão levou também a que o karate perde-se grande parte das técnicas de projecção, luxações, estrangulamentos, etc.

O karate dos nossos dias tem nitidamente um défice de budo e de eficácia, apesar de termos praticantes brilhantes e exímios lutadores. Mas quando falamos de arte marcial tem de haver algo mais que isso. Reparem que a maior parte das aplicações dos kata que fazemos são contra murros directos ao peito ou cara a partir de uma distância confortável que muito pouco põe em causa a nossa integridade, mesmo que o adversário seja muito rápido. Para muitas das técnicas dos kata não se conhece aplicação e outras nem sequer aplicamos quando lutamos nos nossos dojos em kumite livre. Se não as utilizamos para que servem? Muitos de nós treinam técnicas que não tem aplicação em combate real. Pura e simplesmente não tem. Isto é um facto histórico, tal como referi anteriormente, consequência da introdução do karate para as crianças de Okinawa e na sua disseminação para o grande Japão.

O karate convida a reflexão e à interrogação, por isso devemo-nos perguntar qual o intuito do nosso treino, qual o fio condutor. Aprender de “empreitada” 40 kata não dará mestria marcial a ninguém. Cada kata é um mundo com um infindável repertório de técnicas que nos permitem “sair” de qualquer situação desfavorável. É esse o sentido marcial do karate que se perdeu com o tempo. Antigamente muitas escolas apenas tinham um ou dois para o seu treino.

As actuais directivas de treino, transversais a todos os estilos e associações, causam em alguns praticantes a necessidade de ir beber a outras artes o que à muito se perdeu. Alguns lhes chamarão dissidentes ou que desvirtuaram o seu karate, que não conseguiram percorrer o exigente caminho. Eu chamo-lhes visionários que perceberam as lacunas do seu treino e percorreram o seu próprio caminho, o seu Do.

Atendendo a tudo isto entendo que no meu caminho, no meu Do, prefiro caminhar para o karate jutsu. Aquele que à muito se perdeu e que alguns praticantes procuram reviver sobre pena de se perder para sempre. É difícil quebrar com as barreiras dos 3 ou 4 katas para exame, as aplicações para “crianças”, etc., mas quantas vezes na vida não temos de fazer um “reset” e iniciar tudo de novo?!

Acho de extrema importância esta consciência  que a nossa arte actual é o produto de uma minimização de conteúdo e de uma massificação. Estamos virados para indicadores de grupo, para números, para curvas de evolução. Tudo isso é importante mas é igualmente importante ensinar aos nossos alunos que uma simples técnica pode significar uma variedade de aplicações e que ele tem um papel activo na sua interpretação.

Lanço o desafio à comunidade karateca para dar a sua opinião sobre este tema. Penso que seria de extrema importância, atendendo ao actual panorama, a criação de grupos de estudo sobre o kempo tradicional de Okinawa, vulgo karate jutsu, cuja incomensurável riqueza esta em risco de se perder para os anais da história.

Não sou defensor do antigo mas sim da modernidade de uma arte que não pode perder as suas raízes. O karate está  e estará em constante evolução e cada um de nós, apesar de “milhentos”, tem um papel muito importante e seremos sempre poucos quando além de um técnica quisermos mudar uma mentalidade…

Mário Magalhães



ARTIGO RETIRADO
http://kunshinoken.wordpress.com/2008/12/30/karate-do-ou-karate-jutsu/




Offline J.Lezon

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Re:Karate Do ou… Karate Jutsu?
« Resposta #1 Online: Junho 02, 2011, 07:21:23 »
Caro Kanizawa,

Não sei se o deva tratar assim e/ou por Mario. Seja como for, venho somente dizer-lhe que estou em total sintonia com o artigo. Não me vou alongar a dissecar o assunto, apenas e só quero perguntar-lhe se é conhecedor da essência do Karate Wado-Ryu.

O que pretendo dizer, acredite, vai no sentido de o informar que no Wado, privilegiamos as
técnicas de projecção, luxações, estrangulamentos, etc. Como deve saber, o criador do estilo Wado-Ryu, era perito em Shindo Yoshin Ryu Jujutsu, pelo que depois de aprender o Karate sob a orientação de Funakoshi Sensei, onde chegou a instrutor chefe, resolveu criar o seu próprio estilo, e assim nasceu o Wado-Ryu.

Ao fazê-lo, teve a excelente ideia e preocupação de trazer várias técnicas do Shindo Yoshin-Ryu Jujutsu, que ele achou por bem introduzir no estilo. Em boa hora o fez porque elas enriqueceram  o manancial técnico do Wado-Ryu. Apenas e só para conhecimento ligeiro, e com os seus nomes tecnicos, o Wado possui no seu manancial Yokusokus Kumites, criados por Ohtsuka Sensei, ainda no tempo de Funakoshi Sensei, Idoris, Tanto Doris e Tachidori, etc.

Como lhe disse não vou aqui dissecar com nomes todas as técnicas que existe no Wado relativamente a chaves de braços, projecções, etc. Aliás, elas constam aqui no Karateca Net numa entrevista que dei em 2008.

Resumindo e concluindo, eu concordo com o artigo e foi no Wado que encontrei a essência do que eu precisava.

Saudações. Hai!!!

Jose Lezon
 

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Offline PSekiMG

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Re:Karate Do ou… Karate Jutsu?
« Resposta #2 Online: Junho 02, 2011, 11:04:57 »
Oss,

Primeiramente,
é impressão minha ou o Sensei Lezon regressou ao fórum?

De todo modo,
é grande honra contar com vossa presença novamente,
Sensei J. Lezon!

Oss.
A força física sem respeito nada mais é que força bruta, e para os seres humanos não tem nenhum valor ― Shoto.

Offline J.Lezon

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Re:Karate Do ou… Karate Jutsu?
« Resposta #3 Online: Junho 02, 2011, 13:20:09 »
Caríssimo PSekiMG,

É verdade que regressei ao fórum. Talvez seja melhor eu criar um tópico só para anunciar aos meus amigos a minha presença novamente por aqui.

Muito obrigado pela consideração, mas eu também rejubilo com as boas amizades que por aqui angariei, pelo que também me sinto honrado por isso mesmo.

Espero que o fórum esteja mais "fresco" e mais limpo daquelas conversas menos próprias...
Haja respeito entre todos e demos azo aos conhecimentos que cada um de nós tem e partilhando-os com todos. 

Um abraço

Hai!  Oss!
José Lezon
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Offline samurai

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Re:Karate Do ou… Karate Jutsu?
« Resposta #4 Online: Junho 02, 2011, 13:24:49 »
Sensei Lezon

Otimo retorno


OSS

kanizawa

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Re:Karate Do ou… Karate Jutsu?
« Resposta #5 Online: Junho 02, 2011, 17:59:06 »
Olá Sensei,


Na verdade não conheço esse estilo.
Treinei Karatê quando criança e infelizmente acabei me afastanto praticando por muito tempo outra arte-marcial. Tenho muita vontade de voltar a treinar Karatê.
Atualmente resido em Goiânia-GO e infelizmente não encontro academias que preservam realmente a grande variedade de recursos e técnicas que o Karatê possui. Geralmente as academias são voltadas para regras de competição e não há nem mesmo muita preparação física para isso. Esse tipo de situação não me atrai para o treinamento, visto que gostaria de aprender Karatê e não apenas um desporto qualquer composto por soco reto e chute lateral que as vezes é utilizado.
Vi uma matéria sobre o Karatê Jutsu, que ainda preserva as técnicas originais do Karatê e certamente é extremamente eficiente.
Creio que uma pessoa que chegue a conquistar uma certa graduação como marron ou preta, seja qual for a arte-marcial deve estar preparado para lutar contra qualquer praticante de outra marcial, mesmo que isso nunca ocorra.

Sobre o estilo Wado Ryu deve ser muito interessante e tenho interesse de aprende-lo. O senhor conhece algum Sensei em Goiânia? Nos próximos 6 meses mudarei para Valinhos-SP lá existe algum representante também?


Obrigado! Abraço
Fique com Deus!
Fernando