Autor Tópico: sobre os motivos: ou sobre quem procura o karatê  (Lida 1268 vezes)

Offline retsudo tanaka

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sobre os motivos: ou sobre quem procura o karatê
« Online: Fevereiro 21, 2008, 17:31:22 »
Sobre os motivos: ou sobre quem procura o karatê

Via de regra, duas questões aparecem nas diversas discussões do fórum: Uma é a escassez de alunos novos no karatê, e; a validade, ou não, do aspecto esportivo na nossa arte marcial.
Sem a menor intenção de querer dar ares definitivos a discussão, gostaria de deixar aqui minha opinião.

Considero que há quatro principais motivadores que trazem novos (inéditos) e jovens adeptos a uma arte marcial. E é importante lembrar que ao longo do tempo de treinamento, o motivo que impulsiona um praticante a iniciar uma arte pode perder importância, aflorando outras motivações que o fazem continuar na sua trajetória de treino e aperfeiçoamento.

Um dos motivos é a capacidade, efetiva ou suposta, de eficiência da arte marcial. Muitos, jovens ou adultos, entram no karatê, judô, MT, boxe, JJ, entre outras artes, com o objetivo de aprender a se defender fisicamente. Ou, em alguns casos, aprender a agredir.  Posso estar enganado, mas em relação ao karatê, o auge da procura da arte para esses fins se deu nos anos 70 e 80. Muito sob a influência de filmes de artes marciais.

Outro motivo é o aspecto pedagógico das artes marciais. Sobretudo as japonesas. É comum ver pais colocarem seus filhos, principalmente no karatê e judô, tendo como motivação a possibilidade de absorção, por parte do filho, de valores morais que os responsáveis julgam importantes para formação do caráter. Geralmente os filhos não estão cientes da motivação dos pais ou da contribuição moral que arte lhes proporcionará. Ainda assim, motivados por outros fatores iniciam e dão continuidade ao treinamento.

O terceiro motivo é o estritamente esportivo. É comum hoje em dia a garotada entrar no judô e no karatê motivados exclusivamente pelo aspecto esportivo da modalidade. Eles querem participar de campeonatos. Serem como Tiago Camilo ou sei lá mais quem. Não importa, ou ao menos fica em segundo plano, aspectos morais e de defesa pessoal na arte marcial escolhida. 

O quarto motivo está relacionado a uma visão limitada que vê as artes marciais como um instrumento para manutenção do porte físico. Neste caso, o karatê é visto como uma ginástica que ajudará o sujeito a manter a forma.

Pois bem. Independente da motivação que impulsiona a entrada de um novo adepto, o número de desistência é muito alto. Sem exagero, acho que para cada 15 pessoas que começam a treinar, apenas um fica por mais de 3 anos contínuos treinado.

Hoje em dia quando um jovem escolhe uma arte marcial com o objetivo de se defender, o karatê não figura como uma das primeiras opções. JJ e MT parecem a eles, devido os aspectos de treinamento e midiáticos, mais capazes de lhe proporcionar ferramentas adequadas diante de situações limites. 

Entre os que entram no Karatê buscando aprender a se defender, o índice de desistência também é muito alto. Assim como os que entram na nossa arte pelos outros três motivos. Entretanto, ainda considerando alto número de desistência, tenho a impressão que cada vez mais, aqueles que procuram e permanecem no karatê estão envolvidos pela motivação competitiva. Jovens de 13, 14 15 anos estão querendo treinar shiai. Querem saber do calendário de competição, não querem treinar kihon nem kata.

Essa escolha é vista pela maioria de nós aqui do fórum como um erro grave. O que tendo a concordar em parte com vocês, colegas.  Todavia, ao contrário da maioria aqui do fórum, tenho a impressão que o quadro não é tão ruim como parece.

Acho que independente da motivação inicial que traz um aluno ao treino, independente de qual o motivo o faz continuar treinando nos primeiros anos de sua trajetória, o importante é que ele inicie e não interrompa o treinamento.  Ainda que o jovem esteja interessado no aspecto competitivo do karatê durante, por exemplo, 5 ou 10 anos, sabemos todos que a competição não é para sempre. Com os anos, o esportista pode perceber o potencial formador de caráter e filosófico do karatê. Da mesma forma, pode se interessar pelo grande potencial  de defesa pessoal do karatê. O que quero dizer é que o motivo que o impulsiona a iniciar o treinamento se modifica com o tempo. Ele se transforma, amadurece, percebe a beleza e a efetividade de um chute forte nas costelas de um adversário. Percebe como o kihon modela não só a técnica, mais o corpo e o espírito.

A desistência é alta independente da motivação que traz novos alunos. Dessa forma é importante para o sensei perceber o que motiva o aluno e, sobretudo, mostrar de forma inteligente, compreensiva e inspirada todas as possibilidades que o karatê e o judô podem oferecer. Mostrar ao aluno que ele não precisa só se dedicar a um dos aspectos, que o karatê é multifacetário, rico em possibilidades. De fato, se você quer manter a forma, o karatê pode te ajudar; do mesmo modo, se você quer ser alguém capaz de se defender com eficiência, o karatê é uma excelente escolha; Se você quer ser um campeão, existe essa possibilidade; se é o aspecto filosófico que o motiva, também o karatê é uma excelente opção. Mas, sobretudo, o aluno tem que saber que ele pode explorar todos os aspectos de forma simultânea.

Que venham mais iniciantes no karatê. Seja lá qual for a motivação. E que os senseis saibam motivar a expansão dos horizontes de seus alunos.

Offline yama

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Re: sobre os motivos: ou sobre quem procura o karatê
« Resposta #1 Online: Fevereiro 24, 2008, 02:00:17 »
Oss

excelente linha de pensamento Retsudo,só discordo do número de praticantes ficante após um ano,se voce conseguir por normalmente em escolas 10 crianças de + ou - 5 a 6 anos  no ano seguinte se voce se esforçar muito 6 continuam,se for em idades superiores a proporção de 20 para 1 que fica pois alguns querem competir e ao ver as regras uns desistem outros por se contudirem os pais se apavoram e não incentivam mais,se é que incentivaram,ao meu ver alguns pais só querem que os filhos não os encham o saco por alguns minutos e o Prof. que de um jeito,e não os aperte muito senão dizem que é pressão psicológica.

Mas que venham mais e veremos o que sai doa peneira,muitas surpresas aparecem :D e nos fazem ganhar o ano e até a vida, pois todos os que temos conseguido levar a shodan tem se formado e estão muito bem e são excelentes cidadãos, esse é o nosso melhor resultado,as medalhas enferrujam o princípio não....

Oss
alberto/Santos.
yama-Alberto S. Almeida

Offline Troyman

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Re: sobre os motivos: ou sobre quem procura o karatê
« Resposta #2 Online: Fevereiro 24, 2008, 14:06:57 »
Parabéns ao Retsudo Tanaka pelo excelente post!

Embora as estatíscas colocadas possam não estar corretas, os números reais talvez não sejam muito diferentes.  Os 4 motivos apresentados são bem mostrados:

1) eficiência da modalidade
2) formação de caráter
3) competição esportiva
4) manutenção da forma física

Com relação à eficiência da modalidade, acredito que depende em grande parte da capacidade de entendimento e da aptidão física baseada no biotipo do praticante.  Nós karate-kas sabemos das potencialidades da nossa arte enquanto método de defesa pessoal.  Se as técnicas forem corretamente aprendidas a modalidade disponibiliza recursos mais que suficientes para enfrentamento de qualquer tipo de situação.  Algumas pessoas podem dominar algumas técnicas melhor que outras, mas sempre vai haver uma possibilidade de aplicar aquela técnica que o praticante acredita ser a mais apropriada para cada caso, desde, é claro, que ele esteja fisica e psicologicamente preparado para levar a cabo o seu desempenho.  Por outro lado, em situações de conflito, normalmente os agressores não são praticantes de verdadeiras artes marciais, caso contrário não estariam agredindo, e, mesmo que tenham alguma noção de luta, acho que, sem o verdadeiro espírito de Budo, vai acabar cometendo um erro e, se estiver enfrentando um verdadeiro Budo-ka, não vai ter a menor chance.

Como formador de caráter, o Karate-Do é um excelente instrumento.  Contudo, esta faceta dependerá em grande parte do professor, pois este deverá estar apto a transmitir os conceitos do Budo aos seus alunos.  Didática é primordial.  Como diz o ditado, "é de pequenino que se torce o pepino".  Neste mister, o Judo tem se mostrado um excelente exemplo, haja visto o sucesso que a modalidade vem tendo ao longo de décadas na educação de crianças desde tenra idade.  Quem não conhece uma família que não tenha colocado os filhos de 4, 5 ou 6 anos numa escolinha de Judo?  Em parte pelo aspecto mais defensivo do Judo, a modalidade se presta muito bem para prática de crianças que tendem a se machucar muito menos, o que pode não acontecer com o Karate-Do, que é uma modalidade mais voltada para o ataque, ainda que nós, karate-kas, consideremos que a melhor defesa seja o ataque, o que pode dar a falsa impressão de que a criança pode se machucar com maior frequência.  Mais uma vez, o professor tem que ter a capacidade de dirigir os treinos com o devido cuidado para que as técnicas de defesa ou de contra-ataque sejam aprendidas sem que as crianças saiam contundidas, afinal, se o filho chega em casa machucado toda vez que volta da academia, os pais vão começar a questionar o ensino e a tendência é tirá-lo do Karate-Do.  Uma vez bem administradas as técnicas, cabe ao professor ensinar os valores morais do Budo, incutindo nos alunos os conceitos de respeito, sociabilidade, amizade e responsabilidade, afinal este, acredito, é o principal motivo que leva um pai a colocar o filho numa academia.  Na minha opinião, o aluno precisa aprender a conviver com o próximo (e isso nos remete ao próximo motivo, a questão esportiva) e com suas próprias limitações.  Quando se lida com crianças, não podemos nos esquecer de que elas não são soldados, mas apenas seres humanos que precisam ter um em certo desprendimento e é aí que entra novamente o professor que precisa saber identificar quando um bom momento de descontração pode quebrar a rigidez do treinamento, realizando jogos lúdicos para propiciar um certo relaxamento sem tirar o interesse dos alunos.

A questão esportiva tem dois aspectos que devem ser levados em consideração.  O primeiro deles é o educacional, que acredito ser imprescindível, principalmente para os alunos infantis e pré-adolescentes.  O principal elemento educador do esporte é ensinar ao praticante que o importante é participar e não vencer.  Vencer é bom, mas mais que tudo é preciso saber perder.  Um bom professor sabe mostrar ao aluno que perder com dignidade é vencer a si próprio e é aí que reside o bom aspecto da questão esportiva.  O aluno que entende que vencer é apenas uma consequencia e não um fim, torna-se um sério candidato à continuidade na modalidade.  O segundo aspecto diz respeito à questão marcial da modalidade.  Os alunos que só se interessam por competição deixam de lado a questão marcial e, por tabela, a essência do Karate-Do se perde e a modalidade se torna um pão sem miolo, o que leva o praticante a perder o interesse quando percebe que não consegue mais vencer.  São poucos os que se voltam para as outras facetas do Karate-Do depois que percebem que não têm mais chances de sobressair nas competições, e aqueles que depois das derrotas redescobrem a arte marcial tornam-se grandes Budo-kas.  Os campeões, quando não se deixam levar pela fama, têm naturalmente uma melhor tendência de se voltarem para a questão marcial, mas muitas vezes acabam descobrindo que o Karate que praticam precisa de novo enfoque, é quase como que um re-início e o re-aprendizado é ainda mais prazeiroso.  É óbvio que existem excessões, mas essas são muito poucas.

Entrar em uma academia de Karate-Do para apenas melhorar a forma física, sem se importar com a prática da arte marcial em si, é perder tempo e dinheiro.  Se o aluno está apenas interessado em melhorar o desempenho físico ele deve procurar uma academia especializada onde o seu tempo e o seu dinheiro serão bem melhor investidos.  Lá existem profissionais dedicados apenas aos aspectos nos quais está interessado e os resultados, com certeza, serão muito mais gratificantes.  A ginástica praticada numa academia de Karate-Do é específica para a prática da arte marcial, onde aspectos tais como resistência a impactos, capacitação muscular e alongamento para execução dos golpes e defesas e preparação da capacidade aeróbica para aumentar o desempenho em uma luta prolongada (e neste caso já estamos falando da questão esportiva, a qual deve ser levada em consideração de forma criteriosa pelos argumentos apresentados no parágrafo anterior) são enfatizados para viabilizar a prática da modalidade.  Pela minha experiência, aqueles que entram numa academia de Karate-Do para melhorar a a forma física não ficam nem três meses.

Bem isso é o que tenho para comentar sobre este assunto.  Espero ter contribuido com o post do Retsudo.

Saudações   ;)   8)
ACTroyman
Zen Do-Kan (Filiada à IUSKF - Shin Shu-Kan)
RJ