Autor Tópico: Schopenhauer e a honra cavalheiresca.  (Lida 2252 vezes)

Offline Fabiyo

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Schopenhauer e a honra cavalheiresca.
« Online: Março 30, 2007, 07:00:19 »
(Trechos retirados do “Tratado sobre a honra” e A. Shopenhauer)

Nesse tratado, Shopenhauer fala sobre a honra em duas partes. Na primeira, ele discorre sobre a “honra e a verdade” e na segunda sobre a “honra cavalheiresca”, concluindo o tratado sobre uma consideração sobre esses dois tipos de honra. Os trechos a seguir foram retirados do capítulo sobre a honra cavalheiresca, e os últimos parágrafos que contém considerações (do próprio Shopenhauer) sobre esse tipo de honra. Divirtam-se.

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Não pode ser verdadeiro o ditado que se escuta frequentemente, “a honra vale mais do que a vida”. Pois a honra é apenas um meio para se obter aquilo que torna a vida agradável ou suportável. Além disso, uma vez que se perde a vida, ela não pode ser readquirida; no entanto é possível reconquistar a honra.
(...)
Quando a honra for ferida, ela pode ser restabelecida de imediato e por completo com um único método universal, o duelo. Se porém, o ofensor da nossa honra não pertença à classe dos que são reconhecidos no codex da honra cavalheiresca, (...) matá-lo logo.
Mas, se, (...) o ultrajado quiser evitar essa solução extrema, (...) um paliativo é o avantage, que consiste no seguinte: se o outro foi rude, ser ainda mais rude; senão der certo com os insultos, golpear. Nesse caso também se encontra um clímax de salvação da honra: bofetadas se curam com bastonadas, e estas com chicotadas, contra as quais alguns recomendam o ato de cuspir como sendo eficaz.
(...)
Se alguém demonstra durante uma discussão um conhecimento de causa mais correto, (...) ou um juízo mais sensato, (...) podemos eliminar esta ou qualquer outra superioridade, (...) por meio da grosseria: uma grosseria supera e vence qualquer argumento.
(...)
O supremo tribunal da honra (...) é o da superioridade física, isto é, da animalidade. Toda grosseria é, de fato, uma apelação para a animalidade, pois declara incompetente a luta das forças intelectuais ou dos direitos morais. (...) A honra cavalheiresca poderia ser chamada, de modo bastante apropriado, de “honra do mais forte”. [A ironia é percebida com mais evidência em alemão, pois a expressão empregada por Schopenhauer, Faust-Recht, “direito do mais forte”, significa literalmente “direito do punho” e, portanto, Faust-Ehre é literalmente a “honra do punho”.]
(...)
Muitos dos que foram inoculados desde a tenra juventude por esses princípios, (...) nutrem em relação a eles um respeito profundo e sincero e estão (...) prontos para sacrificar (...) a própria felicidade, a paz, a saúde e a vida. (...) Os seguidores do código de honra consideram seus princípios como surgidos da natureza humana e, portanto, como inatos.
(...)
Eu diria que os gregos e romanos também foram sondados e mesmo verdadeiros heróis (...): o duelo não era coisa dos nobres do seu povo, mas de gladiadores a soldo, de escravos abandonados e de criminosos condenados que, alternando-se com bestas ferozes, eram atiçados uns contra os outros para divertimento do povo. Quando, certa vez, um chefe teutônico desafiou Marius para um duelo, este mandou diser-lhe: “Se ele está cansado da vida, que se enforque.”
(...)
Quão pouca noção até mesmo os maiores heróis tinham do significado terrível de um golpe é demonstrado por Plutarco em seu relato sobre Temístocles, (...) que Euribíades levantou a bengala para golpear Temístocles, mas este nem ao menos pôs a mão na espada, dizendo apenas: “Golpeia-me, mas ouve-me.” (...)
(...)
Quando alguém deu um pontapé em Sócrates porque seu moralizar o desagradava, ele o suportou pacientemente e disse a quem se espantou: “Se um asno tivesse me batido, teria eu o acusado em juízo?”. (...) Crates tinha irritado com suas indiretas o músico Nicodromo, que, por isso, deu-lhe uma bofetada tal que seu rosto ficou inchado e ensangüentado. Crates pendurou então sobre sua testa, acima da face golpeada, uma tabuleta com a inscrição “Nicodromos fecit” (...) para que todos pudessem ver a infâmia daquele citaredo, que cometera tal brutalidade contra um homem que era honrado como um semideus.
(...)
O mesmo fez Diógenes quando recebeu golpes de alguns jovens (...). Numa carta sobre isso (...) ele diz: “(...) O corpo de Diógenes foi com efeito golpeado, porém sua virtude não foi ultrajada, pois, por gente desprezível, não se pode nem ser honrado, nem ultrajado.”
(...)
Como vemos, os bons antigos consideraram que a palavra e o ato podem trazer honra ou vergonha sempre e somente para aquele do qual provêm e para nenhum outro.
(...)
O princípio da honra cavalheiresca não pode ser algo originário, proveniente da própria natureza humana. Mas de onde vem, então? Manifestamente é um filho daquela época em que os punhos eram mais utilizados que o juízo, em que a padralhada conseguia subjugar e enevoar a razão por completo: a escura Idade Média, o período da cavalaria.
(...)
Muitas vezes, vêem-se pessoas, em geral sensatas e capazes, cometerem seriamente a estupidez de enfrentarem-se, para servirem de alvo umas às outras, e isso porque alguém lhes fez acreditar que a honra o exige?
(...)
Uma formação intelectual mais elevada deveria impedir o homem tanto de insultar quato de golpear, mesmo quando fosse provocado, pois ele entenderia que, de tal modo, colocar-se-ia no mesmo nível dos mais vis e dures e desceria ao campo de batalha da mera natureza animal.
(...)
Um homem sensato pode extravasar sua irritação ou seu desgosto por meio de uma reação proporcional ao fato, mas isso deve ser mais tolerado como fraqueza humana do que como um dever que lhe é exigido para salvar sua honra. E, portanto, se contrariamente ele pensa o suficiente para não se importar, sua honra, em vez de sofrer as conseqüências, poderá até mesmo ganhar com isso.
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Offline Fabiyo

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Schopenhauer e a honra cavalheiresca.
« Resposta #1 Online: Abril 01, 2007, 00:13:03 »
Só para voltar para a frente.
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Offline Fabiyo

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Schopenhauer e a honra cavalheiresca.
« Resposta #2 Online: Abril 01, 2007, 00:16:02 »
Mostrei esse livro para o Carlão outro dia e ele gostou, foi escrito por um japonês descendente de samurais que estudou na Europa, é um livro com uma cara tradicional escrito numa linguagem ocidental. Recomendo:

http://compare.buscape.com.br/bushido-alma-de-samurai-inazo-nitobe-8599150030.html?pos=3
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