Autor Tópico: Reuni√£o em Okinawa  (Lida 10950 vezes)

Offline yama

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Reuni√£o em Okinawa
« Online: Maio 13, 2006, 21:08:26 »
Oss Netto Sensei ou Katsumoto Sensei:
         Por favor me esclare√ßam:
Na revista nova de Arte Marcial foi colocada na parte Shotokan que houve uma reunião em Okinawa com os Mestres Funakoshi/ Myagi/ Mabuni/ Chibana e alguns outros para una unificação da arte marcial de Okinawa, onde Funakoshi Sensei foi voto vencido.
Como nunca havia ouvido ou lido este tipo de informação achei muito interessante.
? houve realmente esta reuni√£o?
? teve desdobramentos?
?eles afirmam que Funakoshi Sensei traiu os principios de Okinawa,isto procede?
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alberto/Santos.
yama-Alberto S. Almeida

Neto110

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #1 Online: Maio 13, 2006, 21:12:39 »
J√° li que o Mestre Funakoshi foi escolhido para divulgar o karate no Jap√£o para que, divulgado nas ilhas principais, ele na√Ķ corresse o perigo de ser esquecido em Okinawa, uma escolha baseada em crit√©rios que eu julguei inteligentes: mandar o que teria mais chances de conseguir o objetivo.

Agora, esta afirmação implicaria em acesso a informes que não tenho notícia.

Vou aguardar quem conhece mais história para aprender junto com você.

Offline GigoFunakoshi

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #2 Online: Maio 13, 2006, 22:00:03 »
Osu!

Neto, pelo que eu ja li, o Gichin Funakoshi foi escolhido pra mostrar o Karate ao Jap√£o, principalmente por ser o que mais dominava a lingua japonesa, e n√£o por ser o melhor representante do Karate de Okinawa. √Č de conhecimento geral (pelo menos pra quem pesquisar a historia do Karate de Okinawa) que aquele considerado o melhor karateca de l√°, era Choki Motobu, muito conhecido pela famosa luta com um boxer europeu, onde ele nocauteou-o o boxer facilmente, mas qndo foi retratado na m√≠dia local, foi colocado o nome de Choki Motobu, mas em uma foto de Funakoshi! oq gerou mto atrito entre eles. Mas os principais motivos q n√£o foi Motobu escolhido era pq ele tinha a reputa√ß√£o de brigar mto, inclusive entrando em atrito direto com a Kodokan constantemente. Vou colocar links ricos em informa√ß√Ķes pra quem quiser saber sobre a historia do karate de Okinawa, soh q tah em ingl√™s e s√£o textos grandes:

http://ejmas.com/jcs/jcsart_noble1_0200.htm
http://www.fightingarts.com/reading/get_articles.php?cat=Karate
Só porque alguém encontrou paz com si mesmo, não quer dizer que esteja em paz com os outros."

Offline yama

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #3 Online: Maio 13, 2006, 22:07:08 »
Oss Netto Sensei
Em uma pesquisa anterior Katsumoto Sensei me deu uma grande explicação para a ida de Funakoshi Sensei para a ilha principal,quem sabe ele também tem algum informe sobre esta reunião.
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yama-Alberto S. Almeida

Offline katsumoto

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #4 Online: Maio 14, 2006, 00:00:35 »
Caro Yama,

O Sensei Funakoshi no início foi realmente atacado pelos Okinawenses por ensinar uma arte "secreta",ao povo Japonês.
Por√©m, com o tempo, e com a devida modifica√ß√£o que ele prop√īs ao Karate, fazendo dele algo diferente do que se ensinava em Okinawa, e ap√≥s a exibi√ß√£o para o Imperador, a coisa come√ßou a mudar de rumo.
Em Okinawa, o Karate tinha uma ênfase mais física.Funakoshi mudou isso, com a ajuda e incentivo de Mestre Jigoro Kano, que também modificou as tecnicas do Jiu Jitsu para o JUdo que conhecemos hoje.
Sobre a reuni√£o citada, n√£o disponho de dados que comprovem a mesma, por√©m j√° vi in√ļmeras fotos nas quais Funakoshi aparece ao lado de Chugun MIyagi e destes Mestres citados por vc. Tenho inclusive uma foto na qual Mestre Motobu aparece ao lado de Funakoshi, ambos vestidos com KImonos Tradicionais usados s√≥mente pelos Mestres da √©poca. Sem querer desmerecer a verecidade da informa√ß√£o da Revista, acho que provavelmente existe um Lobby negativo em rela√ß√£o ao Karate Shotokan, e , em particular a Mestre Funakoshi, que conseguiu, como ningu√©m,fazer do Karate a arte marcial Japonesa mais praticada no
mundo. :)
KATSUMOTO-Prof. Roberto Sant Anna

Offline yama

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #5 Online: Maio 14, 2006, 05:35:58 »
Oss Katsumoto Sensei o senhor tem sempre me salvo para melhor informar os alunos que sempre veem com indaga√ß√Ķes diferentes para a melhor conduta do caminho.

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Offline Juan (opasto)

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #6 Online: Maio 14, 2006, 09:06:03 »
Funakoshi, quando já estava no Japão, trocou o primeiro kanji do "Kara te do" para o significado de "caminho das mãos vazias" em lugar de "caminho das mãos chinesas", como parte de uma campanha de tornar que o karate fosse visto mais japonês e menos estrangeiro pelos japoneses. Além disso ele trocou os nomes dos katas Okinawenses/Chineses para "politicamente corretos" nomes japoneses. Pinan virou Heian, naihanchi - tekki, patsai - basai,kusanku - kanku, seisan - hangetsu, chinto - gankaku, e wansu - empi. Enfim, alterou os nomes para tornar a arte mais respeitaveis aos olhos dos burocratas japoneses.

Funakoshi queria que o karate fosse aceito como uma arte marcial oficial japonesa, assim como o judo. Para isso ele deveria persuadir a poderosa Dai Nippon Botuku-ka, a organização que licenciava as legitimas artes marciais no Japão. Isso agradou os burocratas mas provocou problemas em Okinawa.

Funakoshi conseguiu que o karate ficasse muito popular em Tokio, e se tornou a capital mundial do karate, e Okinawa ficou em segundo plano. Além disso, era apenas um dos estilos de karate de que estava sendo divulgado (Shuri-te).

Em 1936, os mestres de Okinawa se reuniram em Naha para discutir esse problema. Estavam nesta reunião Chojun Miyagi, Chotoku Kan, Choki Motobu e Shinpan Gusukuma entre outros. O karate se tornara popular na grande ilha e eles queriam ganhar algum crédito.

Nessa discussão eles decidiram adotar o "Karate-do" com novo kanji para todos os tipos de luta de mão vazias de Okinawa e não apenas para o Shuri-te. Eles também adotaram o uniforme desenvolvido por Funakoshi, ou seja resolveram capitalizar todo o sucesso que ele havia conseguido em Tokio.

Essa é a historia oficial do resultado transcrita no jornal de Okinawa.
A historia real é muito mais interessante, mas pouco conhecida. Eles discutiram o tempo todo ser sequer mencionar o nome de Funakoshi, e discussão foi muito dura e por momentos extremamente agressiva. Toda essa parte não aparece na transcrição oficial. Numa das partes mais acaloradas Motobu criticou muito Funakoshi, dizendo que ele era um impostor e que ensinava um karate falso.

Esta é uma tradução é de um livro americano que eu tenho "Shotokan's Secret" e cita como fonte o livro "Ancient Okinawan Martial Arts: Korryu Uchinadi" de Patrick McCarthy.

Este livro (Shotokan's Secret) é muito interessante e trata principalmente de tatemae e de honne. Honne se traduz com fatos verdadeiros de um caso, motivos reais, sentimentos verdadeiros e se escreve com o kanji que significa "verdade" com o kanji que significa "som". Tatemae significa historia de cobertura e se escreve com os kanjis que significam "construir" e "a frente", ou seja se esconde a verdade. O autor confronta várias tatemaes sobre o karate com pesquisa e relatos de diferentes autores.

 :)
OSS!
Juan Claudio Martin

Offline yama

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #7 Online: Maio 15, 2006, 06:39:35 »
Oss Opasto
 mas uma boa informa√ß√£o.

Oss
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yama-Alberto S. Almeida

Offline Arivaldo

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #8 Online: Maio 16, 2006, 16:26:58 »
Yama,
Depois que um pequeno grupo de entusiastas de karate liderados por Itosu, conseguiu que essa arte fosse introduzida no sistema escolar de Okinawa como uma forma de exerc√≠cio f√≠sico fez com que muitos professores/mestres encontrassem um meio de subsist√™ncia.  Muito mestres conhecidos por n√≥s tinham titulo de nobreza mas se encontravam na maior mis√©ria principalmente depois da revolu√ß√£o meiji (1868). Dai em diante as coisas come√ßaram a mudar :

1)Houve realmente est√° reuni√£o ? O que aconteceu e que os alunos mais antigos Funakoshi, Myagi, Hanashiro, Yabu, Chibana e outro se reuniram e criaram um centro de pesquisas e desenvolvimento que tinha por finalidade divulgar da forma que eles achavam  e como tinham aprendido de seus mestres a  arte marcial de Okinawa. O mestre Funakoshi participou da primeira forma√ß√£o sendo que a segunda forma√ß√£o desse citado centro de pesquisas Funakoshi n√£o se encontrava mais na ilha.

2) TEVE DESDOBRAMENTOS ? Esse centro de pesquisas evoluiu e hoje e a Federa√ß√£o de Karate de Okinawa. Como todos sabem os mestres de Okinawa n√£o aceitaram a id√©ia de serem avaliados pelo DA√ć NIPPON BUTOKUKAI com a alega√ß√£o que no Jap√£o n√£o tinha pessoa com capacidade suficiente para poder avaliar esses mestres. Na realidade eles tinham raz√£o, como pode um aluno do meu aluno me avaliar e por causa dessa discuss√£o o governo japon√™s aceita duas federa√ß√Ķes uma do jap√£o (JKF)  e outra de okinawa e tamb√©m n√£o quiseram se filiar a WUKO (WKF).

3) eles afirmam que Funakoshi Sensei traiu os princípios de Okinawa,isto procede?
Os mestres de okinawa n√£o foram contra Funakoshi por causa da divulga√ß√£o da arte marcial da ilha mais sim pelas modifica√ß√Ķes feitas por ele no karate principalmente nos katas. O mestre Funakoshi era considerado fraco por causa da forma como ele via o karate, como professor ele achava que o karate era para ser usado num processo de transforma√ß√£o e educa√ß√£o do ser humano. Diferente por exemplo do que pensava Motobu que de teoria n√£o tinha nada era pura pr√°tica e karate era para dar porrada.
Outro fato curioso que embora seja atribu√≠do a Funakoshi a mudan√ßa do kanji   que representava a dinastia Tang o primeiro mestre  a fazer o registro da mudan√ßa do ideograma para kara com significado vazio foi mestre Chomo Hanashiro disc√≠pulo direto de Matsumura em 1905 portanto antes de Funakoshi.

Oss,

Ari - Santos/SP

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #9 Online: Maio 16, 2006, 17:31:58 »
nada como um bom fórum para aprendermos coisas...

Offline RENGO-KAI

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #10 Online: Maio 16, 2006, 17:33:38 »
A transformação em BUDO E A CONTRIBUIÇÃO DE JIGORO KANO

 O surgimento da palavra "karat√©-do" √© indicador da influ√™ncia da cultura Japonesa sobre o T√Č de Okinawa (Naha-t√©, Shuri-t√© e Tomari-t√© como centros principais). Este movimento dos Okinawenses quererem o Okinawa-t√© como um Budo, encerra, quanto a n√≥s, uma riqueza operacional t√£o importante como a influ√™ncia Chinesa.

Curiosamente TOKITSU na sua magnífica obra de 1994, evidencia a precocidade com que o Karaté se tornou um Budo, fazendo a apologia de que, ao contrário de outros Budo, o desenvolvimento do Karaté ainda não está suficientemente maduro.

TOKITSU (1994) coloca o Dr. Jigoro Kano (1860-1938) como personagem fundamental no desenvolvimento recente do Karat√©. Em primeiro lugar, quando Gichin Funakoshi (1868-1957) √© encarregado de ir a Kyoto fazer a apresenta√ß√£o do Karat√© de Okinawa no √Ęmbito de uma exposi√ß√£o nacional de educa√ß√£o f√≠sica em 1921, est√° longe de pensar que n√£o voltaria t√£o cedo a Okinawa; Jigoro Kano, que tinha fun√ß√Ķes importantes no minist√©rio da educa√ß√£o, convida-o a fazer uma apresenta√ß√£o do Karat√© no seu dojo de Judo em T√≥quio: K√īd√īkan (17 de Maio de 1921).

Segundo relatos de Shinkin Gima, origin√°rio de Okinawa e estudante universit√°rio que participou nessa demonstra√ß√£o, ap√≥s G. Funakoshi fazer a apresenta√ß√£o do Karat√© de Okinawa e do itiner√°rio de cada um deles, executou o Kata K√Ľshank√Ľ e, de seguida, Gima executou o Kata Naifanchi. Depois fizeram um exerc√≠cio de combate convencional. No fim da demonstra√ß√£o Jigoro Kano disse a G. Funakoshi: "Penso que o karat√© √© uma arte marcial honrosa. Se a quiser difundir em Hondo [ilha central do Jap√£o], conte com qualquer tipo de ajuda. Diga-me o que posso fazer por si". Pensa-se que foram estas palavras que encorajaram Funakoshi na divulga√ß√£o do Karat√© de Okinawa e que o fizeram decidir pela renuncia ao retorno a Okinawa (TOKITSU, 1994, pp. 61-64).

Mas a sua influência não se fica exclusivamente pelo Okinawense G. Funakoshi. Na sua primeira viagem a Okinawa em 1922, Jigoro Kano "faz um discurso sobre o budo japonês que provoca, nos adeptos de Okinawa, uma reflexão sobre a qualidade cultural da sua arte e a consciência da sua vocação" (TOKITSU, 1994, p.85). Em 1926, na sua segunda viagem a Okinawa, é preparada uma demonstração em sua honra e Chojun Miyagi (1888-1953) foi encarregado de a comentar. Miyagi desenvolve a partir daí uma atitude determinada em relação ao desenvolvimento do Karaté de Okinawa descrita num comentário referido a um dos seus discípulos (Niisato): "O Homem deve engrandecer o seu próprio ser pela prática do Budo, como o refere Mestre Kano. Quero tornar o Karaté digno de estar no nível do Budo pela sua qualidade [...]" (Ibidem).

Jigoro Kano chega a dizer a C. Miyagi e K. Mabuni (1889-1953): "Penso que do ponto de vista da educação física e moral, a arte de combate de Okinawa no futuro deverá ser desenvolvida em grande escala. Logo que obtenha um certo grau de difusão em Hondo (ilha principal do Japão), terá, naturalmente, uma hipótese de ser integrado no Butokukai. Gostaria que tivésseis em conta esta questão e que considerásseis a vossa arte do ponto de vista global do Japão" (Ibidem, p. 95).

Sendo membro da C√Ęmara dos Pares, com responsabilidades no minist√©rio da educa√ß√£o e tendo sido condecorado com a Ordem de M√©rito que, institu√≠da pelo governo Japon√™s, era uma das mais altas distin√ß√Ķes do estado, Jigoro Kano tinha uma posi√ß√£o hier√°rquica bem superior √† do mais alto dignit√°rio de Okinawa. O seu interesse ecl√©tico pelo Karat√© influenciou de forma marcante a direc√ß√£o do seu desenvolvimento moderno que os Mestres de Okinawa passaram a protagonizar de forma coordenada. Houve, assim, uma influ√™ncia "externa" que lan√ßou um objectivo comum a todos eles: tornar a "arte de Okinawa" um Budo.

Fica-nos, deste modo, evidenciado o facto de o Karaté não ser um fenómeno isolado, mas sim um confluir de vários conhecimentos num determinado espaço-tempo.

Offline RENGO-KAI

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #11 Online: Maio 16, 2006, 17:35:10 »
MASSIFICAÇÃO

Primeiro Momento de Massificação (Okinawa)...

No que respeita à forma de gestão do treino, curiosamente, TOKITSU (1994) lança a mesma relação que vem na linha da que fizemos em 1987: a influência das metodologias de instrução militar nas aulas de Karaté.

Julgamos que Ank√ī Itosu (1830-1915), aluno de Matsumura e um dos mestres de G. Funakoshi, foi aqui um dos personagens mais importantes ao ser o protagonista fundamental da massifica√ß√£o do ensino de Karat√©. Somos em crer que essa massifica√ß√£o acarretou novas metodologias de ensino. "A pedagogia de Itosu inspirou-se nos m√©todos de forma√ß√£o dos soldados que o Jap√£o acabava de importar da Europa. Na escola um instrutor dirigia numerosos alunos gritando uma ordem para cada gesto a executar, o que n√£o era habitual no ensino tradicional" (TOKITSU, 1994, p. 52).

Kents√Ľ Yabu (1863-1937) foi um dos seus alunos que mais influ√™ncia teve neste processo j√° que, al√©m de ter sido um dos tr√™s alunos de Itosu que foram os √ļnicos candidatos de Okinawa seleccionados para o ex√©rcito Japon√™s, foi condecorado pelos seus valorosos feitos na Guerra contra a China que acabou em 1895 com a vit√≥ria Japonesa. Aut√™ntico her√≥i, em 1899 escreve um conjunto de artigos onde se insistia na import√Ęncia da educa√ß√£o das crian√ßas em escola prim√°ria e em 1901, tr√™s anos antes da Guerra Russo-Japonesa e num per√≠odo de refor√ßo militar, "Itosu e o seu grupo conseguem fazer adoptar o Karat√© para a Educa√ß√£o F√≠sica na escola prim√°ria de Okinawa", ficando Itosu respons√°vel por esse ensino. "Em 1905 o Karat√© foi definitivamente adoptado como disciplina de Educa√ß√£o F√≠sica no liceu e na escola normal de Okinawa" (TOKITSU, 1994, p. 51), ficando K. Yabu como professor de Educa√ß√£o F√≠sica e de prepara√ß√£o militar na escola normal e um dos seus companheiros Chomo Hanashiro fica a fazer o mesmo no liceu. (Ibidem, p. 52).

A influência de K. Yabu, sargento do exército Japonês e, assim, com experiência nas metodologias militares de instrução de soldados, como um dos introdutores do Karaté no ensino escolar. Itosu, Yabu e Hanashiro tornam-se então os percursores do ensino massivo de estilo comando que marca a forma extremamente organizada dos treinos colectivos que ainda hoje se observa facilmente em alguns dojo de Karaté.

Os primeiros movimentos de massifica√ß√£o da pr√°tica do Karat√©, pelo per√≠odo caracter√≠stico, s√£o movimentos claramente impregnados das metodologias de instru√ß√£o militar, em perfeita coer√™ncia com o esp√≠rito militarista da √©poca. Veja-se numa das instru√ß√Ķes de Itosu de 1908:

O Karat√© tem por objectivo principal tornar o corpo robusto como o a√ßo e de fazer dos membros lan√ßas e arp√Ķes. Naturalmente que ele cultiva uma for√ßa de vontade marcial. Assim, se o ensinarmos √†s crian√ßas desde a idade da escola prim√°ria, ter√£o ocasi√£o de aplicar o karat√© √†s outras artes logo que se tornem soldados. Como militares, poder√£o ser √ļteis √† sociedade no futuro. O General Wellington disse a Napole√£o I: 'a batalha de hoje pode ser ganha sobre o terreno da escola do nosso pa√≠s'. Esta frase deve ser compreendida como uma m√°xima importante." (TOKITSU, 1994, p. 53).

Falta-nos saber se este tipo de argumentação foi utilizada apenas para ganhar terreno para o Karaté permanecer nas escolas ou, por convicção própria.

A consciência deste tipo de argumentos, completamente incoerentes com a actual episteme, é muito interessante principalmente para situarmos o que hoje se faz em alguns dojo.

Offline RENGO-KAI

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #12 Online: Maio 16, 2006, 17:36:06 »
Segundo Momento de Massificação (Japão)
Em 1917 o Karaté sai de Okinawa e penetra na ilha principal (Hondo) do Japão com uma demonstração no Butoku-den em Kyoto. No entanto, como já vimos, é a partir da demonstração de 1921 no Kodokan de Jigoro Kano (Tóquio) que sobre influência inicial de G. Funakoshi (1868-1957) se começa a expandir o Karaté na ilha principal do Japão. Em 1924 forma-se o primeiro clube universitário na Universidade de Keio.

A massificação característica desta primeira expansão pelo "continente" nipónico culmina com o reconhecimento oficial do Karaté como uma das artes marciais Japonesas e fundação do Ramo de Okinawa no Dai Nippon Butokukai em 1933, sendo em 1936 que o termo Karaté-do passa a ser oficialmente utilizado para designar a arte marcial nacional de Okinawa.

Al√©m da influ√™ncia clara sobre a promo√ß√£o dos estilos de ensino e treino colectivos caracter√≠sticos da instru√ß√£o militar, a expans√£o e massifica√ß√£o do Karat√©, que da educa√ß√£o escolar de Okinawa passou √† massifica√ß√£o generalizada no continente, fomentou o surgimento de outras formas de treino, dessacralizando a exclusividade das formas anteriores fundamentadas no Kata. Esta fundamenta√ß√£o pode-se ver claramente pelo testemunho de Shinkin Gima que entrou na escola normal de Okinawa em 1912 e que traduz precis√Ķes sobre o ensino de Yabu (TOKITSU, 1994, p. 57):

O meu professor de karat√© na Escola Normal foi Mestre Yabu [...]. Ensinou-nos o karat√© a partir do √ļnico Kata Naifanchi. Pratiquei-o durante cinco anos. O Mestre Itosu tinha j√° mais de 80 anos mas vinha sempre ver as aulas de Mestre Yabu... Mestre Yabu repetia-nos muitas vezes: "O essencial do karat√© est√° contido no Naifanchi" e n√£o ensinava os Pinan [...] Este Kata cont√©m os tr√™s Naifanchi actuais mas n√£o podemos fazer compara√ß√Ķes j√° que s√£o muito abreviados e bastante diferentes da forma cl√°ssica.

Principalmente nas Universidades nipónicas e na perspectiva de se conseguir testar o nível em que se estava perante um determinado processo de treino, sem que isso obrigasse necessariamente ao confronto "real", foram surgindo formas de Kumité cada vez mais elaborado (regulamentado).

Paralelamente, alguns praticantes dos pr√≥prios budo do Jap√£o v√£o tendo influ√™ncia no desenvolvimento do Karat√©. J√° esbo√ßamos a clara influ√™ncia do Judo de Jigoro Kano. Um outro personagem importante para a hist√≥ria do Karat√© foi Hironori √Ētsuka (1892-1982) que grandemente marcado pela l√≥gica do combate, principalmente influenciado pela sua pr√°tica de jujustu e do sabre japon√™s desde os cinco anos, ap√≥s ano e meio de iniciar a pr√°tica de Karat√© com G. Funakoshi, no sentido do aprofundamento dos seus conhecimentos de jujustu, sente que nos quinze Kata ent√£o ensinados por G. Funakoshi existiam elementos inaplic√°veis em combate (TOKITSU, 1994, p.133).

Quando G. Funakoshi foi convidado por Jigoro Kano (fundador do Judo) para dar uma demonstra√ß√£o no dojo do pal√°cio imperial, com H. √Ētsuka decidiu que, querendo afirmar o Karat√© como BUDO, seria insuficiente mostrar apenas os Kata. √Ētsuka elaborou a partir do modelo de treino do jujutsu alguns Kata de combate que foram muito apreciados. Tornando-se √Ētsuka assistente no dojo de Funakoshi, v√£o-se desenvolvendo v√°rios yakusoku-kumit√© ou exerc√≠cios convencionados de combate a partir do jujutsu.

Mas TOKITSU refere-nos que √Ētsuka n√£o fica por aqui j√° que vai avan√ßando para a elabora√ß√£o no treino de Karat√© de espa√ßos e exerc√≠cios de combate livre importando modelos tanto do kendo como do boxe. Acaba por se separar de Funakoshi que o criticava expressamente: "Ele modifica o essencial do karat√© trazendo demasiados elementos de jujutsu" (in: TOKITSU, 1994, p. 133). Nasceu ent√£o o Wado-ryu.

Offline RENGO-KAI

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« Resposta #13 Online: Maio 16, 2006, 17:37:15 »
Terceiro Momento de Massificação (O Mundo)
A II Guerra Mundial vem destruir os principais dojo do Japão, interrompendo a sua evolução.

Uma primeira consequ√™ncia foi o afastamento de muitos mestres da sua pr√°tica p√ļblica ap√≥s a Guerra, o que faz emergir um grande conjunto de novos mestres. NAGAMINE (1976. p. 25), relativamente a esta situa√ß√£o particular refere-nos de forma pertinente o seguinte:

Dos muitos instrutores de Karat√© no Jap√£o durante os anos 30, apenas alguns - notavelmente Kokyu Konishi e Shinjun Otsuka - ainda se devotaram ao Karat√©-do ap√≥s a Guerra. As raz√Ķes da falta de instrutores pode ser atribu√≠da √† breve hist√≥ria do Karat√© no Jap√£o, aos estragos causados pela Guerra, e h√° descontinuidade dos treinos de Karat√© provocada pela Guerra.
Estas circunst√Ęncias ajudaram a criar um novo fen√≥meno no Jap√£o - o surgimento de 'instrutores instant√Ęneos de Karat√©'. H√° muitos exemplos e epis√≥dios relacionados com este fen√≥meno [...]

O introdutor do Karat√© na Europa evidenciou recentemente que ap√≥s a pior √©poca da hist√≥ria do Jap√£o (a da humilhante derrota na II Guerra Mundial) "[...] os grandes mestres n√£o poderiam revelar prematuramente o verdadeiro Karat√© aos jovens 'mestres' japoneses. Inevitavelmente estes √ļltimos te-los-iam revelado por ingenuidade, por 'honestidade', por interesse, por vaidade ou por estupidez [...]". Henri PL√ČE (1994, p. 23) confirma ainda a tese do secretismo ao afirmar que √© preciso ser "[...] bastante cego para recusar admitir que os Japoneses e os Chineses nos 'venderam' apenas um dos aspectos das suas Artes Marciais [...]: o Karat√© espect√°culo".

Assim, longe do "verdadeiro Karat√©" dos "verdadeiros mestres" o p√≥s-guerra criou condi√ß√Ķes para que surgissem novas formas de treino, consolidadas com perspectivas pr√≥ximas do Kendo e do Jujutsu, onde os exerc√≠cios de pares s√£o importantes e o jogo de combate assume bastante relev√Ęncia. Foi-se acentuando o campo para o surgimento do fen√≥meno competitivo institucionalizado.

Em 1951 a JKA adopta a prática de Kumité e em 1957 acontecem os primeiros campeonatos japoneses de Karaté.

Por outro lado, a Guerra vem trazer o campo para a expansão mundial do Karaté. São os oficiais e soldados norte-americanos que, interessados pelos desportos de combate tradicionais do Japão, iniciam a aprendizagem do Karaté.

Em 1966 é fundada a EKU (European Karatedo Union), tendo lugar em Paris os primeiros campeonatos Europeus de Karaté. Em 1970, em Tóquio, funda-se a WUKO (World Union of Karatedo Organizations) e decorrem os primeiros campeonatos mundiais de Karaté. Inicia-se, pois, uma outra expansão mundial, baseada essencialmente na vertente competitiva institucionalizada, expansão essa que Portugal agarra formalmente em 1972 com a participação do CPK nos segundos campeonatos mundiais em Paris.

Estará assim, derradeiramente traçado o futuro do Karaté? Shigeru Egami (1912-1981) interrogou-se profundamente sobre o desenvolvimento do Karaté (in: TOKITSU, 1994, pp. 147-148):

√Č necess√°rio afirmar que a situa√ß√£o actual no Karat√© √© de degrada√ß√£o completa. Face a esta situa√ß√£o, sinto uma certa responsabilidade. Na minha juventude, pensei e agi sobre a ideia directriz de me tornar eficaz face a uma situa√ß√£o real. Pratiquei ent√£o principalmente o combate livre que foi a forma original do actual combate de competi√ß√£o. Para tornar potentes os meus golpes de punhos, treinei-me no makiwara mais rijo. Afastei-me portanto do treino essencial. N√£o compreendo porque √© que o Karat√© continua hoje a evoluir na direc√ß√£o errada que era a nossa j√° h√° muitas dezenas de anos, em oposi√ß√£o √† direc√ß√£o correcta. Se definirmos o karat√© exclusivamente como uma competi√ß√£o desportiva, n√£o terei mais nada a dizer. Mas n√£o √© tempo de reflectir para redefinir o que dever√° ser o karat√©?

Offline RENGO-KAI

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Reuni√£o em Okinawa
« Resposta #14 Online: Maio 16, 2006, 17:37:47 »
CONCLUSÃO
Sem d√ļvida que a partir de Ank√ī Itosu o Karat√© de Okinawa fica com outra vertente direccionadora: a massifica√ß√£o das suas virtualidades educativas. √Č o primeiro momento de sa√≠da do segredo que vai ser consolidado posteriormente com as interven√ß√Ķes de G. Funakoshi, C. Miyagi, K. Mabuni e H. Otsuka que, principalmente os tr√™s primeiros, sob est√≠mulo evidente de Jigoro Kano, v√£o direccionando a arte de Okinawa para o Karat√©-do (budo).

São estes movimentos expansivos e massificadores que aumentam as probabilidades de existirem movimentos inovadores como os de H. Otsuka, Yoshitaka Funakoshi, Shigeru Egami e os dos alunos universitários que iniciam um desenvolvimento característico das formas de treino mais preocupadas com o Kumité (combate livre ritualizado).

Após a II Guerra Mundial emerge assim o fenómeno competitivo institucionalizado mais característico na ilha principal do Japão do que de Okinawa. Aqui continua-se a viver o Karaté centrado na prática dos Kata e do endurecimento do corpo, sendo o Kumité tradicionalmente uma zona de grande secretismo.

Entre estes dois extremos, que futuro para o Karaté?

Julgamos que a institucionalização do fenómeno competitivo no Karaté veio abrir o secretismo da problemática do Combate Livre e da respectiva preparação (treino) para aumentar as probabilidades de vencer.

O esp√≠rito mistificador das quest√Ķes acess√≥rias, como nos tem alertado H. PL√ČE (1994), ficou evidente quando vemos que a forma organizada e o estilo de comando que caracterizam uniformemente a maioria das aulas actuais de Karat√©, prendem-se com os primeiros momentos massificadores de 1902, onde se propunham claros objectivos de prepara√ß√£o militar incrementados at√© o in√≠cio da d√©cada de 40. Curiosamente, mesmo ap√≥s a Guerra e com o desenvolvimento do fen√≥meno competitivo, poucos s√£o os que fizeram o corte com os aspectos formais para penetrarem nos de conte√ļdo.

Somos em crer que se trata de uma nova era que, necessariamente, repetir√° alguns ciclos hist√≥ricos j√° esbo√ßados anteriormente, mas num outro enquadramento, ou seja, numa nova episteme: a da transi√ß√£o do s√©culo XX para o XXI. Em analogia √† opera√ß√£o fundamental do paradigma emergente, onde o conhecimento cient√≠fico se vai tornando senso comum, dir√≠amos que poder√° ser o est√≠mulo da problematiza√ß√£o do Karat√© espect√°culo que nos far√° (enquanto senso comum) ver o √Ęmago do Karat√©.