Autor Tópico: Reunião em Okinawa  (Lida 10702 vezes)

Offline yama

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Reunião em Okinawa
« Online: Maio 13, 2006, 21:08:26 »
Oss Netto Sensei ou Katsumoto Sensei:
         Por favor me esclareçam:
Na revista nova de Arte Marcial foi colocada na parte Shotokan que houve uma reunião em Okinawa com os Mestres Funakoshi/ Myagi/ Mabuni/ Chibana e alguns outros para una unificação da arte marcial de Okinawa, onde Funakoshi Sensei foi voto vencido.
Como nunca havia ouvido ou lido este tipo de informação achei muito interessante.
? houve realmente esta reunião?
? teve desdobramentos?
?eles afirmam que Funakoshi Sensei traiu os principios de Okinawa,isto procede?
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alberto/Santos.
yama-Alberto S. Almeida

Neto110

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Reunião em Okinawa
« Resposta #1 Online: Maio 13, 2006, 21:12:39 »
Já li que o Mestre Funakoshi foi escolhido para divulgar o karate no Japão para que, divulgado nas ilhas principais, ele naõ corresse o perigo de ser esquecido em Okinawa, uma escolha baseada em critérios que eu julguei inteligentes: mandar o que teria mais chances de conseguir o objetivo.

Agora, esta afirmação implicaria em acesso a informes que não tenho notícia.

Vou aguardar quem conhece mais história para aprender junto com você.

Offline GigoFunakoshi

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Reunião em Okinawa
« Resposta #2 Online: Maio 13, 2006, 22:00:03 »
Osu!

Neto, pelo que eu ja li, o Gichin Funakoshi foi escolhido pra mostrar o Karate ao Japão, principalmente por ser o que mais dominava a lingua japonesa, e não por ser o melhor representante do Karate de Okinawa. É de conhecimento geral (pelo menos pra quem pesquisar a historia do Karate de Okinawa) que aquele considerado o melhor karateca de lá, era Choki Motobu, muito conhecido pela famosa luta com um boxer europeu, onde ele nocauteou-o o boxer facilmente, mas qndo foi retratado na mídia local, foi colocado o nome de Choki Motobu, mas em uma foto de Funakoshi! oq gerou mto atrito entre eles. Mas os principais motivos q não foi Motobu escolhido era pq ele tinha a reputação de brigar mto, inclusive entrando em atrito direto com a Kodokan constantemente. Vou colocar links ricos em informações pra quem quiser saber sobre a historia do karate de Okinawa, soh q tah em inglês e são textos grandes:

http://ejmas.com/jcs/jcsart_noble1_0200.htm
http://www.fightingarts.com/reading/get_articles.php?cat=Karate
Só porque alguém encontrou paz com si mesmo, não quer dizer que esteja em paz com os outros."

Offline yama

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Reunião em Okinawa
« Resposta #3 Online: Maio 13, 2006, 22:07:08 »
Oss Netto Sensei
Em uma pesquisa anterior Katsumoto Sensei me deu uma grande explicação para a ida de Funakoshi Sensei para a ilha principal,quem sabe ele também tem algum informe sobre esta reunião.
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yama-Alberto S. Almeida

Offline katsumoto

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Reunião em Okinawa
« Resposta #4 Online: Maio 14, 2006, 00:00:35 »
Caro Yama,

O Sensei Funakoshi no início foi realmente atacado pelos Okinawenses por ensinar uma arte "secreta",ao povo Japonês.
Porém, com o tempo, e com a devida modificação que ele propôs ao Karate, fazendo dele algo diferente do que se ensinava em Okinawa, e após a exibição para o Imperador, a coisa começou a mudar de rumo.
Em Okinawa, o Karate tinha uma ênfase mais física.Funakoshi mudou isso, com a ajuda e incentivo de Mestre Jigoro Kano, que também modificou as tecnicas do Jiu Jitsu para o JUdo que conhecemos hoje.
Sobre a reunião citada, não disponho de dados que comprovem a mesma, porém já vi inúmeras fotos nas quais Funakoshi aparece ao lado de Chugun MIyagi e destes Mestres citados por vc. Tenho inclusive uma foto na qual Mestre Motobu aparece ao lado de Funakoshi, ambos vestidos com KImonos Tradicionais usados sómente pelos Mestres da época. Sem querer desmerecer a verecidade da informação da Revista, acho que provavelmente existe um Lobby negativo em relação ao Karate Shotokan, e , em particular a Mestre Funakoshi, que conseguiu, como ninguém,fazer do Karate a arte marcial Japonesa mais praticada no
mundo. :)
KATSUMOTO-Prof. Roberto Sant Anna

Offline yama

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Reunião em Okinawa
« Resposta #5 Online: Maio 14, 2006, 05:35:58 »
Oss Katsumoto Sensei o senhor tem sempre me salvo para melhor informar os alunos que sempre veem com indagações diferentes para a melhor conduta do caminho.

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yama-Alberto S. Almeida

Offline Juan (opasto)

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Reunião em Okinawa
« Resposta #6 Online: Maio 14, 2006, 09:06:03 »
Funakoshi, quando já estava no Japão, trocou o primeiro kanji do "Kara te do" para o significado de "caminho das mãos vazias" em lugar de "caminho das mãos chinesas", como parte de uma campanha de tornar que o karate fosse visto mais japonês e menos estrangeiro pelos japoneses. Além disso ele trocou os nomes dos katas Okinawenses/Chineses para "politicamente corretos" nomes japoneses. Pinan virou Heian, naihanchi - tekki, patsai - basai,kusanku - kanku, seisan - hangetsu, chinto - gankaku, e wansu - empi. Enfim, alterou os nomes para tornar a arte mais respeitaveis aos olhos dos burocratas japoneses.

Funakoshi queria que o karate fosse aceito como uma arte marcial oficial japonesa, assim como o judo. Para isso ele deveria persuadir a poderosa Dai Nippon Botuku-ka, a organização que licenciava as legitimas artes marciais no Japão. Isso agradou os burocratas mas provocou problemas em Okinawa.

Funakoshi conseguiu que o karate ficasse muito popular em Tokio, e se tornou a capital mundial do karate, e Okinawa ficou em segundo plano. Além disso, era apenas um dos estilos de karate de que estava sendo divulgado (Shuri-te).

Em 1936, os mestres de Okinawa se reuniram em Naha para discutir esse problema. Estavam nesta reunião Chojun Miyagi, Chotoku Kan, Choki Motobu e Shinpan Gusukuma entre outros. O karate se tornara popular na grande ilha e eles queriam ganhar algum crédito.

Nessa discussão eles decidiram adotar o "Karate-do" com novo kanji para todos os tipos de luta de mão vazias de Okinawa e não apenas para o Shuri-te. Eles também adotaram o uniforme desenvolvido por Funakoshi, ou seja resolveram capitalizar todo o sucesso que ele havia conseguido em Tokio.

Essa é a historia oficial do resultado transcrita no jornal de Okinawa.
A historia real é muito mais interessante, mas pouco conhecida. Eles discutiram o tempo todo ser sequer mencionar o nome de Funakoshi, e discussão foi muito dura e por momentos extremamente agressiva. Toda essa parte não aparece na transcrição oficial. Numa das partes mais acaloradas Motobu criticou muito Funakoshi, dizendo que ele era um impostor e que ensinava um karate falso.

Esta é uma tradução é de um livro americano que eu tenho "Shotokan's Secret" e cita como fonte o livro "Ancient Okinawan Martial Arts: Korryu Uchinadi" de Patrick McCarthy.

Este livro (Shotokan's Secret) é muito interessante e trata principalmente de tatemae e de honne. Honne se traduz com fatos verdadeiros de um caso, motivos reais, sentimentos verdadeiros e se escreve com o kanji que significa "verdade" com o kanji que significa "som". Tatemae significa historia de cobertura e se escreve com os kanjis que significam "construir" e "a frente", ou seja se esconde a verdade. O autor confronta várias tatemaes sobre o karate com pesquisa e relatos de diferentes autores.

 :)
OSS!
Juan Claudio Martin

Offline yama

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Reunião em Okinawa
« Resposta #7 Online: Maio 15, 2006, 06:39:35 »
Oss Opasto
 mas uma boa informação.

Oss
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yama-Alberto S. Almeida

Offline Arivaldo

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Reunião em Okinawa
« Resposta #8 Online: Maio 16, 2006, 16:26:58 »
Yama,
Depois que um pequeno grupo de entusiastas de karate liderados por Itosu, conseguiu que essa arte fosse introduzida no sistema escolar de Okinawa como uma forma de exercício físico fez com que muitos professores/mestres encontrassem um meio de subsistência.  Muito mestres conhecidos por nós tinham titulo de nobreza mas se encontravam na maior miséria principalmente depois da revolução meiji (1868). Dai em diante as coisas começaram a mudar :

1)Houve realmente está reunião ? O que aconteceu e que os alunos mais antigos Funakoshi, Myagi, Hanashiro, Yabu, Chibana e outro se reuniram e criaram um centro de pesquisas e desenvolvimento que tinha por finalidade divulgar da forma que eles achavam  e como tinham aprendido de seus mestres a  arte marcial de Okinawa. O mestre Funakoshi participou da primeira formação sendo que a segunda formação desse citado centro de pesquisas Funakoshi não se encontrava mais na ilha.

2) TEVE DESDOBRAMENTOS ? Esse centro de pesquisas evoluiu e hoje e a Federação de Karate de Okinawa. Como todos sabem os mestres de Okinawa não aceitaram a idéia de serem avaliados pelo DAÍ NIPPON BUTOKUKAI com a alegação que no Japão não tinha pessoa com capacidade suficiente para poder avaliar esses mestres. Na realidade eles tinham razão, como pode um aluno do meu aluno me avaliar e por causa dessa discussão o governo japonês aceita duas federações uma do japão (JKF)  e outra de okinawa e também não quiseram se filiar a WUKO (WKF).

3) eles afirmam que Funakoshi Sensei traiu os princípios de Okinawa,isto procede?
Os mestres de okinawa não foram contra Funakoshi por causa da divulgação da arte marcial da ilha mais sim pelas modificações feitas por ele no karate principalmente nos katas. O mestre Funakoshi era considerado fraco por causa da forma como ele via o karate, como professor ele achava que o karate era para ser usado num processo de transformação e educação do ser humano. Diferente por exemplo do que pensava Motobu que de teoria não tinha nada era pura prática e karate era para dar porrada.
Outro fato curioso que embora seja atribuído a Funakoshi a mudança do kanji   que representava a dinastia Tang o primeiro mestre  a fazer o registro da mudança do ideograma para kara com significado vazio foi mestre Chomo Hanashiro discípulo direto de Matsumura em 1905 portanto antes de Funakoshi.

Oss,

Ari - Santos/SP

Neto110

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Reunião em Okinawa
« Resposta #9 Online: Maio 16, 2006, 17:31:58 »
nada como um bom fórum para aprendermos coisas...

Offline RENGO-KAI

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Reunião em Okinawa
« Resposta #10 Online: Maio 16, 2006, 17:33:38 »
A transformação em BUDO E A CONTRIBUIÇÃO DE JIGORO KANO

 O surgimento da palavra "karaté-do" é indicador da influência da cultura Japonesa sobre o TÉ de Okinawa (Naha-té, Shuri-té e Tomari-té como centros principais). Este movimento dos Okinawenses quererem o Okinawa-té como um Budo, encerra, quanto a nós, uma riqueza operacional tão importante como a influência Chinesa.

Curiosamente TOKITSU na sua magnífica obra de 1994, evidencia a precocidade com que o Karaté se tornou um Budo, fazendo a apologia de que, ao contrário de outros Budo, o desenvolvimento do Karaté ainda não está suficientemente maduro.

TOKITSU (1994) coloca o Dr. Jigoro Kano (1860-1938) como personagem fundamental no desenvolvimento recente do Karaté. Em primeiro lugar, quando Gichin Funakoshi (1868-1957) é encarregado de ir a Kyoto fazer a apresentação do Karaté de Okinawa no âmbito de uma exposição nacional de educação física em 1921, está longe de pensar que não voltaria tão cedo a Okinawa; Jigoro Kano, que tinha funções importantes no ministério da educação, convida-o a fazer uma apresentação do Karaté no seu dojo de Judo em Tóquio: Kôdôkan (17 de Maio de 1921).

Segundo relatos de Shinkin Gima, originário de Okinawa e estudante universitário que participou nessa demonstração, após G. Funakoshi fazer a apresentação do Karaté de Okinawa e do itinerário de cada um deles, executou o Kata Kûshankû e, de seguida, Gima executou o Kata Naifanchi. Depois fizeram um exercício de combate convencional. No fim da demonstração Jigoro Kano disse a G. Funakoshi: "Penso que o karaté é uma arte marcial honrosa. Se a quiser difundir em Hondo [ilha central do Japão], conte com qualquer tipo de ajuda. Diga-me o que posso fazer por si". Pensa-se que foram estas palavras que encorajaram Funakoshi na divulgação do Karaté de Okinawa e que o fizeram decidir pela renuncia ao retorno a Okinawa (TOKITSU, 1994, pp. 61-64).

Mas a sua influência não se fica exclusivamente pelo Okinawense G. Funakoshi. Na sua primeira viagem a Okinawa em 1922, Jigoro Kano "faz um discurso sobre o budo japonês que provoca, nos adeptos de Okinawa, uma reflexão sobre a qualidade cultural da sua arte e a consciência da sua vocação" (TOKITSU, 1994, p.85). Em 1926, na sua segunda viagem a Okinawa, é preparada uma demonstração em sua honra e Chojun Miyagi (1888-1953) foi encarregado de a comentar. Miyagi desenvolve a partir daí uma atitude determinada em relação ao desenvolvimento do Karaté de Okinawa descrita num comentário referido a um dos seus discípulos (Niisato): "O Homem deve engrandecer o seu próprio ser pela prática do Budo, como o refere Mestre Kano. Quero tornar o Karaté digno de estar no nível do Budo pela sua qualidade [...]" (Ibidem).

Jigoro Kano chega a dizer a C. Miyagi e K. Mabuni (1889-1953): "Penso que do ponto de vista da educação física e moral, a arte de combate de Okinawa no futuro deverá ser desenvolvida em grande escala. Logo que obtenha um certo grau de difusão em Hondo (ilha principal do Japão), terá, naturalmente, uma hipótese de ser integrado no Butokukai. Gostaria que tivésseis em conta esta questão e que considerásseis a vossa arte do ponto de vista global do Japão" (Ibidem, p. 95).

Sendo membro da Câmara dos Pares, com responsabilidades no ministério da educação e tendo sido condecorado com a Ordem de Mérito que, instituída pelo governo Japonês, era uma das mais altas distinções do estado, Jigoro Kano tinha uma posição hierárquica bem superior à do mais alto dignitário de Okinawa. O seu interesse eclético pelo Karaté influenciou de forma marcante a direcção do seu desenvolvimento moderno que os Mestres de Okinawa passaram a protagonizar de forma coordenada. Houve, assim, uma influência "externa" que lançou um objectivo comum a todos eles: tornar a "arte de Okinawa" um Budo.

Fica-nos, deste modo, evidenciado o facto de o Karaté não ser um fenómeno isolado, mas sim um confluir de vários conhecimentos num determinado espaço-tempo.

Offline RENGO-KAI

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Reunião em Okinawa
« Resposta #11 Online: Maio 16, 2006, 17:35:10 »
MASSIFICAÇÃO

Primeiro Momento de Massificação (Okinawa)...

No que respeita à forma de gestão do treino, curiosamente, TOKITSU (1994) lança a mesma relação que vem na linha da que fizemos em 1987: a influência das metodologias de instrução militar nas aulas de Karaté.

Julgamos que Ankô Itosu (1830-1915), aluno de Matsumura e um dos mestres de G. Funakoshi, foi aqui um dos personagens mais importantes ao ser o protagonista fundamental da massificação do ensino de Karaté. Somos em crer que essa massificação acarretou novas metodologias de ensino. "A pedagogia de Itosu inspirou-se nos métodos de formação dos soldados que o Japão acabava de importar da Europa. Na escola um instrutor dirigia numerosos alunos gritando uma ordem para cada gesto a executar, o que não era habitual no ensino tradicional" (TOKITSU, 1994, p. 52).

Kentsû Yabu (1863-1937) foi um dos seus alunos que mais influência teve neste processo já que, além de ter sido um dos três alunos de Itosu que foram os únicos candidatos de Okinawa seleccionados para o exército Japonês, foi condecorado pelos seus valorosos feitos na Guerra contra a China que acabou em 1895 com a vitória Japonesa. Autêntico herói, em 1899 escreve um conjunto de artigos onde se insistia na importância da educação das crianças em escola primária e em 1901, três anos antes da Guerra Russo-Japonesa e num período de reforço militar, "Itosu e o seu grupo conseguem fazer adoptar o Karaté para a Educação Física na escola primária de Okinawa", ficando Itosu responsável por esse ensino. "Em 1905 o Karaté foi definitivamente adoptado como disciplina de Educação Física no liceu e na escola normal de Okinawa" (TOKITSU, 1994, p. 51), ficando K. Yabu como professor de Educação Física e de preparação militar na escola normal e um dos seus companheiros Chomo Hanashiro fica a fazer o mesmo no liceu. (Ibidem, p. 52).

A influência de K. Yabu, sargento do exército Japonês e, assim, com experiência nas metodologias militares de instrução de soldados, como um dos introdutores do Karaté no ensino escolar. Itosu, Yabu e Hanashiro tornam-se então os percursores do ensino massivo de estilo comando que marca a forma extremamente organizada dos treinos colectivos que ainda hoje se observa facilmente em alguns dojo de Karaté.

Os primeiros movimentos de massificação da prática do Karaté, pelo período característico, são movimentos claramente impregnados das metodologias de instrução militar, em perfeita coerência com o espírito militarista da época. Veja-se numa das instruções de Itosu de 1908:

O Karaté tem por objectivo principal tornar o corpo robusto como o aço e de fazer dos membros lanças e arpões. Naturalmente que ele cultiva uma força de vontade marcial. Assim, se o ensinarmos às crianças desde a idade da escola primária, terão ocasião de aplicar o karaté às outras artes logo que se tornem soldados. Como militares, poderão ser úteis à sociedade no futuro. O General Wellington disse a Napoleão I: 'a batalha de hoje pode ser ganha sobre o terreno da escola do nosso país'. Esta frase deve ser compreendida como uma máxima importante." (TOKITSU, 1994, p. 53).

Falta-nos saber se este tipo de argumentação foi utilizada apenas para ganhar terreno para o Karaté permanecer nas escolas ou, por convicção própria.

A consciência deste tipo de argumentos, completamente incoerentes com a actual episteme, é muito interessante principalmente para situarmos o que hoje se faz em alguns dojo.

Offline RENGO-KAI

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Reunião em Okinawa
« Resposta #12 Online: Maio 16, 2006, 17:36:06 »
Segundo Momento de Massificação (Japão)
Em 1917 o Karaté sai de Okinawa e penetra na ilha principal (Hondo) do Japão com uma demonstração no Butoku-den em Kyoto. No entanto, como já vimos, é a partir da demonstração de 1921 no Kodokan de Jigoro Kano (Tóquio) que sobre influência inicial de G. Funakoshi (1868-1957) se começa a expandir o Karaté na ilha principal do Japão. Em 1924 forma-se o primeiro clube universitário na Universidade de Keio.

A massificação característica desta primeira expansão pelo "continente" nipónico culmina com o reconhecimento oficial do Karaté como uma das artes marciais Japonesas e fundação do Ramo de Okinawa no Dai Nippon Butokukai em 1933, sendo em 1936 que o termo Karaté-do passa a ser oficialmente utilizado para designar a arte marcial nacional de Okinawa.

Além da influência clara sobre a promoção dos estilos de ensino e treino colectivos característicos da instrução militar, a expansão e massificação do Karaté, que da educação escolar de Okinawa passou à massificação generalizada no continente, fomentou o surgimento de outras formas de treino, dessacralizando a exclusividade das formas anteriores fundamentadas no Kata. Esta fundamentação pode-se ver claramente pelo testemunho de Shinkin Gima que entrou na escola normal de Okinawa em 1912 e que traduz precisões sobre o ensino de Yabu (TOKITSU, 1994, p. 57):

O meu professor de karaté na Escola Normal foi Mestre Yabu [...]. Ensinou-nos o karaté a partir do único Kata Naifanchi. Pratiquei-o durante cinco anos. O Mestre Itosu tinha já mais de 80 anos mas vinha sempre ver as aulas de Mestre Yabu... Mestre Yabu repetia-nos muitas vezes: "O essencial do karaté está contido no Naifanchi" e não ensinava os Pinan [...] Este Kata contém os três Naifanchi actuais mas não podemos fazer comparações já que são muito abreviados e bastante diferentes da forma clássica.

Principalmente nas Universidades nipónicas e na perspectiva de se conseguir testar o nível em que se estava perante um determinado processo de treino, sem que isso obrigasse necessariamente ao confronto "real", foram surgindo formas de Kumité cada vez mais elaborado (regulamentado).

Paralelamente, alguns praticantes dos próprios budo do Japão vão tendo influência no desenvolvimento do Karaté. Já esboçamos a clara influência do Judo de Jigoro Kano. Um outro personagem importante para a história do Karaté foi Hironori Ôtsuka (1892-1982) que grandemente marcado pela lógica do combate, principalmente influenciado pela sua prática de jujustu e do sabre japonês desde os cinco anos, após ano e meio de iniciar a prática de Karaté com G. Funakoshi, no sentido do aprofundamento dos seus conhecimentos de jujustu, sente que nos quinze Kata então ensinados por G. Funakoshi existiam elementos inaplicáveis em combate (TOKITSU, 1994, p.133).

Quando G. Funakoshi foi convidado por Jigoro Kano (fundador do Judo) para dar uma demonstração no dojo do palácio imperial, com H. Ôtsuka decidiu que, querendo afirmar o Karaté como BUDO, seria insuficiente mostrar apenas os Kata. Ôtsuka elaborou a partir do modelo de treino do jujutsu alguns Kata de combate que foram muito apreciados. Tornando-se Ôtsuka assistente no dojo de Funakoshi, vão-se desenvolvendo vários yakusoku-kumité ou exercícios convencionados de combate a partir do jujutsu.

Mas TOKITSU refere-nos que Ôtsuka não fica por aqui já que vai avançando para a elaboração no treino de Karaté de espaços e exercícios de combate livre importando modelos tanto do kendo como do boxe. Acaba por se separar de Funakoshi que o criticava expressamente: "Ele modifica o essencial do karaté trazendo demasiados elementos de jujutsu" (in: TOKITSU, 1994, p. 133). Nasceu então o Wado-ryu.

Offline RENGO-KAI

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Reunião em Okinawa
« Resposta #13 Online: Maio 16, 2006, 17:37:15 »
Terceiro Momento de Massificação (O Mundo)
A II Guerra Mundial vem destruir os principais dojo do Japão, interrompendo a sua evolução.

Uma primeira consequência foi o afastamento de muitos mestres da sua prática pública após a Guerra, o que faz emergir um grande conjunto de novos mestres. NAGAMINE (1976. p. 25), relativamente a esta situação particular refere-nos de forma pertinente o seguinte:

Dos muitos instrutores de Karaté no Japão durante os anos 30, apenas alguns - notavelmente Kokyu Konishi e Shinjun Otsuka - ainda se devotaram ao Karaté-do após a Guerra. As razões da falta de instrutores pode ser atribuída à breve história do Karaté no Japão, aos estragos causados pela Guerra, e há descontinuidade dos treinos de Karaté provocada pela Guerra.
Estas circunstâncias ajudaram a criar um novo fenómeno no Japão - o surgimento de 'instrutores instantâneos de Karaté'. Há muitos exemplos e episódios relacionados com este fenómeno [...]

O introdutor do Karaté na Europa evidenciou recentemente que após a pior época da história do Japão (a da humilhante derrota na II Guerra Mundial) "[...] os grandes mestres não poderiam revelar prematuramente o verdadeiro Karaté aos jovens 'mestres' japoneses. Inevitavelmente estes últimos te-los-iam revelado por ingenuidade, por 'honestidade', por interesse, por vaidade ou por estupidez [...]". Henri PLÉE (1994, p. 23) confirma ainda a tese do secretismo ao afirmar que é preciso ser "[...] bastante cego para recusar admitir que os Japoneses e os Chineses nos 'venderam' apenas um dos aspectos das suas Artes Marciais [...]: o Karaté espectáculo".

Assim, longe do "verdadeiro Karaté" dos "verdadeiros mestres" o pós-guerra criou condições para que surgissem novas formas de treino, consolidadas com perspectivas próximas do Kendo e do Jujutsu, onde os exercícios de pares são importantes e o jogo de combate assume bastante relevância. Foi-se acentuando o campo para o surgimento do fenómeno competitivo institucionalizado.

Em 1951 a JKA adopta a prática de Kumité e em 1957 acontecem os primeiros campeonatos japoneses de Karaté.

Por outro lado, a Guerra vem trazer o campo para a expansão mundial do Karaté. São os oficiais e soldados norte-americanos que, interessados pelos desportos de combate tradicionais do Japão, iniciam a aprendizagem do Karaté.

Em 1966 é fundada a EKU (European Karatedo Union), tendo lugar em Paris os primeiros campeonatos Europeus de Karaté. Em 1970, em Tóquio, funda-se a WUKO (World Union of Karatedo Organizations) e decorrem os primeiros campeonatos mundiais de Karaté. Inicia-se, pois, uma outra expansão mundial, baseada essencialmente na vertente competitiva institucionalizada, expansão essa que Portugal agarra formalmente em 1972 com a participação do CPK nos segundos campeonatos mundiais em Paris.

Estará assim, derradeiramente traçado o futuro do Karaté? Shigeru Egami (1912-1981) interrogou-se profundamente sobre o desenvolvimento do Karaté (in: TOKITSU, 1994, pp. 147-148):

É necessário afirmar que a situação actual no Karaté é de degradação completa. Face a esta situação, sinto uma certa responsabilidade. Na minha juventude, pensei e agi sobre a ideia directriz de me tornar eficaz face a uma situação real. Pratiquei então principalmente o combate livre que foi a forma original do actual combate de competição. Para tornar potentes os meus golpes de punhos, treinei-me no makiwara mais rijo. Afastei-me portanto do treino essencial. Não compreendo porque é que o Karaté continua hoje a evoluir na direcção errada que era a nossa já há muitas dezenas de anos, em oposição à direcção correcta. Se definirmos o karaté exclusivamente como uma competição desportiva, não terei mais nada a dizer. Mas não é tempo de reflectir para redefinir o que deverá ser o karaté?

Offline RENGO-KAI

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Reunião em Okinawa
« Resposta #14 Online: Maio 16, 2006, 17:37:47 »
CONCLUSÃO
Sem dúvida que a partir de Ankô Itosu o Karaté de Okinawa fica com outra vertente direccionadora: a massificação das suas virtualidades educativas. É o primeiro momento de saída do segredo que vai ser consolidado posteriormente com as intervenções de G. Funakoshi, C. Miyagi, K. Mabuni e H. Otsuka que, principalmente os três primeiros, sob estímulo evidente de Jigoro Kano, vão direccionando a arte de Okinawa para o Karaté-do (budo).

São estes movimentos expansivos e massificadores que aumentam as probabilidades de existirem movimentos inovadores como os de H. Otsuka, Yoshitaka Funakoshi, Shigeru Egami e os dos alunos universitários que iniciam um desenvolvimento característico das formas de treino mais preocupadas com o Kumité (combate livre ritualizado).

Após a II Guerra Mundial emerge assim o fenómeno competitivo institucionalizado mais característico na ilha principal do Japão do que de Okinawa. Aqui continua-se a viver o Karaté centrado na prática dos Kata e do endurecimento do corpo, sendo o Kumité tradicionalmente uma zona de grande secretismo.

Entre estes dois extremos, que futuro para o Karaté?

Julgamos que a institucionalização do fenómeno competitivo no Karaté veio abrir o secretismo da problemática do Combate Livre e da respectiva preparação (treino) para aumentar as probabilidades de vencer.

O espírito mistificador das questões acessórias, como nos tem alertado H. PLÉE (1994), ficou evidente quando vemos que a forma organizada e o estilo de comando que caracterizam uniformemente a maioria das aulas actuais de Karaté, prendem-se com os primeiros momentos massificadores de 1902, onde se propunham claros objectivos de preparação militar incrementados até o início da década de 40. Curiosamente, mesmo após a Guerra e com o desenvolvimento do fenómeno competitivo, poucos são os que fizeram o corte com os aspectos formais para penetrarem nos de conteúdo.

Somos em crer que se trata de uma nova era que, necessariamente, repetirá alguns ciclos históricos já esboçados anteriormente, mas num outro enquadramento, ou seja, numa nova episteme: a da transição do século XX para o XXI. Em analogia à operação fundamental do paradigma emergente, onde o conhecimento científico se vai tornando senso comum, diríamos que poderá ser o estímulo da problematização do Karaté espectáculo que nos fará (enquanto senso comum) ver o âmago do Karaté.